Lançado em 2014, o romance A cabeça do santo, da escritora cearense Socorro Acioli, destaca-se na literatura brasileira contemporânea ao promover uma síntese peculiar entre a tradição do realismo mágico latino-americano e a cultura popular do Nordeste. A trama exibe a trajetória de Samuel, jovem que, após a morte da mãe, parte em peregrinação rumo à pequena e fictícia cidade de Candeia no intuito de cumprir as últimas vontades maternas: ir a pé, encontrar o pai e a avó que nunca conheceu, acender três velas para a imagem de Santo Antônio.
Sob a perspectiva da análise estrutural da narrativa, que examina os mecanismos formais de construção do texto, e sob o ponto de vista dos estágios que marcam a jornada do herói conforme formulada por Joseph Campbell, o enredo se ergue sobre arquitetura calculada em detalhes e a trajetória do protagonista pela caatinga registra profunda transformação interior, na qual o mito, a religiosidade e o amadurecimento individual se entrelaçam. A ver.
‘A cabeça do santo’ é história contada por um narrador onisciente, escolha fundamental da autora para estabelecer o tom de fabulação característico do realismo mágico: acontecimentos extraordinários são relatados com a mesma naturalidade e precisão dos fatos cotidianos. O espaço desempenha papel ativo e a oposição entre o ponto de partida (Juazeiro do Norte) e o destino (Candeia) marca a transição entre o mundo conhecido e o território do extraordinário. Candeia é uma cidade fantasma, marcada pela aridez e pela decadência socioeconômica, fruto da promessa não cumprida da construção de uma gigantesca estátua de Santo Antônio. A cabeça da estátua, distante do corpo que fica no topo de um monte, funciona como o centro espacial e simbólico da narrativa. Ao transformar o interior oco em sua morada, Samuel passa a habitar fisicamente espaços do sagrado e do profano. O tempo da história resulta da cronologia de eventos presentes e outros anteriores: o passado da cidade e o dos pais do protagonista são reconstruídos gradualmente por meio da memória dos moradores e das revelações trazidas pelas vozes ouvidas pelo protagonista.
São essas vozes que conferem ao enredo camadas de revelação progressiva que se alinham de maneira precisa aos estágios clássicos da mencionada ‘jornada’ que Campbell dividiu em três fases: Partida, Iniciação e Retorno. Na primeira, o herói deixa seu mundo para encarar o desconhecido. Na segunda, trilha o caminho das provações, dos testes e das transformações. Na terceira, compreende o sentido da vida e perde o medo da morte.
No início da narrativa, Samuel habita o mundo ordinário, caracterizado por desolação causada pela morte de sua mãe que atua como o evento desestabilizador e rompe o equilíbrio de sua vida. Ele parte para cumprir sua missão. O cansaço físico e a extrema aridez do sertão representam os desafios iniciais, mas uma ajuda se manifesta pela via de forças invisíveis que o guiam. A caminhada pela caatinga funciona como um rito de passagem geográfico e espiritual da qual é emblemática a chegada a Candeia e, especificamente, o momento em que Samuel se abriga no interior da cabeça oca e abandonada da estátua de Santo Antônio.
Ao entrar na cabeça de pedra, o herói deixa para trás o mundo profano e penetra no domínio do sagrado. É como se atravessasse um portal. Dentro desse lugar ele passa a ouvir as orações, pedidos e segredos amorosos que as mulheres da região direcionam ao santo casamenteiro. Ele se torna portanto um oráculo involuntário. Com o auxílio do jovem Francisco, seu principal aliado no mundo exterior, passa a usar as informações reveladas pelas vozes para resolver os dilemas amorosos das moradoras. Essa atividade devolve esperança às mulheres e dinamismo à depauperada vida econômica de Candeia, atraindo romeiros de diversas regiões. No entanto, o sucesso do jovem atrai a oposição de forças conservadoras e gananciosas da cidade, representadas pelas autoridades locais e pelos que exploram a fé das pessoas ingênuas.
Entretanto, embora de início possa ocorrer ao leitor, a principal provação de Samuel não é confrontar os antagonistas externos, mas o mistério de sua própria identidade. O encontro com a avó e o pai, e o desconforto diante deles, o colocam diante da verdade sobre sua origem. Descobrir a verdadeira história de amor, trauma e desilusão que uniu seus pais exige dele um amadurecimento emocional profundo. Mas é perdoando os erros do passado que ele ressignifica o presente. A etapa final da jornada marca a integração das aprendizagens. O protagonista deixa de ser o jovem órfão e desorientado do início da saga para se tornar um indivíduo consciente de sua história, apto a viver seu próprio destino existencial e amoroso.
‘A cabeça do santo’ revela a admirável habilidade da autora no que se refere à engenharia narrativa. Ao utilizar os parâmetros clássicos da estrutura romanesca e alinhar a trajetória de Samuel aos passos constitutivos da jornada do herói, Socorro Acioli constrói uma saga contemporânea de forte apelo universal. A narrativa não apenas atualiza a tradição do realismo mágico no sertão nordestino, mas também reafirma a força dos mitos arquetípicos: a necessidade de partir, enfrentar as sombras da origem e superar as provações para, finalmente, transformar a si mesmo e ao mundo ao redor. A genuína viagem de Samuel não se mede pelos quilômetros percorridos a pé pela caatinga, ou pelos sofrimentos que o atingem, mas pela distância transposta entre a ignorância de si mesmo e a plenitude de sua identidade.
“O primeiro romance de Socorro Acioli é uma festa, um divertido exercício de imaginação partindo de uma ideia que parece roubada aos melhores sonhos de Gabriel Garcia Marquez e desenvolvendo-a até o final com elegância e maestria.” São palavras de José Eduardo Agualusa, premiado escritor angolano, na contracapa do livro. Maior elogio haverá?
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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