Sabe aquela relação profissional que se transforma em amizade com o passar dos anos, baseada em conversas longas e profundas, que fazem pensar?
Pois bem. Tenho um amigo assim. Trata-se do querido professor, pesquisador e semiólogo Carlos Vila. Apesar da distância (ele vive em Buenos Aires), travamos belas conversas e, em uma delas, ele desenvolveu uma interpretação extremamente interessante sobre a modernidade e a maneira como os seres humanos tentam tornar a vida emocionalmente habitável em um mundo cada vez mais acelerado. Fiz questão de traduzir parte dessas ideias para compartilhá-las aqui com meus leitores.
O ponto central de sua análise parte de algo profundamente humano: antes das ideologias, das disputas políticas, das redes sociais e das grandes estruturas econômicas, existe um corpo humano tentando encontrar estabilidade, proteção, pertencimento e permanência. A civilização inteira pode ser compreendida como uma longa tentativa coletiva de organizar essa fragilidade da existência humana.
Durante muito tempo, a modernidade ofereceu sensação de continuidade e direção histórica. Trabalho estável, crescimento econômico, planos de vida, ascensão social, instituições sólidas e vínculos mais duradouros ajudavam a produzir uma percepção de estabilidade emocional e coletiva. Existia a impressão de que o futuro possuía certa previsibilidade e de que a vida caminhava dentro de referências minimamente compartilhadas.
Mas silenciosamente essa experiência começou a mudar. A tecnologia avançou, a comunicação se intensificou e a circulação de informações se tornou praticamente infinita. Ao mesmo tempo, cresceu uma sensação difusa de cansaço, aceleração e dificuldade de sedimentar experiências profundas. As pessoas vivem cercadas por estímulos contínuos, alternam conversas, imagens e conteúdos em velocidade impressionante e carregam uma necessidade permanente de confirmação emocional e reconhecimento imediato.
Existem muitos exemplos cotidianos para explicar isso: os fones que cancelam o ruído da cidade, os vídeos de chuva para dormir, as cafeterias cheias de pessoas trabalhando sozinhas, os áudios acelerados em velocidade dupla, as relações afetivas cuidadosamente administradas para evitar desgaste emocional. Pequenos hábitos contemporâneos acabam revelando uma sociedade tentando regular constantemente o próprio esgotamento.
Mas a leitura que meu amigo chileno faz da pandemia talvez seja uma das partes mais fortes do texto. Para ele, o isolamento tornou visíveis sensibilidades que já estavam presentes havia muito tempo. O corpo passou a controlar mais a exposição, o contato e a proximidade. Ainda assim, terminado o confinamento, as pessoas voltaram rapidamente a buscar encontros, viagens, shows, restaurantes e convivência.
A experiência humana continua profundamente marcada pela necessidade de presença e de proximidade.
Talvez esteja justamente aí uma das percepções mais bonitas dessa reflexão. Debaixo de toda a sofisticação tecnológica permanecem experiências humanas muito antigas: o abraço, a intimidade, a permanência, a saudade, o medo da perda e a necessidade de pertencimento.
Obrigado, Carlos. Que sigamos tentando, de muitas maneiras, tornar a vida emocionalmente respirável dentro de um mundo cada vez mais intenso e acelerado.
Samuel Vidilli é cientista social