Ao ver uma chamada na Netflix para o filme ‘Nise: O Coração da Loucura’, me lembrei de que havia lido, há muitos anos, o livro ‘Nise: Arqueóloga dos Mares’, escrito pelo pesquisador e museólogo Bernardo Carneiro Horta, que acompanhou de perto o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, nome icônico ligado à criação do Museu das Imagens do Inconsciente, no Rio. Haveria ligação direta entre os dois títulos? Uma pesquisa rápida me mostrou que sim. O livro serviu de base biográfica e conceitual para a criação do longa-metragem de Roberto Berlinger. Aliás, a ideia de realizar um filme sobre Nise partiu do próprio Bernardo, que apresentou o projeto e sua pesquisa ao cineasta Roberto Berliner. O processo de produção do longa durou cerca de 13 anos e teve como alicerce o material documentado no livro.
Foi revelador me lembrar de que Horta, em algum momento da obra que é misto de ensaio e biografia, explica a frase ‘arqueóloga dos mares’ como a forma pela qual Nise enxergava o próprio trabalho: não como "engenheira" que tentasse consertar uma máquina quebrada, mas sim como “arqueóloga” que escavasse os símbolos e as imagens que emergiam do inconsciente (o "mar" interior) dos pacientes.
Enquanto o livro de Bernardo Horta funciona como fonte teórica e biográfica densa, o filme de Roberto Berliner é a tradução dramatizada e audiovisual desse universo, sintetizando a luta e a filosofia humanista de Nise da Silveira para o grande público.
Vamos ao filme.
O enredo começa com dois gestos de recusa: do hospital que custa a abrir as portas para a médica; da médica que não assina assinar o livro de ponto por não aceitar as diretrizes da ordem médica da época. Recém-saída da prisão política onde tinha sido encarcerada durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, período em que conviveu com o escritor Graciliano Ramos e outros artistas, a alagoana encontra um cenário psiquiátrico dominado pelo eletrochoque, a lobotomia e o coma insulínico, vendidos pela comunidade acadêmica como o suprassumo da modernidade científica. No entanto, para Nise, tais métodos representavam apenas a mutilação do afeto e a anulação do indivíduo.
Rejeitada pelos colegas em tácita aliança masculina, fria e burocrática, Nise é relegada ao espaço mais abandonado e desprezado do hospital: o Setor de Terapia Ocupacional. Longe de enxergar aquilo como uma punição, transforma o isolamento em um laboratório de liberdade. Onde a instituição via atividades para distrair os loucos, como varrer o chão ou dobrar panos, ela enxerga uma oportunidade de recuperação da subjetividade. Elimina os uniformes, abre as portas do lugar para a luz do dia, introduz tintas, pincéis, argila e a presença de animais de estimação. Berliner filma o cotidiano do ateliê com uma sensibilidade quase documental. A câmera demora-se nas mãos dos ‘clientes’, como Nise chamava aqueles que seus colegas tratavam de ‘pacientes’ porque ela não tolerava a passividade que a palavra denotava. Aos poucos o espectador acompanha a metamorfose de figuras reais que fariam parte da história da arte brasileira: Fernando Diniz, Adelina Gomes, Emygdio de Barros, Raphael Domingues e Bernardo Cardoso.
No início, a comunicação verbal desses indivíduos é fragmentada, violenta ou inexistente. Porém, ao entrarem em contato com as cores e as formas, algo de profundo começa a se organizar no caos de suas mentes. A arte, como sugere Nise, deixa de ser mero passatempo decorativo e passa a operar como um instrumento de acesso ao inconsciente. As imagens que emergem das telas e das esculturas de argila não são delírios sem sentido; são cartografias da alma.
É nesse ponto que o filme introduz a riqueza do diálogo entre Nise da Silveira e Carl Gustav Jung. Impressionada com a constante repetição de formas circulares e geométricas nas pinturas, em especial nas obras de Fernando Diniz, Nise envia fotografias dessas telas para o psiquiatra suíço. O fundador da Psicologia Analítica reconhece ali a manifestação espontânea das mandalas, símbolos ancestrais de busca por equilíbrio e reorganização do “Eu” em momentos de profunda desestruturação psíquica. Esse reconhecimento internacional reforça a premissa de Nise: a loucura não é ausência de razão, mas sim abundância de vida interior caótica que precisa de um canal seguro para se expressar.
A atuação monumental de Glória Pires é o pilar central da obra. A atriz constrói uma Nise firme, contida, dotada de uma teimosia serena e de um olhar profundamente atento. Ela não se coloca como uma salvadora paternalista, mas sim como uma parteira de formas e afetos. A relação que estabelece com o enfermeiro Lima (interpretado com sensibilidade por Augusto Madeira) exemplifica a pedagogia da empatia: ela desconstrói o olhar preconceituoso dos funcionários do hospital, mostrando que o respeito à dignidade humana é o primeiro passo para qualquer processo terapêutico real.
O clímax emocional do filme atinge seu ponto alto quando a instituição, incomodada com o sucesso e a autonomia crescente do setor de Nise, tenta sabotar o trabalho do ateliê. A violência institucional reaparece, seja no sacrifício brutal dos cães, seja na insistência em reverter os pacientes mais instáveis aos métodos violentos da psiquiatria tradicional. O filme não mascara as tragédias e retrocessos dessa jornada; a loucura continua sendo uma experiência dolorosa e, por vezes, avassaladora. No entanto, a semente plantada por Nise prova ser indestrutível. A criação do Museu de Imagens do Inconsciente, que hoje guarda um acervo de centenas de milhares de obras, surge como o testemunho definitivo da vitória da vida sobre a barbárie médica.
Premiado no Japão e aplaudido em seis países europeus, ‘Nise: O Coração da Loucura’ não é apenas uma cinebiografia sobre uma das figuras mais revolucionárias da medicina brasileira. É, acima de tudo, um manifesto estético, político e humano sobre a dignidade, a loucura e a capacidade transformadora da arte.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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