OPINIÃO

Louvar o Natal é comemorar a vida

24/12/2023 | Tempo de leitura: 3 min

Até mesmo em países onde a população cristã é minoritária, o Natal marca a grande festa da solidariedade universal. Por mais que tentem revestir essa data de um caráter fortemente comercial, ela tem resistido a todos mecanismos de consumo, mostrando que sua mensagem é mais forte do que qualquer manipulação de seus símbolos, que  frequentam tanto as vitrines iluminadas dos grandes magazines como a sala de visita de quase todas as casas, nos lugares mais recônditos do planeta. Efetivamente, num mundo tão cingido por desavenças e injustiças de toda espécie, o menino que nasce em Belém nos convida a olhar fundo para o nosso próximo e lembrar que ele é irmão de Cristo e, portanto, nosso irmão, renovando as esperanças de que um dia os homens conseguirão viver em paz e fraternidade.

Louvar o Natal é comemorar a vida, reafirmando na família e na comunidade, os valores do Evangelho libertador de Jesus, pois a encarnação é um ato que nasce da liberdade e do amor. Por isso, todos os anos, a sua celebração deveria se transformar em momento de meditação e nessa trilha, enquanto forem furtados ao povo, em especial à criança, os direitos de acesso à educação, à saúde, à moradia digna não haverá festejo natalino, porque falta libertação. Os indivíduos sem tempo ou condições para pensar, oprimidos e espoliados terão maiores dificuldades em acreditar também no amor divino. Aí está a nossa grande responsabilidade: contribuir para que este país propugne por uma distribuição igualitária de renda e por dignidade para sua gente, constantemente explorada em suas aspirações mais primordiais.

Com manifesto ânimo, apesar da insegurança do tempo, da fragilidade dos relacionamentos que nos envolve  e rouba de nós o essencial, sem que  percebamos isso, precisamos colocar em prática os ensinamentos do Menino que veio nos libertar, para amarmos e transformarmos nossa vida por amor, fazendo da convivência,  num momento marcado por conflitos e opressões, a grande escola de harmonia e isonomia entre os seres. Invocamos aqui, a título de reflexão, Maria Helena Brito Izzo, terapeuta clínica e familiar: - "Tomar consciência do lento e gradativo processo de transformação que acontece, diariamente, conosco e com as demais pessoas ao nosso redor, ajuda-nos a lidar melhor com as mudanças  e nos beneficiar delas" (Revista "Família Cristã"- 12/96- p.29).

O clima natalino envolve as pessoas sobretudo num clamor de poesia e ternura, singeleza e encanto, fazendo renascer  sentimentos de sincera humanidade, de compreensão e de compaixão, alimentando a confiança mútua. Os sorrisos afloram com mais facilidade e as armaduras construídas na dura batalha cotidiana parecem menos impenetráveis, talvez em sinal de reverência, mesmo que inconsciente, a um Deus que se fez homem, para assumir o mundo. E cada pessoa assume o Natal toda vez que com um gesto de fraternidade, um apelo à justiça, um abraço de perdão, permite que Jesus nasça em seu coração. Desejamos assim, aos nossos leitores e amigos, que a festa do menino de Belém aconteça na concórdia e em plenitude de amor e que 2024 seja iluminado pela Boa Nova de vida, realizações e respostas para os anseios da grande maioria.

Assim, o Natal deveria estar presente em todos os dias de nossa vida. Permanentemente temos que estar atentos à procura de novos meios que tirem nossos semelhantes da contínua miséria em que se encontram mergulhados, mudando ainda o coração dos homens, dando a uns, espírito de fraternidade e a outros, coragem de buscar, também na fraternidade, melhores condições de vida.

Vale lembrar um trecho da poesia "Natal" de Olavo Bilac, que indica o nascimento de Jesus: Não nasceu entre pompas reluzentes:/ Na humildade e na paz desse luar,/ Assim que abriu os olhos inocentes, / Foi para os pobres seu primeiro olhar".

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. Foi presidente das Academias Jundiaense de Letras e de Letras Jurídicas. É autor de diversos livros (martinelliadv@hotmail.com)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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