De tempos em tempos o brasileiro acorda com uma convicção inabalável: nada aqui funciona. O café é horrível, o trânsito insuportável, os políticos são os piores do planeta e, claro, qualquer país organizado serve de comparação humilhante. Se existisse uma Olimpíada de autodepreciação, subiríamos ao pódio com facilidade. E recorrentemente.
Enquanto isso, o Carnaval, nosso maior evento popular, acaba de bater recorde de turistas estrangeiros. Crescimento de quase 40% em relação ao ano passado. Aviões cheios, hotéis lotados, restaurantes disputados. Bilhões circulando na economia (direta e indiretamente).
O estrangeiro desembarca curioso e volta impressionado. Descobre um país vibrante, diverso, acolhedor. Muito além da imagem resumida a violência e miséria que desde sempre, infelizmente, faz parte da nossa narrativa cultural. Aqui eles encontram boa comida, atendimento caloroso, criatividade, alegria genuína. Muitos relatam surpresa positiva ao utilizar serviços públicos, inclusive na saúde. Outros, que já moraram aqui, voltam dizendo algo que irrita os pessimistas profissionais: morar fora é interessante, mas viver no Brasil é melhor.
Há algo curioso nisso tudo. O mundo começa a rever o Brasil. Mas nós não.
E essa postura não é nova. Ozires Silva, fundador da Embraer, contou em uma entrevista que ouviu de integrantes ligados ao Prêmio Nobel uma explicação desconfortável para a ausência de brasileiros entre os laureados. Segundo esses relatos, falta apoio interno. Falta torcida nacional. Sobram ciúmes, desconfiança, críticas destrutivas. Quando surge alguém promissor, grande parte do país prefere jogar pedra.
Talvez seja esse o traço mais persistente da chamada síndrome de vira-lata, expressão criada por Nelson Rodrigues. Não se trata apenas de achar que o outro é melhor. Trata-se de sabotar o que é nosso. De minimizar conquistas. De desconfiar de talentos. De transformar reconhecimento em suspeita.
O mesmo impulso que derruba heróis atinge o país como um todo.
Criticar é necessário.
Cobrar é legítimo.
Mas há uma diferença entre senso crítico e prazer em diminuir.
O Brasil tem problemas sérios. Violência, desigualdade, ineficiências. Nada disso pode (e deve) ser ignorado. O que precisa ser questionado é o vício de transformar falhas em identidade permanente. Repetir que tudo é ruim não resolve nada. Apenas enfraquece a disposição de melhorar.
O Carnaval mostrou um país desejado. A ciência brasileira produz conhecimento relevante. Empresas nacionais competem globalmente. Profissionais são respeitados lá fora. Ainda assim, insistimos em tratar o próprio quintal como terreno condenado.
Talvez o maior obstáculo que o Brasil possui não esteja nos números da economia nem nas estatísticas da política. Pode estar na incapacidade de reconhecer valor antes que venha um selo estrangeiro para validar.
Enquanto continuarmos jogando pedra no que é nosso, não será o mundo que nos negará reconhecimento. Seremos nós mesmos.
Samuel Vidilli é cientista social