Você tem o hábito de olhar-se no espelho? E quando se depara com a sua própria imagem refletida, normalmente, qual leitura faz de si mesmo? Em quais aspectos detém sua atenção? Nas olheiras e no cansaço expresso em sua face ou nas experiências que as travessias da existência somaram em sua bagagem? Ao mirar seus próprios olhos dentro do espelho, contabiliza, como em um filme em sua tela mental, as lágrimas já choradas, as dores que já transformou, os lutos que se demoram, os cenários que já contemplou? Os amores que os fizeram brilhar?!
Ao identificar os cabelos brancos, as marcas imperdoáveis do tempo, lamenta o sopro da juventude que cintila e passa ou enumera as batalhas que soube enfrentar? Observa os sentimentos que foram se depurando ao longo do caminho, as verdades relativizadas que antes gritavam para serem ouvidas e agora se acomodam em um breve sussurrar? Será que existe, em algum lugar, um espelho capaz de a alma enxergar?
Há quem diga que os olhos são o espelho da alma e, de fato, as relações parecem ser valiosas oportunidades para nos olharmos por dentro, pois o avesso do aparente nem sempre é aquilo que o espelho reflete do lado de fora. O espelho é que muitas vezes nos faz recordar que somos seres em construção, imperfeitos, inacabados, mas que constantemente apara suas arestas na busca da melhor versão!
Ainda existem sombras, é verdade, mas também existem recantos em nós que já se iluminaram. Resistências que foram cedendo com o sofrimento, com os afetos que afetam nossa caminhada. Traumas que se ressignificam, feridas que são curadas e, ao mesmo tempo, dificuldades que permanecem, comportamentos que, repetitivos, parecem enraizados. Assim somos nós, complexos e extraordinariamente únicos nos matizes de nossa expressão. Ao vislumbrar nossas cicatrizes no espelho da vida, respeitemo-las, mas, transcendendo o olhar, estejamos atentos à história que contam, mergulhando mais fundo, como alguém que começa a ler um livro despretensiosamente e de repente se vê completamente absorvido pelo enredo.
José Antônio Pereira é psicólogo e membro da Academia Francana de Letras; Marília Gabriella R. Peres é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo
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