Certa vez, eu ouvi uma frase que por seu sentido profundo, até hoje, ecoa nos arquivos de minha memória: “O dia em que sairmos na rua e por alguma razão, acharmos que tudo está errado, é hora de voltarmos para dentro do nosso quarto e organizar nossa casa interior…”.
E quantas vezes, projetamos na tela da vida, a ordem ou o caos que existe dentro de nós?! Na condição de eternos buscadores daquilo que acreditamos nos faltar, nosso primeiro movimento, quase sempre é buscar, fora de nós, a solução para os nossos problemas ou alguém que se responsabilize por eles, as respostas para nossos dilemas, o remédio para nossas dores, os pretextos de nossa alegria, as justificativas para a nossa infelicidade. E assim, passamos longos períodos de tempo, percorremos árduos caminhos e retornamos sempre ao mesmo lugar que invariavelmente nos coloca diante das mesmas questões...
Até que um dia, decidimos olhar para dentro e descobrimos que as paisagens de fora só se modificam quando primeiro se transformam os cenários de dentro. E para que isto ocorra, é necessário coragem e paciência, ousadia e perseverança. É preciso coragem para transpor os desertos, sem descrer de si mesmo, coragem para se desapegar do passado, das experiências de dor, dos sentimentos que, ao modo de espinhos pontiagudos, ocupam espaço no jardim da nossa alma e só nos machucam.
Coragem para nos perdoar pelos equívocos que fazem naturalmente parte do nosso caminho de aprendiz, liberando o espaço da culpa que martiriza, para que a paciência ensine a ciência de novas aprendizagens. É preciso ousadia para abrir as janelas e iluminar aquilo que em nós, já se habituou à escuridão. Precisamos ter ousadia, também, para enfrentar os medos e os monstros que alimentamos e descobrir em seus olhos a fragilidade da nossa criança ferida e cuidar das cicatrizes que ainda doem, para que um dia, seja possível recomeçar.
Colher as flores do jardim, livre das ervas daninhas que encobrem a beleza e neutralizam o perfume. E para realizar tão grandioso empreendimento, aliados ao tempo, é preciso perseverar, garimpar nossas virtudes e cultivá-las. Revisitar mais vezes este território que é nosso e que tantas vezes deixamos abandonado por olhar demais para a propriedade do vizinho. Que a nossa casa interior seja um lar afetivo e acolhedor, primeiro para quem mora nele, a receber e inspirar a quem olha e chega de fora para contemplar e partilhar o caminho.
José Antônio Pereira é psicólogo e membro da Academia Francana de Letras; Marília Gabriella R. Peres é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo
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