Associado quase exclusivamente aos homens, o agronegócio sempre teve em sua base uma forte participação feminina. Com o passar dos anos, as mulheres deixaram de ser apenas um suporte para assumir um protagonismo cada vez mais ativo não só na produção rural, mas também na gestão das propriedades e na criação de novos produtos que ajudam a fortalecer o setor e preservar tradições do campo.
Segundo a Prefeitura de Jundiaí, embora não exista um levantamento específico sobre quantas propriedades são comandadas exclusivamente por mulheres, a realidade no município mostra que a presença feminina é essencial. Na maioria das áreas rurais, a gestão é familiar, envolvendo marido, esposa, filhos e até diferentes gerações. Ainda assim, no dia a dia da lavoura e da produção, as mulheres assumem papéis decisivos, como mães, gestoras e empreendedoras.
A história da enóloga Ariana Sgarioni, de 36 anos, mostra como a tradição familiar e o conhecimento técnico podem caminhar juntos no desenvolvimento do agronegócio. Responsável pela produção de vinhos e espumantes da vinícola Beraldo di Cale, Ariana cresceu em meio aos vinhedos da família. Desde pequena acompanhava o cultivo das uvas e a produção de vinho, o que despertou seu interesse pela área. “Desde pequena vi minha família produzindo uvas e o vinho sempre esteve presente. Quando minha mãe formalizou a vinícola, em 2001, eu já me interessava muito pela produção”, conta.
Apesar da paixão pelo setor, o caminho profissional foi construído passo a passo. Ariana chegou a cursar Nutrição na Universidade de São Paulo e, ainda durante a graduação, já realizava pesquisas sobre os benefícios do vinho para a saúde. Mais tarde, decidiu seguir o sonho e se mudou para o Rio Grande do Sul, onde estudou Viticultura e Enologia. Desde 2016, quando concluiu a formação, assumiu a produção de vinhos da vinícola da família.
Hoje, além de enóloga, Ariana também atua na formação de produtores e no fortalecimento do setor vitivinícola. O reconhecimento, no entanto, não veio sem desafios. “No início enfrentei algumas dificuldades para encontrar meu espaço, principalmente por ser mulher e muito jovem. Precisei conquistar respeito e mostrar meu trabalho”, lembra. Com o passar do tempo, o cenário vem mudando. “Hoje vemos muitas mulheres ocupando cargos de liderança como enólogas e agrônomas, responsáveis por vinhedos e vinícolas e assinando grandes vinhos.”

Clara Pavan iniciou trabalho no agro aos 8 anos e construiu uma empresa de sucesso
Se no caso de Ariana o vinho foi o caminho natural dentro da tradição familiar, para Clara Aparecida Padovan Pavan, de 63 anos, a ligação com a terra começou ainda na infância. Atualmente proprietária de uma empresa de conservas, ela conta que aos oito anos de idade começou a trabalhar com os pais em um sítio na região do Santa Clara, ao lado dos cinco irmãos. A família produzia alimentos e também mantinha uma banca na feira.
Depois de se casar, aos 24 anos, passou a trabalhar com o marido, Marcos Antonio Pavan, que cultivava frutas como pêssego, caqui e hortaliças. No início, ajudava principalmente na organização das frutas no barracão. Foi a partir desse trabalho que nasceu um novo caminho.
Durante o namoro, o marido costumava presenteá-la com compotas de pêssego. Anos depois, Clara fez um curso oferecido pela prefeitura para mulheres da zona rural e aprendeu técnicas de conservação de alimentos. O que começou como algo feito apenas para consumo da família rapidamente conquistou amigos e conhecidos. “Eu fazia para guardar em casa, servir para as visitas e dar de presente. Até que um dia começaram a pedir para comprar”, lembra.
A empresa familiar hoje produz cerca de 75 tipos diferentes de geleias, compotas e antepastos, elaborados com frutas cultivadas pela própria família. “Sempre amei mexer com lavoura. Não troco essa vida por nada”, diz. Mas, para ela, transformar o que nasce da terra em produtos artesanais é uma experiência única. “Plantar algo e transformar isso em uma receita de sucesso é muito gostoso. Para preparar uma conserva é preciso muito amor. Cada dia que faço uma é como se fosse um parto, cada fruta é diferente”, afirma. “Hoje vemos muitas mulheres dominando mercados, inclusive no agro e na roça. Acho isso muito bonito. A mulher não precisa estar só dentro de casa, ela pode estar em todo lugar”, completa.
Para a secretária de Agronegócio, Abastecimento e Turismo, Marcela Moro, essa presença é determinante para o fortalecimento do setor. “A força das mulheres no campo é visível em cada propriedade rural de Jundiaí. Em muitas delas podemos destacá-las como protagonistas na gestão, na inovação e na preservação das tradições, contribuindo diretamente para a qualidade dos produtos, para o fortalecimento do turismo rural e para o desenvolvimento sustentável do nosso agronegócio”, afirma. Segundo ela, valorizar o trabalho feminino é reconhecer um dos pilares que sustentam a identidade rural da cidade.