Como agricultor do interior do PR virou drag queen para o filho
Danilo Zocatelli, 37, tomou coragem e ligou para João Cesco Filho, 64, um agricultor que cultiva soja e trigo no interior do Paraná. "Não é todo dia que você pede ao seu pai para pintar ele de drag queen."
Acontece que Danilo, um artista baseado na Inglaterra, teve uma ideia para seu trabalho de mestrado no londrino Royal College of Art. Mas dependia de João para o plano vingar. Foi então que telefonou para o seu velho em Marialva (PR).
Lembra bem do que lhe disse: "Esse projeto eu só consigo fazer com o senhor. A gente vai ter que falar de coisas que nunca falou antes. Talvez a gente chore, mas acho que vai ser muito importante, e para fazer esse projeto eu tenho que pintar o senhor".
A resposta de João veio após uma pausa dramática que, nas contas do filho, deve ter durado uns 30 segundos. "Desde que você me traga uma peruca bonita, e uma para sua mãe também, eu faço", Danilo reproduz as palavras paternas. O pai "já veio diva", brinca.
Levar a performance drag para o ambiente rural do sítio, "onde eu sempre me sentia alienado", vinha com alta voltagem pessoal. Não que o lar onde cresceu fosse violento, "mas era uma família tradicional brasileira, extremamente católica". Isso pesava. Ele mesmo deu catequese na igreja, e teve uma prima que foi freira por 35 anos.
Lá pelos 17 anos, disse a si mesmo: "Danilo, você tem duas escolhas: viver uma mentira e fazer sua família e outras pessoas felizes ou viver a sua realidade, e o as pessoas vão ter que lidar com isso".
Venceu a segunda opção, ainda bem. "Foi uma virada de chave." Foi nessa época que o pai lhe disse pela primeira vez que o amava.
De tão compenetrado que estava, Danilo não chorou clicando o pai, como havia previsto no telefonema em que o chamou para o projeto. Mas chorou escrevendo uma carta em que lhe diz: "Eu estava morrendo de medo de você. Foi pela manhã, tinha café na mesa, a TV estava ligada, minha mãe tinha te contado que eu tinha me assumido gay. Acho que naquele dia foi a primeira vez que nos conectamos, foi estranho porque você não reagiu como eu antecipei, e isso me fez tão bem".
Essa negociação com o passado revelou-se presente até mesmo na linguagem familiar. Na casa em Marialva, todos falam um dialeto próprio, com palavras que Danilo especula terem sido adaptadas do italiano dos antepassados.
Um desses termos foi central em sua pesquisa de mestrado: golo. "Significa viado, né? Para eles, ser golo é ter cabelo comprido, tatuagem, piercing, brinco."
Morando na Europa há 15 anos, Danilo trabalhou num pub gay em Londres onde Freddie Mercury, o lendário vocalista do Queen, levou a princesa Diana, ela disfarçada de homem para poder entrar. Encontrou uma comunidade queer que o fez se sentir acolhido.
Mas percebeu também que, quando viajava para o Brasil, adotava o mesmo ritual de disfarçar sua identidade: tirava brincos, amarrava o cabelo longo, mudava o modo de se vestir.
O ensaio fotográfico com João vestido de drag é uma forma de fazer as pazes com um tempo em que não se sentia à vontade para ser quem é. "Esse projeto nasce para meu pai segurar minha mão e falar: ‘Tá tudo certo’. É essa vontade de pertencer àquele espaço onde eu cresci, mas do qual nunca me senti parte. Então, eu convido meu pai a fazer parte desse meu mundo, no mundo dele."
Ver João performando uma identidade LGBTQIA+ serviu para normalizar a presença da cultura queer naquele ambiente, e maquiá-lo tinha propósito simbólico. Enquanto dava os comandos para a pintura ("abra os olhos", "feche a boca"), Danilo assumia o controle da situação, invertendo a dinâmica de autoridade entre pai e filho. Assim gerava vulnerabilidade.
Durante a sessão de fotos, a única coisa de que o protagonista reclamava era do clima: "Ai, que calor". Era verão, e João suava em bicas.
Durante duas semanas, o agricultor sexagenário foi fotografado em diversas situações que uniam o cotidiano rural e a religiosidade. A peruca tinha fios encaracolados castanhos escuros. De maquiagem: sombras verdes e amarelas brilhantes, delineador preto, blush e batom vermelho. João ora vestia uma camiseta polo azul com faixas brancas, ora uma camisa do Palmeiras.
Deixou-se retratar entre elementos banais do seu dia a dia. Abatendo e preparando um carneiro. Sobre um trator no meio da plantação. Numa capela rural, onde improvisou poses, como na imagem em que segura uma vela diante da estátua de São João Batista.
Essa cena em particular impactou Danilo. Se na infância os pais costumam levar os filhos obrigatoriamente à igreja, "agora eu que tô lá dentro com o meu pai em drag, e ele mais uma vez me guia dentro daquele espaço, mas agora com uma narrativa diferente".
Descobrir que tinha um filho gay foi "um choque extremo", admite João. "Mas posso dizer que aceitei e estou feliz por você ser uma pessoa do jeito que você é, lutadora, trabalhadora, um bom filho, com a graça de Deus", diz à reportagem e também ao filho. "A gente tem fé em Deus, tem amor no próximo. Você, como meu filho, eu não poderia te deixar de lado, era só acolher mesmo."
Na carta ao pai, o filho diz que desenhar um rosto novo naquela pele marcada de sol, "de um homem que vive da terra", foi um exercício de liberdade. "Aquele menino que se culpou por ser gay, que não se tornou engenheiro e até hoje não aprendeu a dirigir estava em festa. Eu não quero te transformar em outra pessoa, porque eu aprendi a te amar e te entender assim como você é. Eu só quero, por um dia, poder te mostrar como eu pertenço no mundo."
Os solavancos existem, mas o saldo dessa jornada até aqui é positivo, afirma Danilo. "Se eu morrer e voltar, quero voltar viado de novo, porque eu amo ser assim, eu amo transformar isso que tantas vezes é olhado de forma negativa em um poder."
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