OPINIÃO

Contra o Fanatismo


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Para o fanático, o outro é um erro a ser corrigido, eliminado ou silenciado

“Contra o fanatismo” é o título do livro  publicado no Brasil em 2004, com o subtítulo “Como curar um fanático”, do escritor israelense Amós Oz, cujo tema é o fanatismo e a intolerância, tendo como pano de fundo o acirramento dos conflitos entre árabes e israelenses.

Amós Oz, um militante da paz, define o fanático como alguém que ama mais a ideia que faz de si mesmo do que as pessoas à sua volta. Para o fanático, o outro é um erro a ser corrigido, eliminado ou silenciado. A mensagem central do livro é que a verdadeira luta no Oriente Médio, não é entre árabes e judeus, mas entre o fanatismo e a tolerância.

Relendo o livro, não pude deixar de pensar no Brasil de hoje, onde a polarização política tomou conta do debate público, e a paixão por rótulos, slogans e verdades prontas fez com que desaprendêssemos o exercício básico da convivência. Já não se discute para compreender; discute-se para vencer. E, quando vencer não é possível, a alternativa é a eliminação – mesmo que simbólica - do outro.

A política deixou de ser uma disputa de projetos – característica das democracias, para se transformar numa guerra moral em que ninguém quer entender as razões alheias. Não se debate: combate-se. Esse fenômeno não é exclusivo de um determinado campo ideológico. Tanto a esquerda quanto a direita se veem investidas da missão de “salvar” a sociedade, libertando os outros de valores considerados inaceitáveis. A democracia, para eles, só sobreviverá quando todos forem convertidos à “minha” posição.

Parafraseando Amós Oz, a guerra que hoje se trava no Brasil não é entre bolsonaristas e petistas, mas entre o fanatismo e a tolerância. Não se pede mais o voto do outro, pede-se a sua eliminação. Como observa o autor, o fanático não quer convencer. quer converter ou destruir.

Basta observar as disputas nas redes sociais para perceber como a lógica do “nós ou eles” empobreceu o debate público e corroeu as bases da convivência democrática. Uma democracia não sobrevive sem pessoas dispostas a conviver com aquilo de que não gosta — e, sobretudo, com quem pensa diferente.

Oz, não é ingênuo. Ele afirma que o fanatismo está intimamente ligado a um profundo desespero. O antídoto, segundo ele, não é imediato: exige escuta, dúvida, concessão e começa em gestos pequenos, não em grandes discursos. A única maneira de enfrentar o desespero é gerar e disseminar esperança — não uma esperança abstrata, mas concreta, ligada a condições reais de vida e dignidade.

Em tempos de certezas e intolerância, “Contra o fanatismo" é uma leitura importante. Não oferece fórmulas fáceis, mas nos lembra de algo essencial: a democracia exige a difícil arte de conviver com o outro.

Francisco Carbonari é ex-secretário de Educação

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