SAÚDE E BEM-ESTAR

Culto à magreza aumenta venda de remédios para emagrecer

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 3 min
Jornal de Jundiaí
Arquivo pessoal
Júlia, psicóloga do comportamento alimentar, alerta sobre pressão estética
Júlia, psicóloga do comportamento alimentar, alerta sobre pressão estética

Entre inseguranças em frente ao espelho e metas que vivem sendo adiadas, o desejo de emagrecer aparece como um sonho de recomeço — uma tentativa de se sentir mais confortável no próprio corpo, seja por saúde, estética ou pela vontade, cada vez mais presente, de alinhar a própria imagem ao que se vê nas telas.

De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2025, um a cada três brasileiros vive com a doença, que pode trazer graves riscos à saúde. Nos últimos anos, porém, o ambiente digital lançou mão de uma nova moda, que pode ser tão prejudicial quanto o excesso de peso: o incentivo à magreza extrema. 

Com manequins de roupas cada vez menores, modelos com ossos marcados e famosas ensinando dietas malucas nas redes sociais — sob o pretexto de um estilo de vida mais saudável —, os medicamentos para emagrecer surgem como uma promessa de perda de peso rápida, fácil e sem esforço. 

Segundo a psicóloga especializada em comportamento alimentar, Júlia Leal, os riscos da ilusão vendida nas redes sociais ultrapassam o limite da tela. “O corpo que a gente se inspira não é um corpo real, são apenas recortes do que as pessoas querem mostrar. Quando a gente vê uma supervalorização e normalização de corpos extremamente magros, isso pode gerar uma sensação de inadequação, baixa autoestima, um comportamento autodestrutivo ou até transtornos alimentares.”

Em 2025, o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” cresceu 88% em relação ao ano anterior, de acordo com o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). Aline foi uma das pessoas que aderiu ao produto. Depois de engordar 34 kg, Aline Ramos (30), analista de marketing em uma multinacional no segmento de empilhadeiras, recorreu ao medicamento como um último recurso. “Tentei inúmeros tipos de dietas, frequentei academias diferentes, mas sempre desistia do processo. Depois de emagrecer 12 kg com jejum intermitente e não conseguir perder mais, parti para o remédio.”

Aline destaca melhora na qualidade de vida depois do remédio

Já AOF, morador de Jundiaí que prefere se manter anônimo, decidiu pelos remédios por uma questão de saúde. “Estava muito acima do peso e isso me trouxe diversas comorbidades. A facilidade e a promessa de resultados rápidos sem sofrimentos me levaram até os medicamentos”, explica. AOF relata que tentou emagrecer com dietas e exercícios, mas não obteve resultados devido à dificuldade de adaptação à rotina e aos sintomas de ansiedade.  

Para a psicóloga Júlia, a popularização desses remédios mudou a forma como as pessoas se relacionam com o próprio corpo. “É comum as pessoas perderem peso rápido, mas terem um reganho depois de pouco tempo, o que causa frustração, ansiedade e até alterações fisiológicas significativas”, ressalta a profissional. 

Apesar disso, tanto Aline quanto AOF relatam estarem satisfeitos com a escolha, que possibilitou melhora na qualidade do sono, sensação de saciedade e até aumento da qualidade de vida. Ambos começaram a frequentar a academia depois da perda de peso e conseguiram dar continuidade aos treinos.

A questão com os medicamentos emagrecedores não se trata do uso em si, mas das sequelas que eles escondem. Para Aline, a internet foi um grande incentivo na sua decisão, muito influenciada pela pressão estética. “As redes sociais são o maior meio de comparação de pessoas e corpos. Se você já está insatisfeito, fica ainda mais frustrado.”

Júlia reforça que o grupo mais afetado são mulheres, pelo histórico da cobrança excessiva em relação aos corpos, e adolescentes, que estão em fase de construção de identidade. Mas ainda existe salvação. Assim como Aline, Júlia enxerga um lado positivo no uso das redes sociais. “Faço parte da #IngredientePrincipal, no TikTok, uma rede de criadores de conteúdo e profissionais que divulgam informações de qualidade, baseadas em evidências científicas, e valorizam a alimentação saudável simples, acessível, sustentável e inclusiva”, relata a profissional. 

Se você tiver interesse em iniciar o uso de remédios emagrecedores, faça como AOF e procure um profissional da saúde para te orientar durante o processo, principalmente em casos de contraindicações e efeitos colaterais.

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