OPINIÃO

O amor está no ar?


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Dos cinco sentidos “comuns”, o olfato é um dos mais antigos, mas traz consigo um grau de refinamento que indica o quão revolucionário foi ao ser “adotado” por nossos parentes de linhagem mamífera. Preparem seus narizes e acompanhem o meu raciocínio!

O odor é uma percepção sutil iniciada por um composto químico volátil, “leve” o bastante para ficar suspenso no fluido do ar ambiente. Muitas vezes, basta um pequeno número de moléculas para disparar uma sensação em um sensor que funciona sem parar - não há como desligarmos o nosso olfato, só se pararmos de respirar – tamanha sua utilidade.

Ao aspirarmos, o ar é “analisado” por um nervo especializado, formado de prolongamentos celulares de neurônios que saem do cérebro e vão diretamente para o nosso nariz, passando por uma estrutura óssea chamada “placa crivosa”. O nervo olfatório é o primeiro dos doze nervos “especiais” que saem diretamente do crânio para seus locais de atuação, sem precisar passar pela medula dentro da coluna vertebral. Isso é uma via de acesso “VIP” para o cérebro!

Então, a partir de uma pequena região no alto do nariz, saem pulsos elétricos diretamente para o nosso cérebro traduzindo as informações químicas em “suspensão” no ar, particularmente para uma área chamada hipotálamo, muito ligada com as emoções.

Para entender como isso funciona na prática, podemos pensar no exemplo do perfume que você reconhece como sendo o cheiro da senhora sua mãe, que você tem contato desde muito cedo na sua vida. Ele entrou direto para as camadas profundas e instintivas do seu sistema nervoso e sua memória, para nunca mais ser esquecido.

Quando esse contato se repete, ao longo da nossa vida, as mudanças na mente e no corpo são instantâneas: o humor, foco, ritmo cardíaco, dilatação de pupilas e tensão muscular... tudo muda. O corpo todo responde involuntariamente ao odor que corresponde à nossa genitora, o nosso “primeiro ninho”,

Aliás, espero que algumas lembranças olfativas tenham chegado até vocês, agora mesmo. No caso do Alexandre aqui, este cheiro “mágico” é Cabochard de Grès, o perfume que ela adorava e usava em ocasiões especiais, como festas de aniversário, meu casamento ou minha formatura, há 25 anos. Eu só me lembraria da roupa que ela usou nesta última ocasião se visse uma foto, mas o olfato não me abandona.

Trouxe aqui esse exemplo positivo, prazeroso e nostálgico de associação afetiva entre um odor e memórias produtivas, que colocam a nossa fisiologia em estado de relaxamento e receptividade. Claro, o mecanismo pode ocorrer de forma similar, mas em sentido reverso, onde odores representam perigo e despertam reações instantâneas que nos preparam para “lutar ou fugir” – como dizemos dentro dos estudos neurofisiológicos.

Uma maneira clássica de incomodar profundamente pequenos roedores de laboratório para pesquisas sobre estresse e seus efeitos no organismo é deixá-los presos em um ambiente com odor de urina de gato, um dos seus predadores.

Espero tê-los sensibilizado sobre a importância de cuidar deste sentido um tanto “esquecido’ que tanto potencial de cuidar da nossa saúde, seja nos lembrando do que é bom ou nos alertando “quando algo não cheira bem...”

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, medicina tradicional chinesa, osteopatia e criador do método de medicina psicobiológica

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