Publicações literárias daqui e dalhures brindaram em outubro os leitores de Heman Melville com artigos sobre “Moby Dick”, romance escrito durante um ano pelo norte-americano que o publicou em 1851. Clássico, perene, icônico, é uma das obras-primas da literatura mundial. Mas só obteve reconhecimento sete décadas depois de seu lançamento.
A história começa com o narrador, o jovem Ishmael, se alistando em um baleeiro, o Pequod, comandado pelo misterioso e temido Capitão Ahab. Este, depois de alguns dias em alto mar, revela aos tripulantes sua única motivação: vingar-se de Moby Dick, a baleia branca que tinha lhe arrancado a perna algum tempo atrás. Em águas revoltas, são encontrados outros baleeiros que fazem relatos sombrios sobre a terrível cachalote. À medida que o navio se aproxima do Oceano Pacífico, tempestades apavorantes e bússolas desmagnetizadas anunciam o desastre iminente. Quando Moby Dick é avistada, tem início a perseguição de três dias intensos que terminam com o gigante marinho abrindo fenda fatal no navio. Ahab lança seu último arpão com desespero, mas a linha se enrosca em seu pescoço, puxando-o para as profundezas. O Pequod é engolido por um redemoinho marinho, levando toda a tripulação à morte, exceto Ishmael, que sobrevive ao flutuar num caixão de defunto transformado em boia de salvação- um grande trunfo criativo pela metáfora que comporta. Resgatado pelo navio Rachel, o marinheiro contará a aventura extraordinária que viveu.
O enredo, aqui bastante reduzido, por si só chamaria a atenção pela criatividade. Por que então o livro foi tão mal recebido e permaneceu no ostracismo por décadas, até que o movimento modernista o distinguisse como romance escrito ‘avant la lettre’, ou seja, com características, ideias e conceitos que só chegariam no começo do século XX para transformar profundamente a forma de criar e ver a arte?
Aconteceu de Melville fazer algo muito novo que não foi compreendido pelos leitores de sua época: intercalou na narrativa capítulos detalhados sobre a biologia e a anatomia das baleias; explorou minuciosamente a história, a economia e os métodos brutais da indústria baleeira do século XIX; transcendeu o gênero de ficção de aventura para se tornar um épico filosófico e existencialista; abordou temas cruciais como o livre-arbítrio, o determinismo, a megalomania, a fúria da natureza. E criou uma baleia indecifrável e invencível, que permanece como enigma: sua cor branca é analisada em capítulo célebre, simbolizando não apenas a morte, mas também o vazio, o divino e a indiferença do universo.
Enfim, isso a que o modernismo iria chamar ‘fragmentário’, em metáfora sobre a vida, foi considerado ‘caótico’ pelo leitor romântico com um pé no realismo nascente de meados do século XIX. O resgate da obra só aconteceu depois dos ensaios do poeta e prosador (“O amante de Lady Chaterley”) inglês D.H. Lawrence, em 1923. Ele soube reconhecer a estética original do romance, a linguagem viva da caçada à baleia, o sabor da ironia do narrador, o peso da catástrofe que se abate inapelavelmente sobre o Pequod, enfim, o ineditismo de Melville ao alinhavar junto à ficção referências míticas, científicas, históricas e filosóficas.
Li “Moby Dick” na juventude e voltei a fazê-lo recentemente por conta dessa efeméride que celebra os 175 anos do livro e vem trazendo análises inovadoras. De minha parte, como leitora, sempre acho que é a capacidade de uma obra de produzir inúmeras interpretações ao longo do tempo que a torna icônica, guardando em si algo novo a ser desvelado. Assim, uma segunda leitura me levou à associação, que a muitos poderá parecer inusitada, entre “A Odisseia” e “Moby Dick”. O elemento comum é o mar, claro. Esse mar que na literatura ocidental raramente é apenas uma extensão de água salgada. De Homero a Herman Melville, o oceano tem funcionado como um espelho da existência: um território vasto, inconstante e indiferente, onde a humanidade testa seus limites físicos e existenciais. Em “A Odisseia” e “Moby Dick”, a travessia marítima deixa de ser mero pano de fundo geográfico para se converter na metáfora máxima da própria vida. Simboliza uma jornada repleta de perigos imprevisíveis, em que o destino e a força de vontade travam um embate constante, seja na escala dos grandes mitos, seja nas trajetórias mais prosaicas do cotidiano.
Em “A Odisseia”, a navegação de Ulisses pelo Mediterrâneo é a longa e sinuosa estrada de volta para casa. Os monstros e tempestades enviadas por Poseidon simbolizam as forças caóticas do mundo que conspiram para desviar o indivíduo de seu propósito. Já em “Moby Dick”, a viagem do Pequod pelas águas profundas do Pacífico assume um tom mais metafísico e trágico: a busca não é pelo retorno à ordem da pátria, mas pela confrontação direta com o incognoscível, encarnado na figura da grande baleia branca.
É na caracterização de seus protagonistas que as duas obras revelam sua mais profunda convergência. Ulisses e o Capitão Ahab representam o ápice da coragem, da obstinação e da força interior diante do imponderável. O herói grego encarna a resiliência adaptativa. Sua inteligência e sua capacidade de suportar dores e tentações, desde o canto das Sereias até os encantos de Calipso, mostram uma determinação inflexível de cumprir sua vocação existencial. Ulisses padece, perde homens e embarcações, mas recusa-se a sucumbir. Ahab, por outro lado, eleva a obstinação ao nível do trágico e do sublime. Ao desafiar a força monumental da natureza e o sofrimento físico impostos por Moby Dick, o capitão demonstra uma vontade inquebrantável que se recusa a se ver subjugada pelo cosmos. Mesmo quando a empreitada beira a loucura, sua fibra moral e recusa em se render tornam-no uma figura de força avassaladora.
Esses dois protagonistas estão sempre nos lembrando que viver exige uma dose quase heroica de firmeza. Ainda que as tempestades do cidadão comum não envolvam Cérberos ou Baleias, as batalhas diárias contra a incerteza, o luto, as perdas e o desgaste do tempo exigem a mesma disposição interior. A travessia de cada indivíduo, por mais simples ou prosaica que seja a sua rotina, exige a coragem de erguer as velas todas as manhãs e, mantendo-as pandas, encarar as águas abertas do instante.
A perenidade de Homero e Melville reside justamente na capacidade de tocar essa corda sensível do coração humano. Narrativas como “A Odisseia” e “Moby Dick” permanecem vivas porque lembram que navegar é inevitável, que o perigo é parte constituinte da rota, que a verdadeira grandeza humana não está em ter um oceano calmo, mas na capacidade de não abandonar o leme quando a tempestade desaba.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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