Ao tomar conhecimento do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, a realizar-se de 3 a 13 de setembro em sua oitava edição, vi que o país homenageado será o Equador. As atividades ocorrerão em Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão. A realização é das Prefeituras e do SESC, ora celebrando seus oitenta anos.
Senti falta da participação de Jundiaí. E lembrei-me de nossa tradição no teatro amador no século passado. Eram inúmeros os grupos teatrais em funcionamento. Alguns, ligados às paróquias.
No Mosteiro de Sant’Ana, que todos em Jundiaí chamamos simplesmente “São Bento”, havia o Teatro da Mocidade Católica, órgão da Catholica Unio, orientação beneditina. Ali pontificavam o Abade Dom Pedro Roeser, que era considerado taumaturgo, e Dom Amaro Boedenmüller. Ambos alemães, mas afáveis e receptivos.
Havia o teatro da Matriz Nossa Senhora do Desterro, incentivado por “Padre Ricci”, que era, na verdade, Monsenhor Doutor Arthur Ricci. Foi o pároco da Igreja Matriz e batizou, deu a primeira Eucaristia, casou e deu extrema-unção, celebrando missa de corpo-presente e de sétimo dia para legiões jundiaienses.
Nasci, posso dizer, por causa do teatro. Meu pai, Baptista Nalini, que era mais conhecido como “João”, era ator, diretor, ensaiador, acumulava funções, junto ao Mosteiro beneditino, próximo à casa de sua família. O nome “João” surgiu quando de seu batizado. Levava o nome do avô materno, Baptista. Mas o sacerdote que celebrou o batismo entendeu que era preciso fosse chamado “João Baptista”, o precursor, primo de Jesus, filho de Isabel, a quem Maria visitara quando da gravidez. Cismou com “Baptista”, porque lembrava a confissão protestante. Por sinal muito séria e autenticamente cristã em sua origem.
Minha mãe era Benedicta Barbosa, com esse nome porque minha avó, Anna Rodrigues Barbosa, perdera alguns filhos durante a gravidez ou logo após o nascimento. Fez promessa para São Benedito, comprometendo-se a chamar “Benedito” ou “Benedita” quem viesse a nascer.
Minha mãe era muito bonita e interpretava no teatro da Matriz vários papéis. As apresentações eram no Salão Paroquial, depois convertido em Cine Marabá. Uma das suas interpretações, como “Rainha das Borboletas”, deixou meu pai entusiasmado. Tanto que, sem falar com ela, foi até à casa de meus avós e pediu ao João Barbosa, filho de Rita Langue, a mão de sua filha em casamento. Meu avô consentiu, também sem consultar a filha.
Com o matrimônio, minha mãe deixou de representar. Mas acompanhava os ensaios, que eram em minha casa. Servi de mascote. E meu pai continuou no Teatro Amador, agora no Grupo Dramático Guarany, das Indústrias Andrade Latorre, do industrial e depois prefeito Luiz Latorre.
Muita gente pertenceu a esse grupo, que continuava a ensaiar em minha casa: Luizinho Garcia, Antonio Oliveira, o “Batatais”, Roberto Boldrin, Natividade Boldrin, Mercedes Vaccari, Angélica Vaccari, Paulo Rodrigues Branco, João Mezzalira, tanta gente mais. Meu pai chegou a montar caprichado álbum, com sua letra bonita, de quem cursou a Escola Bento Quirino, em Campinas, identificando todos os partícipes dessa ingênua, saudável e promissora experiência. Ao fazer teatro, os amadores extravasavam talento, aliviavam sua carga emocional, aprendiam o vernáculo, passavam a enxergar a vida de outra forma.
Também vivenciei curta experiência de Teatro Amador no antigo Ginásio Divino Salvador, entre 1957 e 1963. No início, ali também funcionava o Seminário Salvatoriano e o teatro era uma ferramenta de aprendizado para os futuros sacerdotes.
Será que ainda existe Teatro Amador em Jundiaí? Ou somos condenados a permanecer escravos das telinhas e inertes, apenas a nos inebriar com o streaming?
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo