Resenha

Um livro amoroso

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 5 min

“Chaves interiores”, de Marília Gabriella R. Peres e José Antônio Pereira, lançado em delicada e expressiva cerimônia na sexta-feira 23, no salão da Facef, em Franca, enquadra-se numa vertente rara: a das obras que transitam na fronteira entre o utilitário e o estético, redimensionando o conceito de gênero porque também são tradutoras dos recônditos da alma humana, da tragédia cotidiana, da beleza efêmera. Ao abandonar o tom meramente denotativo, descritivo, didático, deixam de ser apenas manual de instruções e se filiam ao universo da literatura, considerada em sua acepção mais tradicional. 

Com uma escrita de rigor formal irrepreensível, frases antológicas e textos deliberadamente curtos, o volume convida a uma pausa contemplativa. Como sugere o elegante prefácio de Caio Abrão Garcia Dagher, é “(...) chamado silencioso para que cada um de nós abra as gavetas da própria alma e tenha coragem de iluminar o quarto escuro da memória, olhar de frente para o que guardou ali por tanto tempo e realizar a necessária faxina interior.”
Longe de prometer fórmulas mágicas ou atalhos para a felicidade, os autores, em parceria harmoniosa, desvelam profunda espiritualidade, resgatando a essência da sabedoria clássica com toques helênicos, orientais e cristãos. José Antônio e Gabi fazem um convite ao leitor para que se aperfeiçoe a si mesmo, transformando-se em um ser cada vez mais pleno através da reflexão transcendente. 

Uma das grandes forças da obra reside no uso magistral de imagens arquetípicas. Como a vida, concebida como uma viagem, não como deslocamento geográfico, mas travessia interior rumo ao autoconhecimento. Vários textos  funcionam como uma estação onde o viajante é instado a desembarcar, examinar suas bagagens emocionais e decidir o que é essencial levar adiante. Porque, afinal, “nós, como astronautas peregrinos em missão em orbe distinto, em algum instante conseguimos empreender a travessia da existência’. 

Nessa mesma paisagem simbólica, a natureza atua como espelho e mestra.  As ações humanas são comparadas a sementes: tudo o que cultivamos no silêncio dos pensamentos acaba por germinar no mundo concreto: “Sabemos que de uma semente infinitos frutos se desprendem. Então, cabe questionar, com olhos para o porvir: que tipo de sementes temos semeado?” Há um rigor quase profético  nessa observação, lembrando-nos de que a colheita não é um capricho do acaso, mas o desdobramento lógico de nossa atenção diária ao solo fértil da mente.

Em paralelo, a alma ganha contornos arquitetônicos na metáfora da casa interior. Alguns textos sugerem que habitamos cômodos que muitas vezes negligenciamos. E nos fazem pensar em porões de sombras não resolvidas, sótão de sonhos antigos e esmaecidos, salas de estar onde só exibimos o que desejamos que seja visto. Cuidar dessa morada exige coragem para abrir janelas emperradas pelo tempo e permitir que a luz da consciência ventile os espaços outrora sufocados.

A densidade filosófica do livro transparece de maneira notável quando o texto aborda “a impermanência que permeia todas as nuances da vida”.  Sem recair no academicismo árido, alguns textos evocam o pensamento de Heráclito e outros filósofos gregos que afirmavam ser a mudança a única coisa permanente no mundo: aceitá-la como única constante nos liberta da ânsia de controle. Compreende-se, através da leitura, que sofrer por resistir ao fluxo da vida é o mesmo que tentar conter a água entre os dedos. A sabedoria reside em fluir com a correnteza, aceitando os ciclos de término e recomeço, nos ensinam José Antônio e Marília Gabriella. E acrescentam trechos tão memoráveis quanto incentivadores: “É preciso coragem para transpor os desertos, sem descrer de si mesmo, coragem para se desapegar do passado, das experiências de dor, dos sentimentos que, ao modo de espinhos pontiagudos, ocupam espaço no jardim de nossa alma e só nos machucam’.  

O acolhimento da impermanência e do sofrimento humano encontra sua expressão mais comovente no tratamento dado às cicatrizes. Alguns capítulos até fazem lembrar, sem menções explícitas, a filosofia japonesa do kintsugi, a arte milenar de reparar vasos quebrados com laca salpicada de ouro, celebrando as fraturas em vez de escondê-las. As dores e os desastres da vida não nos diminuem; pelo contrário, marcam a nossa história com traços de resiliência. O ouro invisível que une nossos cacos é a própria maturidade conquistada através da dor, transformando a fragilidade em obra de arte. São ensinamentos que aparecem às vezes em forma de perguntas: “Você reconhece que as suas cicatrizes te fazem uma pessoa melhor do que aquela que você seria se não as tivesse?”

Por fim, o conjunto de textos amplia o horizonte do desenvolvimento pessoal para além do indivíduo egocêntrico ou ensimesmado. A busca pela plenitude não pode se restringir ao umbigo; ela deve se expandir em direção ao outro através do resgate da ancestralidade. Sob este aspecto, propõe ainda uma reflexão delicada: para além da nossa árvore genealógica, existe uma família universal que pulsa em cada ser humano. Aqueles que nos antecederam deixaram pegadas que hoje trilhamos, e honrar essa linhagem significa assumir a responsabilidade pelo presente. Cuidar do agora é um ato de respeito aos que vieram antes e uma herança de esperança para os que virão depois. A espiritualidade aqui não é dogmática, mas profundamente ética e comunitária: “Não somos simples vítimas do acaso, e sim frutos de escolhas que nos antecederam e que se desdobrarão no porvir(...) Para além da família pessoal, há a universal, que precisa ser cuidada por cada um de nós que no agora vivemos, em respeito à ancestralidade”. 

O livro de José Antônio e Gabi é realístico ao lembrar que “Paz não é ausência de conflito, mas sim a capacidade de convivermos uns com outros sem que, para isso, tenhamos que machucar-nos”. É esperançoso ao apostar na prosperidade porque “na matemática do universo, quanto mais oferecemos, mais recebemos.” É proverbial ao registrar que “Sem os pés no chão da realidade, sem saber onde se está, não é possível chegar onde se deseja.” É insinuante ao nos presentear com as chaves para abrir a casa interior, “um local em nós que deveria ser mais visitado”. É profundo quando, ao nos ensinar a colar os cacos com o ouro da experiência e nos conectar à nossa vasta ancestralidade, cumpre um objetivo nobre da arte: lembrar-nos de quem realmente somos e do potencial infinito que habita em nosso silêncio.

“Chaves Interiores” é um livro amoroso. Lê-lo é aceitar um acolhimento em forma de palavras. Ele prova que a autoajuda, quando escrita com profundidade psicológica, conhecimento filosófico, cuidado linguístico, esmero estético e sensibilidade lírica transcende níveis denotativos e conquista o direito de se sentar à mesa da literatura de excelência.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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