A ganância é uma característica ínsita ao bicho-homem. Irracional pretender o acúmulo de bens que não serão usufruídos durante a curta e frágil permanência nesta peregrinação. Quem é que atinge dez décadas? Celebrar vivo um centenário é ainda um acontecimento raro, digno de registro e de celebração.
Nada obstante efêmera a passagem de cada um de nós por este sofrido planeta, é mais comum o excessivo apego aos bens materiais do que o saudável desapego. Isso os romanos, de quem herdamos mais do que a arquitetura jurídica, já sabiam. O poeta Virgílio, em sua obra “Eneida”, falou sobre a “auri sacra fames”, a “maldita fome de ouro” que usei para esta reflexão. A expressão correta é Auri Sacra Fames, uma famosa frase em latim do poeta Virgílio na obra Eneida (III, 56-57), traduzida como "maldita fome de ouro". A volúpia insaciável por riqueza é fonte de muitos males. Mas com eles a humanidade ainda não aprendeu que guardar é colecionar problemas para os descendentes.
O exercício diuturno com as misérias da Justiça humana, durante mais de quatro décadas, me comprovou que o dinheiro estraçalha famílias, acaba com qualquer elevado sentimento, propaga a inimizade e gera episódios indescritíveis, indignos da condição humana.
Juventude criada com a irrefreável ânsia de juntar dinheiro se torna insensível. E também pode ser vítima de ambiciosos sagazes e cruéis, que se valem da situação para extraírem proveito criminoso valendo-se da inexperiência de incautos.
Acontecimentos recentes e outros nem tanto, deveriam servir para uma admoestação geral, destinada a famílias, educadores, sacerdotes, pensadores e todos os seres racionais sensíveis, que ainda não enterraram a moral e a ética em seus cemitérios mentais particulares.
O primeiro é a tragédia de Jeffrey Epstein, que recrutou jovens ávidas por dinheiro e fama, “emprestando-as” para uso de magnatas, políticos, empresários e até um Príncipe da Casa Real Britânica. O testemunho de uma dessas moças, que também praticou suicídio, assim como Epstein, está no livro “Garota de Ninguém”, cuja autora, Virginia Roberts Giuffre, narra suas desventuras.
Ao servir de objeto sexual para a “Corte de Epstein”, foi usada, humilhada, espancada e deixada ensanguentada. Antes disso, posou para câmeras com seu top rosa, servindo de “garota propaganda” para a pornografia milionária.
Uma semana antes de praticar suicídio, ela pediu que o livro fosse lançado, a despeito de sua morte. Pois era desprovida de voz quando servia de escrava sexual e prometeu a si mesma “que nunca mais ficaria sem voz”. Triste que essa voz agora ecoe como a de alguém que pôs fim à sua existência por não conseguir a superação da desgraça em que se lançou e foi lançada.
Outra reflexão é a do vórtice de episódios decorrente do escândalo Master. Como se explica o envolvimento de tanta gente graúda, num tsunami em que não faltou dinheiro e sexo? As nababescas recepções dispunham do “serviço” de prostitutas internacionais, recrutadas em países cujo idioma impediria conhecer aquilo que se tramava às escondidas.
Vários dos protagonistas participaram do espetáculo deprimente, não por sexo, mas apenas por cobiça e por amealhar muito mais do que poderão gastar durante suas vidas, todas elas – assim como as nossas – a caminho do inescapável fim. Não estarão aqui para assistirem à deplorável cena de seus descendentes se engalfinharem. Terá valido a pena?
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo