OPINIÃO

A glória de ter mãe


| Tempo de leitura: 3 min

A cada vez que tenho de me solidarizar com quem perdeu a mãe, eu me repito, qual mantra: “Quem tem mãe, tem tudo; quem não tem mãe, não tem nada!”. E acredito, como alguém que descobriu que orfandade não tem idade, que ter mãe viva é uma glória indescritível.

Sempre fui muito ligado à minha mãe. Minha primeira mestra e guia devotada até que eu atingisse a provecta idade de um quase sexagenário. Então a perdi e pude aquilatar a falta que a mãe faz.

Há vinte anos a perdi. E ainda converso todos os dias, tentando adivinhar o que me diria nas múltiplas vicissitudes que tenho de enfrentar, diuturnamente, como alguém que só sabe e só gosta de trabalhar.

Há um texto admirável, chamado “Retrato de Mãe”, do Bispo Dom Ramon Angel Jara, bispo chileno de La Serena (1852-1917), que se tornou clássico: “Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça, pensa como uma anciã e, sendo velha, age com as forças todas da juventude”. É algo que define com precisão qual o valor de mãe. Algo tão natural em nossa vida, que muita vez não merece a devida reverência, por sua imprescindível presença e infinito amor. Quem não se lembra, se já entrado nos benefícios da longevidade, da canção eternizada por Vicente Celestino? O “Coração Materno” é esse mesmo: preocupa-se com o filho, não com sua própria vida. E muitos filhos, lamentavelmente, não hesitariam em fazer o que aquele fez: “Tira do peito sangrando, da velha mãezinha, o pobre coração. E volta a correr proclamando: vitória, vitória, tem minha paixão”.

Mãe é a única mulher que ama o filho incondicionalmente. Uma amiga querida, que já se foi, dizia ser capaz de “ir até o inferno para socorrer um filho!”. Por isso existem numerosos textos devotados à maternidade, esse fenômeno divino. É a participação das criaturas na continuação do mister do Criador. A coparticipação na obra generosa de trazer à luz, para esta peregrinação terrena, almas que vivenciarão a ventura de atuar no encanto do convívio entre seres racionais.

Os bem-aventurados que têm mãe devem cercá-la de carinho não apenas no segundo domingo de maio, mas todos os instantes, todos os minutos, todas as horas, dias, semanas, meses e anos, enquanto ela viver.

Nós outros, que só podemos cultivar a saudade, procuremos honrar a memória daquela que nos trouxe à experiência existencial. Nessa tarefa agridoce – pois existe a ternura da memória e a tristeza da ausência física – os católicos têm uma vantagem considerável: podem invocar outra mãezinha, Aquela que também foi mãe do Salvador e que atende a seus filhos sob inúmeras invocações.

A Mariologia, o culto a Nossa Senhora, nos ensina a levar a sério a hiperdulia. Esse é o nome da veneração que a mãe de Jesus merece, em estágio superior à dulia – culto aos santos – e inferior à latria, que é devida exclusivamente a Deus Nosso Senhor.

Nada como ter duas mães: a biológica e a Mulher que serviu aos insondáveis desígnios divinos, gestando por nove meses o Filho de Deus, ensinando-o a caminhar, sorrindo com ele e o acompanhando na vida pública, na paixão e morte.

Que o modelo mariano sirva de inspiração para todas as mães. E que elas tenham hoje um dia sereno, alegre, cercadas de carinho por suas crias. Feliz Dia das Mães a todas as mulheres abençoadas com o milagre da maternidade.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

Comentários

Comentários