OPINIÃO

A sabedoria das noviças


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Nasci num lar católico-raiz: minha mãe era “Filha de Maria”, meu pai integrou a “Catholica Unio” e, posteriormente, a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Nossa Senhora do Desterro, antes de Jundiaí se tornar Diocese e ter um Bispo e uma Catedral.

Minha avó paterna, a “Nona”, Catarina Boaroto Nalini, comungava diariamente. Como boa italiana, era prendada em fazer pão em casa, geleia de frutas e outros saudáveis alimentos. O destino de boa parte de sua produção doméstica era o clero beneditino do Mosteiro de Sant’Ana, que todos conheciam por “São Bento”. Intimidade tamanha que nossa família era considerada “Pilar de São Bento”.

Uma tia, Benevenuta Nalini, tornou-se religiosa: Serva do Santissimo Sacramento. Faleceu muito jovem, com tuberculose óssea. Permanecia de joelhos muitas horas por dia. Faleceu em odor de santidade: Sóror Maria da Santíssima Providência.

Uma prima-irmã, Suzana Nalini Genaro, tornou-se carmelita descalça: Irmã Elisabeth da Santíssima Trindade. Primeiro no Carmelo “São José”, em Jundiaí. Posteriormente, no Carmelo Nossa Senhora da Esperança, em São João da Boa Vista, do qual foi priora antes de falecer também como exemplo de devotamento ao Senhor.

Natural, portanto, que eu fizesse o pré no Educandário Nossa Senhora do Desterro, à rua Marechal Deodoro, com Irmã Josina e Irmã Carmen Bergamasco. E depois cursasse a Escola Paroquial “Francisco Telles”, à rua do Rosário. Aluno aplicado e bem-comportado das Irmãs Otávia, Suzana, Úrsula, Verona e Zélia. Sob a direção zelosa e atenta de Irmã Maria de São Luís e Irmã Flórida.

Infelizmente, a vocação religiosa se encerrou com essas duas santinhas. Ninguém mais se entregou à vida conventual. E faço essa divagação depois de ler “A sabedoria das noviças: conselhos do século 16 para problemas do século 21”, livro escrito por Ana Garriga e Carmen Urbita, publicado no Brasil pela Editora BestSeller.

Não é um livro para ser lido pelos católicos do século 20. Há muita coisa com a qual não concordo. Mas é impressionante constatar que a vida em clausura reserva à mulher neste século turbulento uma paz que o mundo real não oferece.

Frequentador de Carmelos, testemunhei o benéfico espontâneo trabalho de acolhimento, verdadeira terapia propiciada aos aflitos que procuram as enclausuradas. Elas transmitem serenidade, harmonia, confiança na transcendência e certeza de que esta passagem não é o definitivo porto de ancoragem da espécie humana.

A vida em oração purifica a alma, tranquiliza o coração, dá testemunho de que a fé representa uma âncora segura para quem sofre as vicissitudes naturais da peregrinação terrestre. Esta vida de provações, em que a felicidade pode ser pequeno intervalo entre agruras, angústias e tristezas.

Os conventos de recolhimento santificam suas monjas. Elas se dedicam ao estudo, à leitura, à caprichosa confecção de artes manuais. E é na quietude dos Carmelos que as religiosas biografam aquelas que já ingressaram na eternidade e estão fruindo as verdadeiras núpcias com o Senhor do Céu e da Terra.

Os conventos, dizem as autoras, são um lugar de resistência. Ali as mulheres se entregavam por inteiro à adoração e à atividade meramente intelectual, fugindo do destino forçado e obrigatório imposto pela sociedade machista: o casamento e a maternidade.

Vale a pena refletir sobre o que significa para este mundo irado, violento e complexo, a existência de freirinhas que mostram outra via, mais propícia a percorrer o caminho da santificação.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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