Um caso que reúne assassinato, desaparecimento, suspeita de homicídios e sequestro mobiliza a Polícia Civil de Franca desde junho deste ano. O que começou com a morte do caseiro Milton de Sousa Prado, de 44 anos, em uma chácara, ganhou novos desdobramentos com os assassinatos de dois jovens que teriam participado do crime, o desaparecimento da filha dele, Maria Isabel Oliveira do Prado, apontada como mandante, e o sequestro de familiares da jovem.
Até o momento, três mortes foram confirmadas. A Polícia Civil, porém, não descarta uma quarta vítima: Maria Isabel, desaparecida desde julho e que pode ter sido assassinada em um tribunal do crime.
Na última semana, o caso voltou a ganhar repercussão com a divulgação de áudios que revelaram detalhes das agressões sofridas pela família durante o cativeiro. As gravações também reforçaram o envolvimento de Kelly Cristina Queiroz, apontada pela investigação como uma das participantes do sequestro. O inquérito específico sobre o crime teve a conclusão anunciada nesta semana.
Nesta quinta-feira, 5, outro avanço: um laudo identificou duas substâncias psicotrópicas no fígado de Guilherme Henrique Melo da Cruz, de 22 anos, um dos jovens encontrados mortos em Sacramento (MG).
Segundo a Polícia Civil, o resultado reforça a suspeita de que ele e Rafael Vitor Silva de Sousa Rosa, de 18 anos, tenham sido dopados antes de morrer. O exame de Rafael ainda está pendente.
Quem são os envolvidos?
- Milton de Sousa Prado: caseiro de 44 anos, encontrado morto a pauladas em uma chácara de Franca, em 16 de junho. Segundo a investigação, foi assassinado por dois jovens;
- Maria Isabel Oliveira do Prado: filha de Milton, investigada por supostamente encomendar a morte do pai e dos dois jovens apontados como autores do primeiro homicídio. Está desaparecida;
- Rafael e Guilherme: apontados como envolvidos na morte de Milton. Foram encontrados mortos em Sacramento, em 9 de julho;
- Cláudio do Prado: tio de Maria Isabel. Segundo a investigação, confessou ter ajudado a ocultar os corpos dos dois jovens;
- Noemi Vitória de Sousa Rosa: tia de Rafael, apontada como uma das articuladoras do sequestro dos familiares;
- Kelly Cristina Queiroz: dona da casa no Jardim Aeroporto III utilizada como cativeiro. Conforme a investigação, também teria articulado o tribunal do crime;
- Ana Laura de Sousa Rosa Alves: apontada como participante das ações contra as vítimas. Aparece nas gravações conversando com Kelly sobre o sequestro e as agressões; e
- Outros investigados: mulheres suspeitas de participação no sequestro e um homem identificado no segundo inquérito por ajudar a manter as vítimas em cativeiro.
Qual era a relação entre eles?
Rafael era namorado da irmã adolescente de Maria Isabel. Segundo a investigação, a jovem chamou Rafael e Guilherme para dar um "corretivo" no pai. Depois da morte de Milton, os dois rapazes desapareceram.
Cláudio é irmão de Milton e tio de Maria Isabel. Noemi, por sua vez, é tia de Rafael. A investigação aponta que familiares dos jovens passaram a pressionar a família de Milton para descobrir o paradeiro dos rapazes.
Kelly é apontada como participante do sequestro. A residência dela, no Jardim Aeroporto III, foi utilizada como um dos cativeiros onde familiares de Maria Isabel foram mantidas.
O que teria motivado os crimes?
A Polícia Civil suspeita que Maria Isabel tenha encomendado a agressão que terminou na morte do pai. Um dos motivos seria o conservadorismo de Milton, descrito como muito rígido com as filhas. Posteriormente, ela também teria participado dos homicídios de Rafael e Guilherme.
As investigações apontam que Maria Isabel atraiu os dois jovens após ser ouvida na DIG (Delegacia de Investigações Gerais) sobre o assassinato do pai.
Segundo um relato atribuído ao tio, ela teria dito que atrairia os rapazes, os doparia e depois os mataria. Ainda conforme a versão, Maria Isabel teria contado ao tio que foi assediada sexualmente pelos jovens e que esse seria o motivo do crime.
Câmeras de monitoramento flagraram Maria Isabel indo para Sacramento, dias antes do sequestro. Para a Polícia Civil, esse teria sido o dia em que ela matou a dupla.
O laudo divulgado nesta quinta-feira identificou substâncias com potencial sedativo no organismo de Guilherme. Os exames necroscópicos apontaram que os dois jovens foram mortos a facadas.
Como aconteceu o sequestro?
Em julho, Maria Isabel, a mãe, a irmã adolescente e uma sobrinha recém-nascida foram levadas para diferentes imóveis de Franca e pressionadas a revelar onde estavam Rafael e Guilherme.
Segundo a investigação, seis mulheres se organizaram para sequestrar as quatro familiares. As vítimas foram levadas a diferentes endereços e agredidas com o objetivo de obter informações sobre o paradeiro dos rapazes.
As três familiares de Maria Isabel foram resgatadas pela DIG em 7 de julho, em uma casa no Jardim Aeroporto III, de propriedade de Kelly Cristina. Maria Isabel, porém, havia sido retirada do local antes da chegada dos policiais e não foi mais encontrada.
Áudios divulgados pela Polícia Civil mostram que Kelly tinha conhecimento das agressões e questionava a liberação das vítimas. Segundo a corporação, as gravações e outras mídias enviadas pela própria investigada reforçam a participação direta dela no sequestro e na restrição da liberdade das familiares.
Dois dias depois do resgate, os corpos de Rafael e Guilherme foram encontrados na zona rural de Sacramento.
O que falta esclarecer?
O principal mistério é o paradeiro de Maria Isabel. A Polícia Civil não descarta que ela tenha sido morta por pessoas envolvidas no sequestro, mas ainda não confirmou a morte nem encontrou o corpo.
Também falta esclarecer se Rafael recebeu as mesmas substâncias identificadas no organismo de Guilherme, quem participou diretamente dos homicídios e qual foi o papel de cada investigado na ocultação dos corpos e na destruição do carro de Maria Isabel, encontrado queimado.
Com a conclusão do segundo inquérito, a Polícia Civil também identificou um novo suspeito de participação no sequestro. Segundo o delegado Gabriel Fernando, ele teria recebido instruções sobre como trancar e destrancar o portão do imóvel, levado alimentos às vítimas e ajudado a mantê-las em cativeiro. O homem também deverá ser indiciado.
A investigação segue em andamento. A possibilidade de uma quarta morte ainda depende de confirmação, enquanto a Polícia Civil continua buscando identificar outros possíveis envolvidos e descobrir o paradeiro de Maria Isabel.
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