O Ulisses do título, já percebeu quem pousou os olhos na foto que ilustra o texto, não é o da Odisseia, motivo de muitos comentários por conta do filme belo mas polêmico por conta das licenças poéticas da adaptação cinematográfica do texto fundador da cultura e da ética helênicas. O Ulisses que vai alimentar essas mal traçadas linhas é o da novela “Quem ama cuida”, cujos enredo e elenco voltaram a colocar a Globo no ranking de canal mais visto no horário, posto que havia perdido há algum tempo.
Os autores da história do horário das nove, tradição no Brasil, são Walcir Carrasco e Cláudia Souto, escritores e roteiristas com gosto pela literatura. Ambos têm deixado pistas sobre suas preferências nos livros espalhados pelos cenários, especialmente aqueles onde transitam os personagens da família Brandão, uma gente viciada em status e dinheiro.
O espectador atento já terá visto no apartamento de luxo títulos de autores brasileiros e estrangeiros, escolhidos de forma intencional. Nas prateleiras e mesas apareceram “A Divina Comédia” (Dante Alighieri); “Torto Arado” (Itamar Vieira Junior); “A Vegetariana” ( Han Kang); “A Cabeça do Santo” (Socorro Aciolli); “Crime e Castigo”(Dostoievski) e outros. De vez em quando a malévola Pilar é vista a ler “O Príncipe”, de Niccolo Machiavelli. Coincidência, providência ou influência midiática, são títulos que se encontram entre os mais lidos nos últimos meses na plataforma gratuita do MEC.
Para resumir o enredo, a protagonista Adriana (Letícia Colin), fisioterapeuta que vive com os pais e irmão enfrentando dificuldades depois que uma enchente destruiu sua casa, é acusada de um crime que não cometeu, passa seis anos na prisão e, ao sair, jura vingança contra os que tramaram para condená-la. Entre seus alvos está Ulisses, que já foi mostrado rapidamente com o romance “O Jogador”, de Fiódor Dostoievski, nas mãos. Faz todo sentido. Assim como Aleksei Ivánovitch, protagonista da ficção russa, Ulisses Brandão, personagem da novela interpretado por Alexandre Borges, é um jogador compulsivo.
À parte as motivações iniciais e a construção dramática de cada um, ambos não veem a aposta como mero entretenimento, mas como uma força avassaladora que rege suas escolhas. Em “O Jogador”, Dostoiévski — que viveu na pele o vício na roleta — constrói Aleksei como um homem culto cuja ruína decorre da ilusão de controle sobre o acaso e de uma paixão autodestrutiva. De início ele enxerga o jogo como forma rápida de ascensão e autonomia social, mas logo se torna escravo da adrenalina. A roleta passa a ser sua única amante e religião, reduzindo-o a uma figura apática diante de qualquer outro valor moral ou humano. Já Ulisses insere-se na tradição do folhetim e da telenovela brasileira: sua compulsão tem sido até aqui humanizada e entrelaçada ao melodrama familiar. Onde Aleksei carrega niilismo e fatalismo existencial típicos da literatura russa do século XIX, Ulisses expressa uma dimensão mais acessível e emotiva no Brasil contemporâneo. Ele joga alimentado pela esperança ilusória de resolver seus problemas financeiros e de provar seu valor diante da família e da sociedade. A grande divergência reside no desfecho e na função narrativa. A história do romancista russo não oferece grandes consolos pedagógicos; Aleksei se conscientiza de sua degradação, mas também da incapacidade de reagir. Já na linguagem televisiva, o personagem parece que vai se tratar com psicólogo e grupos de apoio, depois de ficar na miséria.
Relevante nesse contexto é que o arco narrativo desse Ulisses o apresenta num papel de utilidade pública, especialmente na atualidade, quando os jogos eletrônicos têm feito estrago nas famílias. Sua trajetória busca gerar identificação no público, mostrando as consequências devastadoras do jogo patológico para as relações interpessoais. A jornada marcada por uma descida aos infernos espelha a crise comportamental que atinge milhões de pessoas na era digital. A espiral da ruína financeira, o isolamento social e a tentativa desesperada de manter aparências não apenas definem a personalidade e a vida do personagem da novela, eles também refletem com exatidão os impactos psicológicos e socioeconômicos do vício em apostas virtuais em nossos dias.
Na era dos smartphones e das bets acessíveis 24 horas por dia, o jogador não precisa mais frequentar cassinos clandestinos ou casas de apostas físicas, como o faz Ulisses. A facilidade de acesso através dos aparelhos móveis elimina barreiras geográficas e sociais, tornando o vício um sofrimento quase sempre invisível e solitário. Mas, física ou digital, a espiral do vício sempre tem seu ápice. No caso de Ulisses, ele compromete o próprio patrimônio —sua participação na Joalheria Brandão — para quitar débitos de jogo. Essa fragilidade financeira o torna alvo de manipulações e chantagens, acelerando sua perda de autonomia e o condenando a intenso sofrimento. Impossível não ver aí paralelo com a realidade hiperconectada: enquanto vilões e agiotas povoam a ficção, na vida real o jogador digital é cercado por empréstimos de um clique, cartões e até linhas de crédito consignado. O dinheiro físico perde a materialidade e vira mero saldo numérico no smartphone, facilitando a dilapidação rápida de economias, imóveis e salários.
Na dramaturgia, vícios sempre atuaram como espelho amplificado da sociedade, expondo os abismos humanos. Walcir Carrasco e Cláudia Souto prestam um serviço relevante com a criação de Ulisses: alertam sobre os perigos de um problema que, com o avanço tecnológico, tornou-se uma questão de saúde pública.
Pesquisa divulgada recentemente revela a existência de 8 milhões de jogadores compulsivos em nosso país.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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