Começou a circular nas redes sociais uma lista que estimula um boicote a empresas de Franca supostamente associadas ao presidente Lula (PT) e ao PT (Partido dos Trabalhadores). A relação reúne cerca de 40 estabelecimentos de diferentes segmentos, entre lojas de departamentos, varejistas, marcas de produtos de beleza, docerias, pizzarias e supermercados. As publicações geraram críticas, denúncias ao MPT (Ministério Público do Trabalho) e posicionamentos dos empresários citados.
Um dos negócios incluídos na lista foi a empresa Tio Paulo Eventos. Com mais de dez anos de atuação, a empresa presta serviços de recreação infantil e organização de eventos em Franca. A partir desta terça-feira, 27, o empresário Paulo Ferreira foi surpreendido ao receber mensagens de amigos e clientes alertando sobre a inclusão da empresa na relação. Ao longo do dia, segundo ele, também chegaram ofensas e mensagens em tom de ameaça e com xingamentos.
“Por mais que essa informação tenha me assustado, porque não traduz a verdade, me assustou mais a violência. A rapidez de propagação desse tipo de informação e da irresponsabilidade de pessoas que se prestam a esse tipo de serviço, seja criar informações falsas ou até mesmo propagá-las sem nenhum tipo de responsabilidade”, afirmou.

Ferreira reforçou que sua empresa não tem orientação política. Ele afirmou que os negócios empregam e continuarão empregando pessoas com diferentes posições políticas, ideológicas e religiosas, desde que compartilhem valores de respeito, dedicação e compromisso com o trabalho.
“Nós trabalhamos diariamente para que os nossos valores sejam alinhados aos princípios cristãos, estejam alinhados com Deus, e não com líder político ou com um tipo de partido. No entanto, me chama a atenção a violência do extremismo, independente da ideologia política”, disse.
Para Ferreira, o episódio também serviu como reflexão sobre a intolerância política. “Será que eu não estou me tornando um monstro que eu digo combater? Será que os lados estão cada vez mais parecidos e só são incapazes de enxergar isso?”, questionou.
Ele afirmou que, depois que a lista começou a circular, ficou difícil reparar os danos causados pela divulgação.
“No momento em que as coisas foram esclarecidas, não era mais possível reparar todo o mal que já tinha sido causado. Porque essas listas foram copiadas e coladas diversas vezes em vários grupos”, concluiu.
Supermercados negam associação política
O Supermercado Santo Expedito divulgou uma nota afirmando que o nome do estabelecimento foi incluído indevidamente em uma lista que circula nas redes sociais e no WhatsApp desde terça-feira, 27. A empresa classificou a associação como “mentirosa, leviana e criminosa” e negou qualquer vínculo com a publicação ou com o posicionamento político atribuído ao estabelecimento.
“Respeitamos a liberdade de opinião e as escolhas políticas de todos, mantendo nosso compromisso com a ética, a imparcialidade e o respeito”, declarou a empresa.

O Supermercado Santa Terezinha também se manifestou e afirmou que a lista é falsa. “O Supermercado Santa Terezinha vem a público esclarecer que não defende o Partido dos Trabalhadores nem qualquer outro partido político”, informou.
Justiça já condenou autores de lista semelhante
Em julho de 2025, o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) condenou em segunda instância dois homens acusados de elaborar e divulgar uma relação de comerciantes considerados apoiadores da esquerda em Cafelândia, no interior paulista, após a eleição de 2022.
Os dois foram condenados pelo crime de perseguição, com penas em regime aberto e suspensão condicional da pena. Também tiveram de pagar indenização individual equivalente a dois salários mínimos para cada uma das sete pessoas citadas na lista que formalizaram reclamações.
Segundo a denúncia do Ministério Público, os comerciantes foram alvo de constrangimentos, perturbações no trabalho e prejuízos financeiros. O nome de uma lanchonete incluída na relação chegou a ser associado a um ataque com uma pequena bomba contra o estabelecimento.
Mariana Negri alerta para discriminação
A circulação das mensagens também foi criticada por Mariana Negri (PT), que foi candidata a deputada federal por Franca. Em vídeo publicado nas redes sociais, ela afirmou ter recebido capturas de tela de mensagens que incentivam empregadores a demitir funcionários por suas posições políticas.
“Demitir alguém por posições políticas não é permitido pela legislação brasileira”, afirmou.
Mariana orientou que pessoas que presenciarem ameaças ou demissões motivadas por convicções políticas procurem o Ministério Público do Trabalho. Segundo ela, não é necessário ser a vítima direta para fazer uma denúncia, que pode ser apresentada de forma sigilosa.
“Categorizar pessoas dessa forma - num dos posts eu vi inclusive que era pra demitir, não contratar, não prestar solidariedade - fere direitos humanos previstos no nosso país”, declarou.
MPT registra mais de 300 casos de assédio eleitoral
O procurador do Trabalho Igor Gonçalves afirmou que o Ministério Público do Trabalho já havia recebido mais de 300 casos de assédio eleitoral desde o fim do segundo turno das eleições de 2026. Segundo ele, os relatos envolvem empregadores, influenciadores e terceiros que incentivam a demissão ou a perseguição de trabalhadores por causa do voto.
“Esse tipo de prática é proibida no nosso ordenamento jurídico e configura assédio eleitoral”, declarou.
Gonçalves explicou que os envolvidos podem ser responsabilizados quando as irregularidades são comprovadas. Entre as consequências possíveis, estão a reintegração de trabalhadores demitidos e o pagamento de indenizações por dano moral coletivo.
“Se você ficar sabendo desse tipo de prática, denuncie ao Ministério Público do Trabalho no nosso portal, mpt.mp.br. O Ministério Público do Trabalho está ao lado do trabalhador antes, durante e depois das eleições. Contem conosco!”, afirmou.
Assessor parlamentar será exonerado
Em outro episódio relacionado à repercussão política após as eleições, o presidente da Câmara Municipal de Franca, Fransérgio Garcia (PL), anunciou a exoneração do assessor parlamentar Marcelo Ramalho. A decisão foi tomada após o assessor publicar mensagens nas redes sociais defendendo a demissão de funcionários que apoiam o PT.
Ramalho afirmou que empresários deveriam demitir trabalhadores petistas e também publicou mensagens com ataques ao partido e críticas ao governo Lula. Fransérgio repudiou as declarações e disse que o assessor já havia se envolvido em outras polêmicas políticas nas redes sociais.
Segundo o vereador, Ramalho havia assinado anteriormente um compromisso de não participar de discussões políticas nas redes, sob pena de exoneração.
“Precisamos aceitar ganhar e precisamos aprender a perder também”, declarou Fransérgio, ao defender o respeito ao processo democrático.
Caso também repercute nacionalmente
A mobilização para identificar e pressionar empresas e trabalhadores por posicionamentos políticos também repercutiu em outros estados. No Rio de Janeiro, a deputada estadual Índia Armelau (PL) publicou um vídeo incentivando empresários a verificar se funcionários haviam demonstrado apoio a Lula nas redes sociais e questionando a permanência desses trabalhadores nas empresas.
Após a publicação, o Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro ajuizou uma ação civil pública contra a parlamentar, por entender que a manifestação incentivava o assédio eleitoral e a discriminação por convicção política. Na terça-feira, 27, a Justiça do Trabalho concedeu uma liminar que proibiu a deputada de incentivar demissões por escolhas políticas, de acordo com o UOL.
*com informações da Folhapress
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