EDUCAÇÃO INFANTIL

Brincadeira entre mãe e filha vira livro selecionado pelo PNLD

Por Leonardo de Oliveira | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Sampi/Franca
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Karina Gera, autora do livro Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira
Karina Gera, autora do livro Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira

Uma história criada durante as brincadeiras de uma mãe com a filha pode chegar a crianças de diferentes partes do Brasil. O livro Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira, da escritora e ilustradora Karina Gera, integra a lista de 356 obras da Categoria 2 – Pré-Escola selecionadas para o Guia oficial do PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático) Educação Infantil 2026–2029. A publicação faz parte do Acervo 9.

Com trajetória ligada a Franca e Ribeirão Preto, Karina passa a integrar uma seleção de obras de diferentes autores e editoras. A escolha foi precedida por um processo de aproximadamente dois anos, que envolveu inscrição, triagem, avaliação pedagógica, validação e seleção.

Entre os 12 livros publicados e dois inéditos, a autora decidiu inscrever a obra por acreditar no potencial da história para o ambiente escolar.

“Quando fui fazer a inscrição no PNLD, só podia escolher uma obra nesta categoria. Entre todas elas, decidi inscrever Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira, porque acredito muito no papel que esse livro pode desempenhar dentro das escolas”, afirma.

Uma história que nasceu em casa

A inspiração surgiu da rotina familiar. Justine, filha da autora, hoje com 5 anos, sempre gostou de brincar com a água durante o banho. Ao observar a menina, Karina começou a pensar em como abordar a importância de preservar esse recurso desde cedo, sem transformar a conversa em uma lição.

“Foi justamente observando essa relação dela com a água que comecei a pensar em como sensibilizar uma criança, desde cedo, para a importância da água e do cuidado com ela, mas sem transformar isso em uma lição”, conta.

Karina costuma inventar histórias para a filha durante o banho, no carro e antes de dormir. Justine pede uma “história da minha cabecinha”, expressão que acompanha o exercício de imaginação entre as duas.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de transformar a água em uma personagem fujona.

“Minha filha começou a perceber, por meio do conto, que a água era uma personagem fujona e que a torneira tinha a função de controlá-la. Foi aí que percebi que aquela brincadeira tinha virado uma história”, diz a escritora.

A narrativa aborda o cuidado com a água e o desperdício por meio do humor, das rimas e da imaginação.

Torneira vira detetive para encontrar a água

A história acompanha Tia Lokinha, uma menina ruiva apaixonada pelo planeta que aparece em outros livros de Karina. Enquanto escova os dentes, ela começa a imaginar a função da torneira e a vê como responsável por controlar o trânsito da água.

No banheiro, porém, a menina encontra um verdadeiro aguaceiro. Incomodada com a fuga da água, a torneira decide investigar o que aconteceu e sai em busca de pistas.

“Para a torneira, aquilo era um problema. Para a água, era liberdade. Então a torneira assume o protagonismo da história, vira detetive e sai em busca de pistas para descobrir por onde a água fugiu”, explica Karina.

Ao longo da investigação, aparecem diferentes formas de desperdício. A água, por sua vez, quer apenas se esbaldar, sem saber ainda o quanto é importante.

A personificação permite que o tema ambiental seja apresentado por meio de personagens com personalidades, desejos e pontos de vista próprios. A história também deixa aberta a possibilidade de que os acontecimentos sejam fruto da imaginação da menina.

“Gosto de deixar esse espaço aberto para que cada criança construa a sua própria interpretação da história”, afirma a autora.

Literatura para falar sobre o uso da água

Para Karina, o banheiro é um espaço privilegiado para conversar com as crianças sobre o consumo consciente, por fazer parte das primeiras experiências cotidianas delas com a água.

“Acho que o banheiro é um dos melhores lugares para conversar com as crianças sobre desperdício, porque é ali que acontecem muitos dos primeiros contatos delas com a água: ao escovar os dentes, tomar banho, dar descarga”, diz.

Escrito em versos rimados, o livro utiliza jogos de palavras, metáforas e movimento. As ilustrações também são de Karina e foram concebidas para permitir a leitura visual, inclusive por crianças que ainda não dominam completamente a leitura.

No desfecho, a relação entre as personagens muda. Depois dos conflitos, torneira e água encontram uma forma de viver em harmonia e se transformam na “dupla da economia”: Fecha Torneira e Dona Ligeira.

Na contracapa, a autora resume a proposta com uma provocação: “Sabe o que podemos abrir à vontade? Livros! Torneiras não!”

Obra pode chegar a escolas de todo o país

A seleção pelo PNLD amplia a possibilidade de circulação da produção literária de Karina, que tem vínculos profissionais e culturais com Franca e atualmente vive em Ribeirão Preto.

“Depois que me tornei mãe, minha literatura ganhou ainda mais propósito”, afirma.

Para a escritora, a literatura não precisa oferecer respostas prontas, mas pode despertar imagens, perguntas e interpretações que continuem presentes mesmo depois da leitura.

“Acho que esse é o valor da literatura: ela não precisa entregar apenas uma resposta. Ela pode criar imagens, provocar perguntas e fazer uma ideia continuar correndo como um rio dentro da criança, mesmo depois que o livro termina.”

A próxima etapa é a escolha dos acervos pelas escolas participantes do PNLD. Entre 13 e 30 de outubro de 2026, professores e equipes escolares poderão analisar o Guia e registrar suas escolhas no sistema PNLD Gestão.

Na Educação Infantil, a seleção é feita por acervo, e não por título isolado. A obra de Karina integra o Acervo 9.

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