OPINIÃO

A banalização da dor


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Um recente episódio ocorrido na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, no qual uma parlamentar decidiu pintar o próprio corpo para simular a condição de uma pessoa negra, impõe uma reflexão que ultrapassa o impacto imediato da cena e alcança o campo mais profundo da responsabilidade ética na vida pública. Quando um gesto dessa natureza é realizado em um espaço institucional, investido de autoridade e visibilidade, ele deixa de ser apenas uma manifestação individual e passa a carregar implicações simbólicas que atingem a sociedade de modo amplo, sobretudo em um país cuja história foi marcada por séculos de escravidão e por desigualdades raciais ainda persistentes.

A representação artificial de traços raciais, ainda que revestida de intenção política ou discursiva, evoca práticas historicamente associadas à ridicularização e à desumanização de pessoas negras. Ao longo do século XIX e início do século XX, em diferentes contextos culturais, recursos semelhantes foram utilizados para reforçar estereótipos e legitimar formas de exclusão que se perpetuaram ao longo das gerações. Esse passado permanece inscrito na memória coletiva e se manifesta nas estruturas sociais contemporâneas, o que confere a tais gestos um peso que não pode ser relativizado ou tratado como simples estratégia retórica.

A gravidade do episódio se amplia quando se considera que a identidade racial não se reduz a um atributo visual que possa ser assumido de maneira episódica. Ela se constitui no interior de uma trajetória histórica e social, marcada por experiências concretas de discriminação, por processos de resistência e por construções culturais profundas. Transformar essa realidade em encenação implica esvaziar seu significado e reduzir a complexidade de vidas reais a um recurso de impacto momentâneo, o que contribui para a banalização de um problema que exige seriedade, conhecimento e compromisso público.

O ambiente legislativo, por sua própria natureza, deveria ser espaço de elaboração responsável de ideias, de construção de caminhos comuns e de enfrentamento qualificado de temas sensíveis. Quando esse espaço se converte em palco de gestos performáticos que mobilizam símbolos historicamente carregados de sofrimento, estabelece-se uma distorção preocupante, na qual a visibilidade passa a ocupar o lugar do conteúdo e a provocação se sobrepõe à reflexão. Esse deslocamento compromete a qualidade do debate público e enfraquece a função representativa que sustenta a legitimidade das instituições.

A sociedade brasileira tem avançado na compreensão do racismo como realidade estrutural que exige enfrentamento contínuo, tanto no campo das políticas públicas quanto na esfera cultural e educativa. Esse avanço se expressa na ampliação do debate, na valorização de trajetórias históricas e na construção de uma consciência social mais atenta à dignidade humana. Mas episódios como o ocorrido na Alesp introduzem um elemento de regressão simbólica, ao tratar com superficialidade um tema que demanda profundidade, escuta e responsabilidade.

A vida pública exige mais do que gestos de impacto e afirmações contundentes. Ela requer discernimento acerca do alcance dos símbolos mobilizados e das consequências que deles decorrem. Em um tempo marcado por tensões e por intensificação das disputas discursivas, torna-se ainda mais necessário que os representantes compreendam a dimensão formativa de seus atos. A política, quando se distancia da responsabilidade ética e da consciência histórica, perde sua capacidade de orientar a sociedade e se aproxima de uma lógica de espetáculo que pouco contribui para a construção do bem comum.

Samuel Vidilli é cientista social

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