A ausência de integração entre forças de segurança no Brasil foi apontada como uma das principais falhas no combate ao crime organizado pelo advogado, doutor em direito penal e ex-assessor especial da Secretaria Nacional de Justiça, João Paulo Martinelli, em entrevista ao Podcast JJ. Segundo ele, o país ainda opera com estruturas fragmentadas, o que compromete investigações e ações preventivas. “Não dá para se falar em enfrentamento ao crime organizado sem integração”, afirmou, destacando que as polícias civis dos estados não se comunicam de forma eficiente nem entre si e nem com as demais forças de segurança.
Durante a conversa, Martinelli ressaltou que o problema vai além da atuação policial e envolve decisões políticas e estruturais. Para ele, há resistência histórica à troca de informações entre estados, muitas vezes por disputa de poder. O especialista comparou o cenário brasileiro ao dos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro, quando houve integração entre agências. “Aqui, ainda se trabalha na informalidade, com um policial ligando para outro”, avaliou.
Outro ponto de destaque foi a mudança no perfil do crime organizado, que, segundo Martinelli, deixou de atuar apenas na ilegalidade e passou a ocupar espaços formais da economia. “O crime organizado entrou nas atividades lícitas”, afirmou. Esse movimento, segundo ele, dificulta a identificação de recursos ilícitos e amplia o alcance das organizações criminosas, que hoje operam por meio de empresas, investimentos e estruturas aparentemente regulares.
Nesse contexto, o advogado defendeu que as prefeituras também assumam um papel mais ativo na prevenção. “Quando o assunto é segurança pública municipal, a única coisa que se fala é guarda municipal, mas ela tem uma atuação restritiva, que é fazer as rondas, proteger o patrimônio, realizar prisões flagrantes”, disse. “Mas por que os municípios não têm programas de prevenção à lavagem de dinheiro para evitar que o crime organizado se instale na cidade?”, questionou. Ele também lamentou a falta de investigação antes de conceder alvarás, prática que também pode coibir a instalação do crime organizado nas cidades.
A estratégia mais eficaz de combate, na avaliação do especialista, passa pela chamada asfixia financeira das organizações criminosas. Ele criticou o foco tradicional no combate direto ao tráfico e defendeu medidas voltadas ao bloqueio de recursos, como o fortalecimento de mecanismos de controle financeiro. Nesse sentido, destacou a importância da regulamentação de setores como fintechs e apostas esportivas, frequentemente explorados para lavagem de dinheiro, além da necessidade de modernizar órgãos como o COAF.
Por fim, o especialista apontou que o avanço no enfrentamento ao crime organizado depende também de decisões no campo político. Ele defendeu a eleição de parlamentares comprometidos com inteligência e tecnologia na segurança pública, em vez de soluções simplistas. “Não existem soluções fáceis para problemas complexos”, afirmou. Para ele, o Brasil precisa de uma abordagem estruturada, com planejamento de longo prazo e responsabilidade compartilhada entre Estado, instituições e sociedade.