O ano mal começou e já há um registro de feminicídio em Jundiaí, em janeiro. Este tipo de situação vem se agravando ano a ano. Se em 2023 Jundiaí registrou um caso de homicídio com descrição de conduta de feminicídio, em 2024, foram dois. No ano passado, 11 casos do tipo aconteceram na cidade, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). Já os registros de agressão são recorrentes, diários.
Dados do Estado de São Paulo mostram que houve 118,6 mil pedidos de medida protetiva no ano de 2025, feitos a órgãos como Defensoria Pública, Ministério Público e outros do Judiciário. O número representa aumento de 17,5% em relação a 2024. Ainda assim, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou dados nesta última semana da pesquisa Retrato dos Feminicídios no Brasil, que mostram que, em 2024, 13,1% das mulheres vítimas de feminicídio no país foram assassinadas mesmo tendo uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) em vigor.
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Esperança
Para quem passa por uma situação de violência, conseguir se libertar é um processo, muitas vezes, de dúvidas sobre si. Preferindo não se identificar, Rosângela* (nome fictício) teve um choque durante o período da pandemia, época em que cursava medicina e passou por um relacionamento nocivo. “A violência que eu sofri foi mais psicológica, de xingamentos, e isso foi muito difícil. Eu tive medo dele algumas vezes, por ele levantar a voz comigo, mas eu achava que aquilo era sempre uma coisa momentânea, que ia se resolver.”
“Só que as coisas só íam piorando, as discussões, as mentiras, porque eu descobri que ele era casado, tinha uma família e a gente já namorava há 11 meses. Quando eu descobri, eu mandei um e-mail para ele contando tudo que eu sabia. Em seguida, tocou meu telefone, com um número desconhecido. Era ele. Ele começou a me xingar, disse que eu ia pagar por aquilo”, conta ela sobre as ameaças que sofreu.
Mas o homem não parou nas ameaças a ela. O agressor seguiu o irmão da vítima e o ameaçou com uma faca. “Foi o momento em que eu mais entendi que eu precisava de ajuda.” Ao buscar ajuda, teve um entrave. “Foi bem na época da pandemia, e foi muito difícil, porque as delegacias estavam praticamente fechadas. Eu não fui acolhida na Delegacia da Mulher, uma coisa que me chamou muito a atenção, elas não me atenderam. Eu tive que ir à delegacia da 9 de Julho.”
Para a mulher, conseguir sair de um relacionamento violento é difícil. “Você sente um misto de sentimentos. Você gosta da pessoa, odeia a pessoa, e aí você acha que a pessoa vai mudar, e aí você começa a se sentir culpada também, achando que é você que errou, que você que é culpada.” Para ela, o amor próprio é fundamental para passar por isso. “A gente precisa de amor próprio. Quando a gente não se ama, a gente se coloca em uma situação vergonhosa, uma situação de humilhação, sem nos olhar. É tão estranho, porque é uma necessidade. A mesma pessoa que te fere, você espera que seja a mesma pessoa que vai te curar, e isso nunca vai acontecer. Então é bem triste, mas as mulheres precisam de amor próprio, olhar pra si e ver que a gente merece uma coisa melhor”, comenta.
A violência para Marina, 73 anos, começou na infância, com as surras do pai. Aos 14 anos, forjou sua própria perda de virgindade para se casar. O que ela não sabia é que saía do inferno para cair direto nas mãos de outro demônio, como ela mesma diz. Apanhou tanto do marido, que acabou perdendo um bebê. Desistiu do casamento e veio para São Paulo, onde passou a se prostituir. Nas ruas, a violência era crescente. "Mas um dia entendi que homem nenhum podia bater mais em mim, e comecei a revidar."
Ao abandonar a prostituição, estabeleceu-se como diarista, ajudante de cozinha, confeiteira, o que aparecesse. Várias foram suas recaídas no álcool e na droga, mas apanhar nunca mais apanhou. "Eu disse que não queria mais aquela vida para mim, a gente precisa ter opinião e amor próprio. Recaí várias vezes na bebida, mas consegui me livrar deste vício. A gente tem que entender que não precisa ser submissa a nada, nem a homem, nem a bebida." Hoje, aposentada pelo benefício do LOAS, ainda ganha a vida bordando, fazendo crochê e artesanato. "Moro sozinha, mas encontrei minha paz."
Se passar ou presenciar uma situação de violência contra a mulher, acione órgãos de segurança. A Polícia Militar atende pelo 190, a Guarda Municipal, pelo 153, e o Disque 180 é um canal federal para atendimento à mulher.