O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) cumpriu 11 mandados de busca e apreensão contra 12 pessoas nesta terça-feira, 20, em Franca, Ribeirão Preto e Altinópolis, no âmbito das operações Garatéia e Libelo. As investigações apuram suspeitas de advocacia predatória, ajuizamento de ações em massa contra instituições financeiras e retenção de valores que deveriam ser destinados a aposentados, pensionistas e outros clientes. As medidas também incluem o bloqueio de até aproximadamente R$ 6,15 milhões em bens e valores.
O Portal GCN/Sampi teve acesso aos documentos que detalham o funcionamento dos dois grupos investigados. As apurações apontam possíveis irregularidades na captação de clientes, no uso de procurações, na transferência de créditos judiciais e no repasse de valores obtidos nos processos.
A Operação Garatéia investiga um grupo de advogados de Franca, com suspeitas relacionadas à captação digital de clientes e ao uso de dados previdenciários. Já a Operação Libelo apura a abordagem presencial de idosos e a transferência de créditos judiciais a empresas ligadas aos investigados.
Somadas as operações, o Gaeco investiga oito advogados: Felipe Cintra de Paula, Pablo Almeida Chagas, Danilo Stante Herker, Guilherme Menna Barreto Gentil, Adriely Naves Lovato, Raffaela Costa Moysés, Naiara Baldin e Ana Augusta Furtado Tanno.
Além deles, outros quatro nomes aparecem na relação: Thaís Batista Coelho de Paula, Letícia Ferreira dos Santos, Rodrigo Gentil e Luiz Felipe Coutinho de Almeida Dias.
Segundo os documentos, os grupos são distintos. Até o momento, não há conclusão de que as duas estruturas tenham ligação entre si.
Garatéia: captação digital e divisão de funções
A Operação Garatéia investiga um grupo de advogados que teria utilizado redes sociais, sistemas de consulta de dados e parcerias comerciais para captar clientes e ajuizar ações contra instituições financeiras.
De acordo com a apuração, o grupo promovia transmissões ao vivo na internet com ofertas de análises gratuitas de contratos bancários. A estratégia poderia atrair aposentados e beneficiários do INSS.
A investigação também aponta o uso de listas com dados previdenciários e informações sobre margens de empréstimos consignados. Entre as suspeitas estão a utilização de procurações com assinaturas inseridas digitalmente ou sem autorização dos titulares, além de possíveis irregularidades na prestação de contas e no repasse dos valores obtidos judicialmente.
Os documentos descrevem uma divisão de tarefas entre os investigados, que abrangeria desde a captação dos clientes até a elaboração e o protocolo das ações.
O advogado Felipe Cintra de Paula é apontado como responsável pela coordenação jurídica, estratégica e financeira do núcleo. Segundo o Gaeco, ele definiria modelos de petições e procurações, orientaria o protocolo das ações, negociaria parcerias institucionais e administraria pagamentos e repasses.
Thaís Batista Coelho de Paula é apontada como responsável pela equipe de captação. Conforme a investigação, ela definiria roteiros de atendimento, orientaria a cobrança de valores apresentados como taxas de perícia ou contabilidade e organizaria ações de divulgação digital, incluindo transmissões ao vivo com influenciadores.
Já o advogado Pablo Almeida Chagas é identificado como responsável pela estrutura de dados e pelo suporte técnico. A apuração atribui a ele a manutenção de planilhas com informações previdenciárias e listas de potenciais clientes, além do acesso a sistemas de consulta de margem consignável, como Ortros e ClickLev.
Ele também teria organizado controles de processos e cadastros e articulado parcerias com escritórios e intermediadores para a captação de clientes.
A investigação aponta ainda uma ligação entre essa estrutura e a empresa Velox Soluções Financeiras, franquia de propriedade de Letícia Ferreira dos Santos, mulher de Pablo. Conforme a apuração, a empresa teria fornecido suporte operacional e acesso a dados relacionados a crédito.
O advogado Danilo Stante Herker é apontado como responsável pela operacionalização jurídica e pela distribuição das ações. Segundo o Gaeco, ele faria a ligação entre a triagem dos cadastros obtidos durante a captação e o protocolo dos processos no sistema do Tribunal de Justiça.
Um dos principais pontos investigados é se as ações foram ajuizadas com o consentimento dos aposentados e se os valores recebidos foram repassados corretamente às pessoas representadas.
Movimentações de R$ 10,9 milhões
Os levantamentos financeiros citados na investigação apontam cerca de R$ 10,9 milhões em movimentações relacionadas a 3.812 levantamentos judiciais em contas vinculadas aos investigados, entre janeiro de 2021 e junho de 2025. Segundo a apuração, aproximadamente um quarto desse montante teria sido transferido a terceiros.
O levantamento também identificou cerca de R$ 770 mil em honorários recebidos por uma empresa relacionada aos investigados, em operações envolvendo mais de 2,7 mil pessoas.
Outro ponto apurado é o saque de aproximadamente R$ 1,38 milhão em dinheiro entre dezembro de 2024 e março de 2025. Até o momento, a destinação dessa quantia não teria sido esclarecida.
Libelo: idosos e cessão de créditos judiciais
A Operação Libelo investiga um grupo que teria captado idosos presencialmente e ajuizado ações contra instituições financeiras para, posteriormente, transferir os créditos obtidos a empresas ligadas aos investigados.
Segundo a apuração, a empresa Desenrola Soluções Administrativas Ltda. seria utilizada para abordar aposentados e oferecer serviços de auxílio financeiro. Após a captação, advogados ajuizariam ações bancárias, posteriormente transferidas ao advogado Guilherme Menna Barreto Gentil, apontado como líder do núcleo jurídico.
Conforme o Gaeco, Guilherme concentraria os processos e movimentaria os valores judiciais. Ele também receberia, diretamente em sua conta bancária pessoal, depósitos provenientes de mandados de levantamento eletrônico.
O advogado é ainda apontado como presidente da empresa AMG Compra de Créditos Judiciais Ltda., identificada na investigação como uma das destinatárias dos direitos creditórios cedidos pelas vítimas.
Durante a operação, Guilherme foi preso em flagrante pela Polícia Militar, suspeito de jogar um notebook e um celular pela janela de um prédio na tentativa de destruir os aparelhos, que eram alvos de mandados de busca. Ele foi levado à Central de Polícia Judiciária.
O pai dele, Rodrigo Gentil, é apontado como sócio e administrador da Desenrola. De acordo com a investigação, ele atuaria na captação presencial de idosos e na negociação das cessões de créditos judiciais. A suspeita é de que os direitos das vítimas fossem transferidos por valores muito inferiores aos montantes envolvidos nos processos.
A apuração também identifica Luiz Felipe Coutinho de Almeida Dias como sócio-administrador da Finalize Processo, Serviços e Créditos Ltda. Segundo o Gaeco, a empresa teria sido utilizada como outra cessionária para concentrar direitos creditórios retirados das vítimas.
Processos padronizados e transferência de créditos
Na etapa inicial das ações bancárias, as advogadas Adriely Naves Lovato e Raffaela Costa Moysés são apontadas como responsáveis pela apresentação de processos padronizados. Após o protocolo, elas teriam transferido o controle das ações a Guilherme por meio de substabelecimentos sem reserva de poderes.
A advogada Naiara Baldin é apontada como responsável pela habilitação das empresas cessionárias e pela sucessão processual. Já a advogada Ana Augusta Furtado Tanno teria atuado no acompanhamento cartorário e no monitoramento da expedição de mandados de levantamento eletrônico junto às secretarias dos fóruns.
A investigação busca esclarecer se essa divisão de funções permitia iniciar processos em nome dos aposentados e, posteriormente, transferir os créditos judiciais a empresas ligadas ao grupo sem que os titulares recebessem os valores efetivamente devidos.
Entre os casos analisados estão processos nos quais os depósitos judiciais teriam variado de R$ 48,6 mil a R$ 67 mil, enquanto as vítimas teriam recebido cerca de R$ 1 mil pela cessão dos créditos.
A apuração também identificou mais de R$ 2 milhões em valores retirados de processos relacionados a ações em Altinópolis.
Além das buscas, a Operação Libelo prevê medidas de bloqueio patrimonial de até R$ 3 milhões e providências relacionadas ao acesso a informações bancárias e fiscais.
O que dizem as defesas?
Em nota, o advogado Rafael Spirlandeli, que representa dois investigados na Operação Garatéia, afirmou que as apurações teriam começado após uma instituição financeira denunciar os advogados que foram alvos dos mandados de busca e apreensão.
Segundo ele, a instituição respondia a processos judiciais por cobranças indevidas de taxas de aposentados. O advogado também afirmou que as ações ajuizadas por seus clientes foram julgadas procedentes. “Meus clientes estão tranquilos, atuam dentro da legalidade e da ética profissional, e irão colaborar com a justiça para que a verdade venha o quanto antes”, declarou.
Júlio Mossin, responsável pela defesa de Guilherme Menna Barreto Gentil, negou que o cliente tenha cometido fraude ou se apropriado de valores.
O Portal GCN/Sampi tenta localizar as defesas dos demais investigados nas operações em Franca, Ribeirão Preto e Altinópolis. A reportagem será atualizada assim que houver novos posicionamentos.
As investigações continuam em andamento. As suspeitas ainda dependem da apuração dos fatos e não representam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal dos envolvidos.
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