Cada ano tem sido mais quente do que o anterior. Batem-se recordes seguidos. Também se verifica um regime desequilibrado de chuvas. Tudo isso, mais o uso errático de um bem finito que é a água, faz com que esse líquido seja muito mais importante do que o petróleo. Pode-se viver sem petróleo. Não se vive sem água.
O Irã enfrenta a sua pior seca em mais de seis décadas e, baldadas as alternativas costumeiras, de racionamento, conscientização da população para economizar, ameaça de sanções pecuniárias para quem abusar, a situação se agravou de tal forma que se pensa até em mudar a capital, Teerã, para outra região mais próxima ao mar. Isso para se utilizar o processo de dessalinização, que é dispendioso e complexo.
Teerã lembra São Paulo: possui cerca de 15 milhões de habitantes e São Paulo se aproxima dos 13. Só no território legal. Se considerarmos a conurbação, com municípios se emendando e a formar uma só mancha cinza, temos mais de 22 milhões. Ou seja: metade da população paulista está nessa região também ameaçada por escassez hídrica.
Além da mudança da capital, Teerã experimenta semear nuvens, na expectativa de colher tempestades. Ali, é o sexto ano seguido de seca no país. Para piorar, o Irã está situado numa região naturalmente árida do planeta. Nós, que fomos privilegiados com o maior volume de água doce da Terra, não soubemos cuidar desse patrimônio. Poluímos atmosfera, solo e água. E não adianta culpar exclusivamente as mudanças climáticas, porque isso conduz à situação do “fato consumado”. É inevitável e nada se pode fazer em contrário.
Primeiro, as mudanças climáticas são causadas por nossa insanidade. Continuamos a nos servir do petróleo, combustível fóssil que envenena tudo e gera o aquecimento global, causa principal do efeito estufa e das emergências climáticas. Depois, não levamos a sério os alertas da ciência. Há quanto tempo os cientistas não estão nos avisando de que a catástrofe derradeira se aproxima?
Lá em Teerã, eles estão sofrendo isso na pele. Falta água todos os dias e o racionamento faz com que banhos sejam proibidos. Só existe o líquido para matar a sede e para cozinhar. A situação, para Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, é a de que alguém derrama gasolina em uma casa em chamas.
Antes de que isso nos atinja também, o que não é de se excluir, é preciso cuidar do verde. Ampliar a cobertura arbórea. Árvore não melhora apenas a temperatura. Reequilibra o regime de chuvas. Permite que estas, quando venham, ainda que violentas, pois a natureza está muito zangada com o bicho-homem, haja possibilidade de infiltração para reabastecimento dos lençóis freáticos. Isso hoje é difícil, pois construímos cidades mais para automóvel do que para gente.
Também é preciso redescobrir os córregos. O projeto “nascentes” precisa ser implementado em todas as cidades. Também é urgente adotar soluções baseadas na natureza. Usar, em todos os municípios, a experiência chinesa do arquiteto e urbanista Kongjian Yu, criador da solução “cidade-esponja”. Em lugar de de cimento, concreto, ferro e aço, fazer parques alagáveis. Quando houver inundação, a água escoa naturalmente. Essa solução é muito mais barata e efetiva do que as soluções convencionais, que só atendem à ganância das empresas que fornecem material convencional e antinatureza.
Mais do que tudo, é preciso conscientizar a população de que água é um recurso precioso e finito. As pessoas precisam aprender a usar menos água. Combater o desperdício. Enfrentar os vazamentos. E reverenciar a água salvífica, sem a qual não se vive. Teerã é um exemplo para nós. Que saibamos evitar a desgraça final.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo