OPINIÃO

Entre a caminhada e o abismo


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A caminhada realizada de Minas Gerais até Brasília, que reuniu ao final pouco menos de vinte mil pessoas, não pode ser tratada nem como uma curiosidade folclórica nem como uma simples extravagância política. Trata-se de um fato político relevante, com capacidade real de mobilização, que precisa ser levado a sério, especialmente por quem discorda frontalmente de suas motivações. Ignorar ou ridicularizar o episódio é um erro; celebrá-lo de forma acrítica, no entanto, é ainda mais perigoso.

O que ocorreu ali vai além de uma manifestação tradicional. A caminhada funcionou como um gesto simbólico poderoso, capaz de mobilizar afetos, identidades e ressentimentos já presentes em parte da sociedade. Não se tratou prioritariamente de convencer pelo argumento, mas de convocar pela emoção. O percurso, o esforço físico, a exposição ao cansaço e à chuva foram elevados à condição de linguagem política. O corpo passou a falar mais alto do que as ideias.

Esse tipo de mobilização cria um ambiente em que a intensidade do engajamento tende a substituir a qualidade do debate. O episódio de um participante que carregava uma pedra de cerca de vinte e cinco quilos pendurada ao pescoço é emblemático. Não merece riso fácil, mas reflexão. O sofrimento físico passa a ser apresentado como prova de verdade moral. Quem sofre mais estaria, implicitamente, mais certo. Essa lógica empobrece a política, porque desloca o debate do campo das ideias para o campo da demonstração de pureza e fidelidade.

O problema se agrava quando se observa a linguagem adotada por lideranças associadas a esse tipo de mobilização. A recusa em tratar opositores como adversários políticos e a insistência em nomeá-los como inimigos não é apenas um excesso retórico. É uma escolha que reconfigura o próprio sentido da política. Com adversários, debate-se; com inimigos, combate-se. Quando essa fronteira se dissolve, o espaço do diálogo se fecha e o da violência simbólica e potencialmente física se abre.

Quem acompanhou de perto o clima da caminhada pôde perceber que não se tratava apenas de indignação política. Havia raiva, ressentimento e um grau preocupante de fanatismo. Conversas e discursos improvisados revelavam uma visão de mundo rigidamente polarizada, na qual não há espaço para nuances ou para a legitimidade do dissenso.

Dito isso, é preciso reconhecer também o erro simétrico cometido por setores da esquerda e do campo progressista. Ridicularizar a caminhada, transformá-la em motivo de piada ou desqualificá-la sumariamente não enfraquece o ocorrido. Ao contrário, reforça a narrativa de perseguição e desprezo que alimenta processos de radicalização. O escárnio não desmobiliza, mas humilha. Isso é combustível poderoso para o ressentimento político.

É justamente aqui que entra minha maior inquietação e, confesso, meu desapontamento. Fico particularmente decepcionado ao ver pessoas que não percebem essas nuances e que, em nome de uma suposta normalização democrática, passam a valorizar ações como essa, chegando até a parabenizar seus organizadores. Tratar esse tipo de mobilização como algo simplesmente positivo, heroico ou exemplar é fechar os olhos para os riscos evidentes que ela carrega. É dar um passo a mais na direção de uma política movida por afetos extremos, pela lógica do inimigo e pela disposição ao confronto.

Estamos vivendo um momento saturado de desconfiança, ressentimento e agressividade. Naturalizar mobilizações que flertam com o fanatismo, assim como rir delas de forma irresponsável, são dois lados do mesmo problema. Ambos contribuem para transformar o debate público em uma rinha, em que o objetivo deixa de ser convencer e passa a ser derrotar moralmente o outro.

A democracia não é o espaço da ausência de disputa. Ela é, por definição, o espaço do conflito regulado, em que adversários reconhecem a legitimidade mútua mesmo discordando profundamente. Quando o outro deixa de ser adversário e passa a ser inimigo, a violência deixa de ser uma possibilidade remota e passa a se insinuar como horizonte.

Reconhecer a força de uma mobilização política não é legitimá-la. Criticar seus excessos não é desrespeitar seus participantes. O que está em jogo não é a concordância ou discordância com uma causa específica, mas a preservação de um mínimo de civilidade política. E, neste momento, o Brasil já se encontra perigosamente próximo demais desse abismo.

Samuel Vidilli é cientista social

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