Creme de chocolate


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Superfície crocante e interior cremoso
Superfície crocante e interior cremoso
“Era um creme de chocolate, inspiração e atenção pessoal de Françoise, fugaz e leve como uma obra de circunstância, e no qual pusera todo o seu talento. Aquele que se recusasse a prová-lo, dizendo: “Terminei, não tenho mais fome”, seria imediatamente rebaixado à categoria desses indivíduos grosseiros que, mesmo diante de um presente que um artista lhe faz de uma obra sua, só veem o peso e o material, quando o que vale é a intenção e a assinatura.”
 
O trecho com que começo este texto é parte das recordações do protagonista Marcel no primeiro volume da catedral de palavras que é Em busca do tempo perdido, entre os maiores romances de todos os tempos. Marcel Proust, autor-narrador, recordando a cidadezinha fictícia de Combray, misto das reais Illiers e Auteuil, faz referência à cozinheira que, como personagem, resultou da soma de cinco outras serviçais que trabalharam para a família Proust. 
 
O assunto é rico, mescla arte e culinária, antecipa centenas de reflexões que vão permear as mais de quatro mil páginas do ciclo. A semelhança desses dois processos criativos que são escrever e cozinhar inspira também os autores de livro recém-lançado pela Editora Sextante, À mesa com Proust, escrito pela especialista Anne Borrel, consultora técnica da Sociedade dos Amigos de Marcel Proust; pelo decorador Jean-Bernard Naudin, editor de várias revistas francesas; pelo ex-chef do restaurante parisiense Lucas Carton, Alain Senderens. Os três resgatam para o leitor páginas onde a arte culinária é celebrada pelo romancista como aquela que mais se aproxima da literatura e onde ele mergulha, através de metáforas e metonímias, abrindo caminhos ao entendimento do tempo e seus efeitos.
 
Foi feliz Anne Borrel na escolha dos trechos. Inspirado Naudin na recriação de estilos e épocas colocados à mesa. Competente Alain Sanderens, na adaptação à nossa época de receitas antigas, redescobrindo, sem traições, a verdadeira cozinha de Françoise, quer dizer, de Proust.
 
Mago das palavras e dos sabores, capaz de tornar conhecido de milhões um biscoito banal chamado madeleine e uma perfumada xícara de chá de tília, meios sensoriais que são pontos de partida pelos quais chega à reconstrução de toda sua vida, o ficcionista viveu sob o signo do requinte desde a infância, sendo seu pai um médico respeitado que fez carreira acadêmica e sua mãe uma mulher rica que apreciava música clássica e literatura francesa.
 
Ao narrar a saga de Madame Verdurin, que recebia toda semana artistas em seu salão; dos duques de Guermantes, que só abriam a mansão magnífica para grandes recepções; de Odette de Crécy, a cocotte que se casa com Swann, homem de grande cultura e elegância; das demoiselles de Balbec, que frequentavam o hotel do balneário homônimo; do enciclopédico Barão de Charlus, que citava de cor uma centena de espécies de peras; da tia Léonie, presa a uma cama por razões de doença incapacitante, mas muito generosa no acolhimento aos parentes que buscavam sua casa no período das férias - enfim, falando de tanta gente que constrói com suas palavras, o escritor transpõe para as páginas receitas que tinham feito parte de seu mundo. Da infância à adolescência, até chegar à idade adulta, onde atacado por frequentes crises de asma manda forrar com cortiça um quarto do Hotel Ritz onde se instala até a morte. Em O tempo recuperado, último dos sete volumes que compõem o ciclo, ele reflete: “ (...) como as individualidades em um livr
o são feitas de numerosas impressões que, extraídas de muitas moças, de muitas igrejas, de muitas sonatas, servem para compor uma moça, uma única sonata, uma só igreja, não faria eu o meu livro da mesma maneira como Françoise fazia essa carne de boi estufada, apreciada por Monsieur de Norpois, e onde tantos pedaços de carne acrescentados e escolhidos enriqueciam o molho gelatinoso?”
 
Essa carne, à qual o romancista se refere reiteradas vezes, consta do conjunto de receitas anexadas como apêndice ao livro. É um cozido feito com pedaços de chã-de-dentro, peça bem macia de boi, deixados de véspera em vinha-d’alho (com bom vinho tinto e ótimo conhaque para a base) e no dia seguinte refogados em toucinho. Cozidos lentamente, pouco antes do final do processo têm o acréscimo de cenourinhas e cebolinhas. Como à carne é juntado um pé de vitela no início do cozimento, as cartilagens e o tutano engrossam o caldo que ao resfriar se torna gelatinoso. Também fazem parte da coletânea culinária outras carnes, entradas, saladas, peixes, aves e caças, sobremesas. Se as madeleines estão neste último grupo? A resposta é afirmativa. Mas elas só têm graça se conseguirmos forminhas ideais, que são as que imitam patinhas de gato. 
 
Para obter a sobremesa da ilustração, ferva o leite e derreta nele o chocolate. Mexa bem com colher de pau. Bata as gemas com açúcar até que fiquem esbranquiçadas. Despeje o leite quente com o chocolate bem derretido sobre as gemas e continue batendo. Passe por peneira e distribua em forminhas untadas, de oito cm de diâmetro. Podem ser  as do tipo que usamos para suflê. Mas se você é uma felizarda que possui jogo com aquelas tigelinhas lindas, refratárias que imitam porcelana, use-as que vão ficar um luxo. Leve ao forno quente, em banho-maria, por uma hora. Desligue, deixe esfriar, sirva gelado. Saboreie pensando na beleza da literatura, que recria ambientes, constrói personagens, esboça mundos onde algumas vezes desejaríamos habitar para sempre.