OPINIÃO

O vira-lata que ladra em inglês


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No último 7 de setembro, dia em que o Brasil celebra sua independência, uma cena em São Paulo chamou mais atenção do que os discursos oficiais ou o tradicional verde e amarelo nas ruas: uma enorme bandeira dos Estados Unidos foi protagonista da manifestação da extrema direita. Não era um detalhe folclórico, nem um gesto inocente. Era a revelação explícita de um traço persistente da nossa vida pública: o velho e constrangedor “complexo de vira-lata”.

O conceito, cunhado por Nelson Rodrigues, denuncia a inclinação nacional a se sentir inferior diante do mundo rico, a necessidade de buscar no estrangeiro (e nunca em nós mesmos) a validação de nossa cultura, de nossa política, de nossa própria dignidade. O cientista político Alberto Carlos Almeida, em suas análises sobre a cultura política brasileira, mostra como esse traço se reproduz em nossa sociedade: não é apenas uma insegurança psicológica, mas o reflexo das desigualdades históricas, da falta de autoestima coletiva e da crença de que tudo o que vem de fora é melhor.

Exibir uma bandeira americana em pleno Dia da Independência, como se fosse um troféu, é uma contradição gritante. Afinal, que independência é essa que se orgulha em exibir a insígnia de outra nação? Que soberania é essa que se afirma olhando para fora em vez de olhar para dentro? O recado transmitido é claro: para uma parcela dos manifestantes, o Brasil não basta.

Mas há aqui um agravante: não se trata apenas de reverência genérica aos Estados Unidos, mas especificamente à imagem dos EUA associados ao trumpismo – um projeto político que afronta justamente os valores de liberdade e democracia que seus defensores brasileiros juram enaltecer. É de uma ironia cruel: em nome da liberdade, reverenciam um líder que tentou minar o processo eleitoral americano; em nome da democracia, aplaudem quem estimulou a invasão do Capitólio em 2021. Falta de memória histórica, de leitura política e de coerência. Para dizer o mínimo.

A cena do 7 de setembro foi, portanto, pedagógica. Mostrou que parte da extrema direita brasileira é incapaz de elaborar um projeto de país que seja genuinamente nacional. Em vez de discutir um Brasil mais justo, soberano e próspero, prefere importar símbolos alheios, copiar slogans, imitar gestos. No limite, trata-se de uma renúncia à própria cidadania: é a abdicação de pensar o futuro do Brasil em nome da submissão a uma fantasia estrangeira.

Não se trata de demonizar os Estados Unidos. Trata-se de recusar a ideia de que nossa identidade precise ser tutelada por outra nação. É legítimo dialogar, admirar, aprender com experiências internacionais. Mas é inaceitável transformar essa admiração em culto servil, sobretudo quando feita às custas da negação da nossa história. Celebrar a independência com a bandeira de outro país é admitir, sem pudor, que ainda não conquistamos a verdadeira emancipação: a emancipação simbólica, cultural e política.

Enquanto insistirmos em olhar para fora em busca de modelos prontos, continuaremos presos ao vira-latismo que Nelson Rodrigues denunciou e que Alberto Carlos Almeida atualizou em suas pesquisas. Continuaremos acreditando que a salvação virá de fora, quando na verdade a saída depende de nós.

Libertar-se desse complexo é mais do que um exercício de autoestima: é uma exigência histórica. O Brasil precisa acreditar em si mesmo para poder existir plenamente. Nossa independência de 1822 proclamou a ruptura com Portugal. Mas em 2025, ainda nos falta a independência mais difícil: a do espírito.

Enquanto a maior bandeira em nossas ruas for a de outro país, continuaremos reféns de nossa própria incapacidade de sonhar e construir como nação. O verdadeiro ato de patriotismo, hoje, é ter a coragem de acreditar que o Brasil pode ser protagonista da sua própria história, sem precisar ladrar em inglês, sem mendigar símbolos estrangeiros, sem carregar com orgulho a bandeira errada.

Samuel Vidilli é cientista social (svidilli@gmail.com)

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