O que teria começado como uma história de amor terminou em violência e morte. Priscila Lacerda Custódio, de 24 anos, foi assassinada a tiros em Rifaina, no dia 27 de outubro, depois de ir até uma propriedade rural para devolver uma caminhonete ao pecuarista João Roberto Bolelli, de 62 anos, com quem mantinha um relacionamento.
Na quinta-feira, 5, um neto de João, considerado testemunha do crime, foi ouvido na delegacia de Rifaina. Segundo o irmão de Priscila, o jovem se assustou com o disparo feito pelo avô e ajudou a levar a vítima até uma unidade de saúde.
A Polícia Civil ainda busca esclarecer uma série de questões: quanto tempo durou o relacionamento? Os dois realmente haviam se separado? O que motivou a discussão que terminou em morte? Priscila já havia sido agredida outras vezes? Houve desaparecimento de dinheiro da conta de Bolelli? E outras pessoas estavam com o pecuarista no momento do assassinato?
A morte de Bolelli pode levar à extinção da punibilidade em relação a ele, já que não é possível aplicar uma pena criminal a uma pessoa que morreu. Isso não significa, porém, que a investigação sobre eventuais outros envolvidos tenha de ser encerrada.
Quem era Priscila?
Natural de Perdizes (MG), Priscila trabalhava como empresária na área de marketing digital e também atuava como videomaker. Nas redes sociais, compartilhava trabalhos realizados para lojas, casamentos e outros clientes.
Amigos a descreviam como uma jovem alegre, trabalhadora e cheia de planos. Ela estudava marketing digital e fotografia e tinha o sonho de comprar um apartamento. Também era próxima de amigas com quem mantinha parcerias profissionais.
Segundo o boletim de ocorrência, Priscila mantinha um relacionamento casual com Bolelli havia quase quatro meses. Nos dias anteriores ao crime, ela teria relatado agressões e ameaças feitas pelo pecuarista.
Segundo a família da jovem, ela namorava Samuel Ramos, também morador de Perdizes (MG). Em entrevista, ele informou que pretendia se casar com Priscila no ano que vem.
Quem era João Roberto Bolelli?
Natural de Rifaina, João Roberto Bolelli era pecuarista e tinha reconhecimento no setor de produção leiteira. Em 2023, uma vaca de sua propriedade, chamada Poesia, da raça holandesa, alcançou uma marca de quase 150 litros de leite em um único dia, resultado anunciado como recorde mundial durante uma competição agropecuária. Na ocasião, Bolelli afirmou já ter conquistado 76 torneios leiteiros.
O pecuarista também tinha histórico de processos relacionados à violência doméstica. Em 2018, chegou a ser preso preventivamente por descumprimento de uma medida protetiva concedida a uma ex-companheira. Em 2021, foi condenado a três meses e 15 dias de detenção, em regime aberto, por descumprir a ordem judicial. A condenação foi mantida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 2022.
A documentação judicial também registra uma condenação por vias de fato - agressão -, relacionada a um episódio de 2017, além de outros procedimentos que não terminaram em condenação.
Como foi o crime?
Priscila estava acompanhada do irmão e de uma amiga quando chegou à propriedade rural. Segundo os relatos apresentados à Polícia Civil, ela queria encerrar a relação e já havia contado sobre agressões e ameaças feitas pelo pecuarista.
Na entrada da propriedade, os dois começaram uma discussão. Durante o desentendimento, Bolelli teria sacado um revólver calibre 38 e atirado à queima-roupa contra a jovem. O disparo atingiu o abdômen.
Priscila foi socorrida, mas morreu pouco depois, em Rifaina. Após o crime, Bolelli fugiu na caminhonete. Ele foi encontrado morto cinco dias depois, em uma área de mata próxima à fazenda.
Quem são os envolvidos?
- Priscila Lacerda Custódio: jovem de 24 anos, morta a tiros em Rifaina.
- João Roberto Bolelli: pecuarista de 62 anos, apontado como autor dos disparos. Foi encontrado morto cinco dias depois.
- Geovane Custódio: irmão de Priscila, que a acompanhou até a propriedade.
- Pollyanna: amiga da jovem, também estava com ela na viagem.
- Neto de Bolelli: estava nas proximidades da propriedade e, segundo os relatos, ajudou no socorro da jovem. Foi ouvido pela Polícia Civil nesta quinta-feira.
- Homem ainda não identificado: citado nos relatos sobre a presença de outras pessoas na propriedade.
Como era o relacionamento?
As versões sobre quando o relacionamento começou são diferentes. A amiga de Priscila relatou que os dois se envolviam desde julho de 2026, de forma intermitente. Já a família do pecuarista afirmou que a relação existia desde 2025.
Uma carta encontrada com o corpo de Bolelli também mencionava um relacionamento de aproximadamente um ano e meio e o desejo de construir uma família com a jovem.
Priscila, por outro lado, teria relatado à amiga episódios de agressão e ameaças. Segundo Pollyanna, ela chegou a ver marcas no corpo da jovem. A amiga também contou que Priscila tinha medo do pecuarista e que ele não aceitava o fim da relação.
Por que Priscila foi até a fazenda?
A jovem viajou até Rifaina para devolver uma Toyota Hilux que pertencia a Bolelli. O irmão dirigia a caminhonete, enquanto Priscila seguia com a amiga em outro carro para indicar o caminho.
Na chegada à propriedade, o pecuarista apareceu em um Corolla branco. Os relatos apontam que os dois discutiram por causa de dinheiro, celulares e do próprio Corolla, que teria sido prometido a Priscila.
Bolelli também teria exigido a devolução de um aparelho iPhone 17 que havia dado à jovem. Durante a discussão, Priscila teria dito que queria ir embora e não queria mais nada com ele.
Em seguida, segundo os depoimentos, o pecuarista atirou contra ela e fugiu com a caminhonete.
O que falta esclarecer?
Um dos principais pontos é saber quem acompanhava Bolelli na hora do encontro e qual foi a participação de cada pessoa. Há relatos sobre a presença de outros homens na propriedade, mas ainda existem divergências sobre quantos eram e o que fizeram.
A Polícia Civil também precisa identificar o outro homem mencionado nos relatos e esclarecer a atuação do neto ouvido na quinta-feira. Até o momento, o conteúdo do depoimento não foi divulgado. O jovem é tratado como testemunha.
A própria morte de Bolelli também deverá ser esclarecida. Embora a família acredite que ele tenha sofrido um mal súbito, os exames realizados pelo Instituto Médico Legal (IML) deverão apontar a causa da morte. O pecuarista tinha diabetes e fazia uso de medicamentos e insulina.
Com a morte de Bolelli, a eventual extinção da punibilidade dele não significa, necessariamente, o encerramento da investigação. A Polícia Civil ainda pode apurar se outras pessoas auxiliaram ou participaram do assassinato de Priscila.
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