A segurança pública voltou ao centro da disputa pelo Governo de São Paulo. O tema passou a ocupar espaço de destaque nas agendas dos principais candidatos ao Palácio dos Bandeirantes e deve ser um dos principais eixos da campanha eleitoral de 2026.
A área ganhou relevância nas estratégias eleitorais tanto do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, quanto do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), oficializado candidato pelo partido. Enquanto o atual governador apresenta ações realizadas durante sua gestão, como investimentos nas forças de segurança e em tecnologia, o petista passou a priorizar o tema em sua pré-campanha e ampliou agendas pelo interior paulista.
Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que Haddad incluiu a segurança pública entre os principais pontos de sua estratégia eleitoral, ao lado de temas como educação e desenvolvimento econômico. A escolha do interior para uma das agendas partidárias também foi interpretada como uma tentativa de ampliar o diálogo com regiões consideradas estratégicas na disputa estadual.
O crescimento do tema no debate político, porém, também levanta questionamentos sobre quais medidas são realmente eficazes no enfrentamento da criminalidade. Especialistas ouvidos pelo Jornal de Jundiaí alertam que soluções baseadas apenas no endurecimento de penas não são suficientes e defendem maior investimento em inteligência, integração entre instituições e prevenção.
Além do aumento de penas
Para o advogado Dr. João Paulo Martinelli, mestre e doutor pela USP, ex-assessor da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e especialista em prevenção à lavagem de dinheiro entre outras formações, o aumento de penas costuma aparecer como uma resposta rápida em períodos eleitorais, mas não resolve isoladamente o problema da criminalidade. "Se penas duras, por si só, dessem resultado, nós teríamos uma sociedade com poucos crimes. É o discurso mais fácil."
Segundo Martinelli, o debate precisa incluir temas como investigação criminal, fortalecimento da inteligência, tecnologia e combate à lavagem de dinheiro. "Pouco se discutem os temas de investigação e inteligência: autonomia da polícia científica, fortalecimento do COAF, investimento em tecnologia e reforma da legislação dos crimes contra o sistema financeiro. É mais fácil ficar restrito aos crimes de rua do que chegar ao topo da criminalidade."
O advogado afirma que o combate às organizações criminosas depende da capacidade do Estado de atingir a estrutura financeira dos grupos. "A lei antifacção é um exemplo. O projeto inicial incluía crime de colarinho branco, mas o texto ficou restrito à base das organizações. O problema é que a população compra o discurso fácil do aumento de penas."
Sobre o uso de tecnologias de monitoramento, Martinelli avalia que os equipamentos podem contribuir, mas precisam estar associados ao compartilhamento de informações entre os órgãos de segurança. "Não adianta ter sistema de monitoramento sofisticado se essas informações não são utilizadas da melhor maneira. Dá para prender um ou outro, mas o caminho do dinheiro fica incompleto."
Respeito às garantias constitucionais
O presidente da OAB Jundiaí, Dr. Daniel Martinelli, afirma que a preocupação da população com a segurança pública é legítima, mas não pode justificar medidas que desrespeitem as garantias previstas na Constituição Federal. "Não há sombra de dúvidas de que a segurança pública é um tema central para os eleitores. No entanto, a visível insatisfação com o cenário atual não pode abrir margem para o descumprimento da Constituição Federal."
Segundo ele, o combate ao crime deve ocorrer dentro dos limites do Estado Democrático de Direito. "A repressão às condutas criminosas deve ser realizada pelas forças policiais, e os julgamentos, pelo Poder Judiciário, sempre com respeito ao devido processo legal. O que precisa ficar claro para a população é que a inobservância do procedimento pode gerar nulidades, desperdiçar o trabalho de uma prisão e, ainda, levar ao encarceramento de um inocente."
Para o presidente da OAB, a eficiência da segurança pública depende de investimentos nas instituições, valorização dos profissionais, integração entre União, Estados e municípios e fortalecimento dos serviços de inteligência. Ele também defende políticas preventivas, como educação, lazer, melhoria da iluminação pública e planejamento urbano. "Com facções cada vez mais organizadas e inseridas em diversos ciclos sociais, o enfrentamento exige ações eficazes e sem sensacionalismo, sobretudo no enfraquecimento financeiro dos grupos criminosos. Apenas prender as pessoas na ponta dessa rede, apesar de importante, não trará a solução para esse problema."
O papel dos municípios
O debate sobre segurança pública também amplia a discussão sobre a participação das administrações municipais, especialmente em relação às Guardas Municipais e aos investimentos em tecnologia.
Questionado pelo Jornal de Jundiaí sobre até onde o município pode avançar sem assumir atribuições das Polícias Militar e Civil, o secretário municipal de Segurança Pública de Jundiaí, Guilherme Balbino Rigo, afirmou que o fortalecimento da Guarda Municipal é uma das principais ferramentas de atuação da Prefeitura. "Não interessa a cor da farda e sim a resposta para quem precisa de socorro. É desta forma que trato a Segurança Pública em Jundiaí e é por isso que defendo com convicção o fortalecimento da Guarda Municipal como parte estrutural da proteção do cidadão, não como coadjuvante."
Segundo Rigo, a investigação criminal continua sendo atribuição da Polícia Judiciária, enquanto a Guarda Municipal atua na prevenção e no patrulhamento. "Isso é prevenção, seja antes do crime, seja diante da reiteração dele. A GMJ faz esse trabalho todo dia com inteligência aplicada e presença qualificada no território, sempre articulada com as demais polícias e com o sistema de Justiça."
O secretário afirma que Jundiaí mantém investimentos em equipamentos, capacitação e tecnologias de monitoramento. "Jundiaí investe em equipamentos, formação continuada e tecnologias de ponta, porque investir na própria Guarda é a única variável de segurança pública que está inteiramente sob controle do prefeito."
Ao comentar o debate eleitoral, Rigo defendeu que o tema seja tratado com responsabilidade. "Segurança pública é tema técnico e sensível demais para virar palanque político sensacionalista. Quem usa isso como munição de campanha erra o alvo e ainda atrasa o que protege o cidadão de verdade."