O Banco Central pretende calcular, em tempo real, a probabilidade de fraude de cada transação feita pelo Pix - todas elas, sem exceção. O indicador será construído com um modelo de machine learning e disponibilizado às instituições participantes do sistema, que poderão usá-lo para alimentar seus próprios mecanismos de detecção.
A medida é uma das oito previstas na agenda de segurança divulgada no Relatório de Gestão do Pix 2023-2025. Representa uma mudança de arquitetura: até aqui, a análise de risco acontecia dentro de cada banco, isoladamente. A proposta cria uma camada de avaliação no centro do sistema, comum a todos.
O contexto ajuda a entender a urgência. O Pix movimentou mais de R$ 35 trilhões em 2025, com quase 80 bilhões de transações e uso por 148 milhões de pessoas - o equivalente a 86% da população adulta brasileira. Um sistema dessa escala concentra, inevitavelmente, o interesse de quem opera a fraude.
O problema dos critérios desiguais
O diagnóstico do BC é direto. Hoje, a definição do que constitui uma transação suspeita fica a cargo da política de cada instituição - o que produz comportamentos heterogêneos e permite que operações que mereceriam tratamento diferenciado passem sem avaliação mais cuidadosa. O exemplo citado pelo próprio regulador é o de transferências de valor elevado em horário não comercial.
Na prática, isso significa que a mesma transação pode ser barrada em um banco e autorizada em outro. Quem opera fraude conhece essa assimetria e escolhe o caminho de menor resistência — testando instituições até encontrar aquela cuja política interna é mais permissiva.
Por isso, a agenda prevê a criação de critérios objetivos mínimos para classificação de transações suspeitas. Um piso comum, abaixo do qual nenhuma instituição pode ficar, sem impedir que cada uma aplique regras mais rígidas.
O que muda com um score central
Um modelo treinado no volume total do sistema enxerga o que um banco isolado não consegue ver. Se uma conta recebe transferências de dezenas de instituições diferentes em sequência curta, cada banco emissor observa apenas a própria operação - isolada, ela pode parecer perfeitamente normal. O padrão só aparece no agregado.
É esse tipo de sinal que um indicador centralizado captura. A conta que hoje é apenas mais um destinatário para cada banco passa a ter um comportamento observável no conjunto do sistema.
O score não decide sozinho. Chega ao banco como mais uma variável, somando-se aos critérios internos que a instituição já aplica. A decisão de bloquear, pedir confirmação adicional ou liberar continua sendo de quem opera a conta. O regulador fornece informação; a instituição fornece o julgamento.
A padronização do meio de pagamento em determinados setores também tende a favorecer o modelo. Em plataformas digitais reguladas, o Pix se tornou o canal principal - e, em alguns casos, praticamente exclusivo. É o que ocorre nas casas de apostas licenciadas, onde depósitos e saques em produtos como roleta ao vivo, cassino online e apostas esportivas precisam necessariamente partir de conta bancária do mesmo titular cadastrado. Transações com origem e destino vinculados ao mesmo CPF produzem um padrão previsível, que destoa claramente do comportamento típico de fraude - em que o dinheiro passa por contas de terceiros.
Esse desenho tem uma razão prática. Um modelo estatístico produz falsos positivos, e um sistema que bloqueia automaticamente com base em score paralisaria transações legítimas em volume inaceitável. A escolha por informar em vez de decidir preservar a fluidez que tornou o Pix o que ele é.
As outras frentes da agenda de segurança
Além do indicador, a agenda prevê a padronização obrigatória dos alertas de fraude - hoje adotados por algumas instituições em formatos próprios - e a criação de um fluxo direto e automatizado de troca de informações entre bancos para bloqueios cautelares.
Segundo o BC, esse canal permitirá comunicação mais fluida e tempestiva entre as instituições, aumentando a assertividade na detecção. O ponto é temporal: na dinâmica atual, o dinheiro roubado costuma sair da conta de destino antes que a informação circule entre os bancos envolvidos. Fraude com Pix é uma corrida contra o relógio, e hoje o relógio joga contra a vítima.
Está prevista ainda a ampliação do rol de medidas cautelares aplicáveis a instituições que coloquem o funcionamento do sistema em risco, incluindo a restrição de cadastro de novas chaves Pix. É uma sinalização de que o regulador passa a olhar também para o elo institucional da cadeia, e não apenas para a transação individual.
A agenda de segurança convive com outras frentes de desenvolvimento do sistema, entre elas a interligação com sistemas de pagamentos de outros países, o pagamento por aproximação em modo offline e o uso de fluxos futuros como garantia de crédito.
Os bancos já jogam esse jogo
A iniciativa do regulador encontra um setor que vem investindo pesado na mesma direção. O primeiro Evident AI Index for Banks in Latin America, elaborado pela plataforma Evident, avaliou 20 instituições da região a partir de critérios como talento especializado, inovação, desenvolvimento tecnológico, liderança e adoção responsável da tecnologia. Quatro bancos brasileiros ocupam as quatro primeiras posições: Nubank, Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil. Das 20 avaliadas, sete são do Brasil.
O Nubank lidera por concentração de especialistas - mais de 5% da força de trabalho atua em funções ligadas à tecnologia, cerca de três vezes a média das demais instituições da região. Seu modelo proprietário, o Nuformer, é aplicado a modelagem de risco e concessão de crédito, e teria reduzido em 70% o risco de crédito em comparação com as soluções anteriores usadas pela empresa. "Há anos tratamos a IA como uma infraestrutura estratégica", afirmou o diretor de tecnologia da fintech, Eric Young, ao estudo.
O Itaú tem o maior número absoluto de profissionais de IA entre os bancos avaliados, além de investimento em governança e em mecanismos de controle voltados ao uso responsável da tecnologia. O banco lançou o Modo Protegido, recurso que usa inteligência artificial para identificar redes de segurança do cliente e reduzir risco em operações. Também aplica a tecnologia em atendimento, com modelos de linguagem no lugar das antigas árvores de decisão, e em transações — incluindo Pix por comando de voz e texto no WhatsApp.
O Bradesco vem ampliando capacidade interna com a plataforma Bridge e os assistentes BIA. Segundo o levantamento, iniciativas de análise de crédito apoiadas por IA já geraram mais de R$ 1 bilhão em receita adicional para a instituição. O Mercado Pago, por sua vez, aplica a tecnologia em crédito e antifraude no mercado brasileiro.
O ponto é que a infraestrutura existe e está madura. O que o BC propõe não é substituir esses sistemas, mas dar a todos uma informação que nenhum deles conseguiria produzir sozinho - porque nenhuma instituição, por maior que seja, enxerga o sistema inteiro.
Um calendário que já mudou
Parte das medidas antifraude teve o cronograma revisto. Uma atualização prevista para 10 de agosto foi transferida para 26 de outubro, ampliando o prazo de adaptação das instituições financeiras.
Segue mantida para 1º de setembro a ampliação de 30 para 80 dias no prazo de contestação de devoluções suspeitas de fraude, conforme a versão 8.5 do Manual Operacional do Diretório de Identificadores de Contas Transacionais e a Instrução Normativa BCB nº 766.
O novo prazo vale para quem recebeu um Pix e considera indevida a devolução acionada pelo Mecanismo Especial de Devolução. Para quem solicita o mecanismo, o prazo de 80 dias já estava em vigor.
O uso indevido do campo de mensagens
Há ainda uma frente que escapa da lógica antifraude tradicional. O Banco Central identificou uso abusivo do campo de mensagens das transferências, empregado para ofensas, ameaças e intimidações - frequentemente associadas a transações de valor irrisório.
O campo foi concebido para registrar informações sobre o pagamento. Diante do desvio de finalidade, o regulador criou um grupo de trabalho no Fórum Pix e informou que avaliará medidas regulamentares, se julgar necessário, para coibir a prática.
O que o usuário deve esperar
No dia a dia, a mudança tende a ser discreta - e é assim que deve ser. Um sistema antifraude eficiente é aquele que não aparece.
O efeito perceptível provavelmente virá em duas formas: mais pedidos de confirmação em operações atípicas e alertas padronizados, com aparência semelhante entre instituições diferentes. A padronização tem valor próprio: golpes que imitam comunicação bancária funcionam melhor justamente porque cada banco avisa de um jeito, e o usuário não tem referência do que é legítimo. Quando todos avisam igual, o que destoa fica visível.
Vale lembrar que nenhum modelo estatístico substitui o cuidado básico. A maior parte das fraudes com Pix não explora falha do sistema - explora a confiança do usuário. O golpe funciona porque alguém autoriza a transferência, e uma transação autorizada é, para o sistema, uma transação válida.
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