Antígona ressuscitou e está entre nós. Talvez sua maior vingança seja ressuscitar, inúmeras vezes. Talvez ela nunca tenha morrido. O que pode romper o túmulo e durar eternamente? Só as ideias são capazes de sobreviver e continuar nos provocando. Filha de Édipo e Jocasta, Antígona também fora irmã de seu pai e neta de sua mãe devido o destino trágico da família. Édipo era filho de Jocasta sem que ambos soubessem. Antígona teve três irmãos: Ismênia, Etéocles e Polinice. É com a morte de seus dois irmãos, e uma decisão inabalável de desobediência, que seu destino será selado.
A encenação da tragédia de Antígona escrita pelo dramaturgo e poeta grego Sófocles no ano 442 a.c. pode ser vivenciada como realidade no palco de 360º do IPRA em curta temporada, em Franca. Essa montagem ENSAIO PARA ANTIGONA é rara oportunidade para pessoas inteligentes, ou que buscam cultura se encantarem, acredita ser urgente encantar pessoas pois o “encantamento” é também um gesto político.
ENSAIO PARA ANTÍGONA é um delírio estético bem construído. Um doce colírio, especialmente ácido tanto para o espectador de mais densa bagagem quanto para quem nunca teve mais oportunidades. Posso dizer que a peça também tem caráter “alucinógeno”, já que a imersão no tecido da representação inebria e nos cala profundamente, nos remetendo ao limite ao sonho idealizado de outras realidades, de outros tempos, tudo em perfeita diacronia de estilos e movimentos vistos como processos contínuos. Segundo release do diretor do espetáculo, o estudo da obra mexeu profundamente com todos os envolvidos nessa realização ímpar para os padrões de produção em nossa cidade.
No contexto, Antígona são muitas mulheres e uma só. É o espectro da contestação feminina que encarna, ampliando o impacto da mensagem, a necessidade de sabermos desobedecer aos poderes instituídos para salvarmos nossa humanidade.
Assistir essa montagem pensada e dirigida por Mauro Júnior, nos leva a percebe que o texto também está nos corpos dos atores e nas telas-mortalhas onde cenas capturadas enquanto acontecem são transmitidas ao vivo ampliando percepções. A peça coteja com o do teatro do absurdo que é uma designação criada em 1961 pelo crítico Martin Esslin para agrupar obras de dramaturgos como Samuel Beckett e Eugène Ionesco cuja estética buscava retratar a falta de sentido da existência humana após a Segunda Guerra Mundial.
O uso simultâneo de tecnologias de transmissão audiovisual nos remete às experimentações do dramaturgo brasileiro Gerald Thomas com sua estética de vanguarda, fragmentada e antirracionalista (por questionar ou rejeitar a ideia de que a razão é a única forma de alcançar a verdade e compreender a realidade), que marcou a renovação teatral no Brasil a partir dos anos 1980. Também notamos, no apuro exigente da pesquisa que fica evidente na transmutação dos corpos em pó e lama, da influência do dramaturgo Antunes Filho. O desbunde deslumbre maior é sentir a presença do deus José Celso Martinez Corrêa, para mim o maior dos diretores, dramaturgos, encenadores do Brasil, responsável pela irreverência do /teatro Oficina revolucionou as artes cênicas brasileiras com montagens antropofágicas, políticas e altamente sensoriais.
Todo o elenco se destaca nas interpretações viscerais, são quinze atrizes e atores: Agatha Mourão, Aidê Iansã, Amelie Belle, Davi Silva, Emilly Cunha, Levi Lourenço, Lucas de Maman, Mih Souza, Rafael Elisio, Raira Gomes, Silvia Silva, Sky Gaspar, Tânia de Paula, Thais Ribeiro e Thales Simões.
Os detalhes abundam. Mesmo que eu quisesse descreve-los aqui, seriam spoilers. Nada parece sobrar, tudo tem milímetros de significado. Como por exemplo, a cena em que o rei ditador auto proclamado se encontra com Antígona pela primeira vez. Ao dar um passo ameaçador na direção da protagonista, o déspota pisa em um livro: o exemplar do próprio texto preservado pelo tempo que nos separa dos fatos narrados.
Atuei como conselheiro do setor “literatura e audiovisual” no Conselho Municipal de Cultura em Franca na gestão anterior à atual, e sempre disse que os municípios precisam de muitos projetos aprovados porque é na quantidade que (eventualmente) surge a qualidade. Esse ENSAIO SOBRE ANTIGONA justifica, pela qualidade e pelo respeito à inteligência do expectador, a espera de obra que vale. Finalmente, Franca tem um espetáculo que ultrapassa o bairrismo da Vila do Imperador.
Por tanto e por tudo, convido todas as samambaias de Franca e região para assistirem ao espetáculo ENSAIO SOBRE ANTÍGONA em cartaz nesse fim de semana e no próximo: 18, 19, 20 e 25, 26, 27 de setembro sempre às 20h. A montagem é da Cia. Antares tem entrada gratuita.
Baltazar Gonçalves é formado em História pela Unesp, pós graduado em Terapia Comportamental Cognitiva pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo (FAMEESP), é educador na rede publica estadual, mediador de leituras, agente cultural e membro da Academia Francana de Letras.
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