Outro dia, ouvindo mais atentamente “Quando a chuva passar’ escrita por Ramon Cruz e consagrada na voz de Ivete Sangalo, me deparei com a frase que encabeça meu artigo desta sexta, sobre o auxílio que a distância fornece para uma situação tensa e confusa, como na história narrada pela poesia cantada.
“Não só para isso” – falei para mim mesmo em voz baixa.
Era aquela mania de querer aplicar e “enxergar” sentidos biológicos em tudo escuto, toco e vejo. Uma mania por vezes inoportuna, mas por vez ou outra, traz-me insights interessantes e esse aqui eu compartilho com vocês.
A distância, realmente, é uma grandeza física geometricamente mensurável e bem objetiva, tanto que fazemos contas com ela e a envolvemos nos nossos exercícios de física desde o ensino médio. Contudo, quando um ser vivo a “cria” a partir do movimento do próprio corpo em relação aos elementos do ambiente, ela pode ser implementada de toda uma subjetividade que é característica às percepções do corpo diante do ambiente mutável.
Evolutivamente, a distância foi a representação de muitas necessidades dos seres vivos que saíram de um ambiente aquático para conquistar “o palco de todas as distâncias”, ou seja, o ambiente terrestre. Nestes seres, a habilidade de se locomover para locais onde a comida e a proteção era mais abundante era fundamental para o sucesso da sua empreitada na vida.
De forma análoga, se afastar de predadores e ambientes de risco era igualmente essencial para preservar a integridade física. A estratégia perdura até hoje, em cenários variados: cavalos, antílopes e outros herbívoros de grande porte têm na habilidade de fugir (e manter a distância) de grande carnívoros (felinos como leoas ou canídeos como lobos) a sua principal defesa contra a predação.
“... Aquilo que não pode tocar, não pode machucar...” – completei eu, em voz baixa, ainda apreciando a mesma música e pensando em uma luta de boxe, onde o controle da distância do adversário é pedra angular para a vitória. No fim, a lógica é a mesma.
O aparelho locomotor acaba virando, também, uma via de expressão dos seres vivos, firmado na interligação das estrutura do cérebro, nervo, músculo, tendão, articulação, resultando em movimento. A distância acaba sendo o resultado “escrito” no espaço da ativação desta sequência, nos aproximando do que é importante e afastando do que é perigoso.
Paralelamente, eu penso também nos (muitos) fatos da minha vida que faziam pouco sentido no momento que ocorriam, facilmente “diagnosticados” como fracassos ou injustiças, em uma primeira análise. Com o tempo, aprendi a perder menos do meu sossego com isso e investir em um “movimento que cria distância” entre minha opinião e o ocorrido.
Mesmo metaforicamente, um ponto de vista mais distante pode esclarecer alguns motivos “com menor custo”, apresentar novas oportunidades além de permitir que outras situações tenham o devido espaço para se “curarem”.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia