Bebês em foguetes, animais com aparência humana, celebridades em versões distorcidas e cenas que desafiam qualquer lógica narrativa passaram a ocupar espaço crescente no YouTube. Produzidos integralmente por inteligência artificial, esses vídeos chamam atenção mais pelo estranhamento do que pela criatividade, e vêm acumulando milhões de visualizações.
O fenômeno acompanha o avanço de ferramentas cada vez mais acessíveis de geração de imagens e vídeos, capazes de produzir conteúdo em escala industrial e com baixo custo. O resultado é uma enxurrada de publicações visualmente chamativas, mas pobres em originalidade e contexto.
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Dados recentes de plataformas de monitoramento indicam que canais operados exclusivamente com conteúdo gerado por IA estão entre os que mais crescem no YouTube. Em um recorte de canais com expansão acelerada em um único mês, uma parcela significativa já não conta com participação humana direta na criação dos vídeos.
Alguns desses perfis ultrapassaram a marca de milhões de inscritos em pouco tempo, impulsionados por formatos repetitivos, títulos apelativos e forte dependência do algoritmo de recomendação.
Diante do avanço desse tipo de material, o YouTube decidiu reforçar sua postura. A empresa atualizou o nome de sua política interna, que deixou de tratar apenas de conteúdos repetitivos e passou a enquadrá-los como “conteúdo não autêntico”. Na prática, a mudança reforça que produções artificiais em massa nunca foram elegíveis para monetização.
Após análises recentes, a plataforma removeu alguns canais e bloqueou outros de acessar receitas publicitárias, sinalizando que o combate ao chamado “spam de IA” deve se intensificar nos próximos meses.
Entre os canais que ganharam notoriedade estão páginas dedicadas a animações de gatos em competições esportivas irreais, histórias surreais com estética infantil e montagens bizarras envolvendo personagens famosos. Embora diferentes entre si, todos compartilham a mesma lógica: alto volume de produção, pouco valor narrativo e forte apelo visual.
O avanço desse tipo de conteúdo reacendeu discussões sobre o empobrecimento das experiências digitais. Especialistas apontam que a proliferação de vídeos artificiais faz parte de um processo maior, no qual plataformas priorizam engajamento rápido e receita publicitária em detrimento da qualidade.
Esse movimento já é observado em outras redes, como Instagram e TikTok, onde vídeos criados por IA também acumulam milhões de visualizações. Em resposta, essas plataformas passaram a exigir a identificação de conteúdos realistas gerados artificialmente.
Ao restringir a monetização, o YouTube tenta reduzir o incentivo financeiro por trás da produção em massa de vídeos artificiais. A medida busca proteger criadores humanos, preservar a credibilidade da plataforma e conter a saturação de conteúdos considerados descartáveis.
O desafio, porém, permanece: equilibrar inovação tecnológica com autenticidade, sem transformar as redes sociais em um mar de vídeos estranhos, repetitivos e sem propósito.