Quem leu Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel Garcia-Marquez, por certo nunca esquecerá a abertura do romance, imortalizada por duas das frases mais célebres da literatura latino-americana: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.”
De modo igual é bem difícil apagar da lembrança o personagem Melquíades, sua morte e o mistério de seus pergaminhos. Acho difícil ao leitor não recordar as páginas onde o ficcionista constrói a impactante metáfora da perda da identidade através da peste da insônia que atinge o povoado e faz com que as pessoas se esqueçam do nome e da função dos objetos. E o que dizer do assassinato de José Arcádio, daquele fio de sangue que sai de seu quarto, percorre as ruas do povoado, desvia-se de quinas e obstáculos até chegar à cozinha onde Úrsula Iguarán prepara doces? Como não se sentir hipnotizado diante da ascensão aos céus de Remédios, a Bela? Ou de que forma não ficar preso à chuva incessante de minúsculas flores amarelas que cobrem os telhados, as ruas, até o rio depois da morte do patriarca? Num breve apanhado, lembraria ainda o ciclo infinito de produzir e derreter peixinhos de ouro que mantém o coronel na sua oficina; o massacre das bananeiras; o trem dos mortos; a chuva de quatro anos, quatro meses e onze dias... São imagens que nos povoam para sempre depois de lermos este romance que inaugurou o realismo mágico na literatura latino-americana.
Pois tudo isso, que o milagre das palavras fundadoras de mundos nos oferece nas páginas impressas do romance citado, pode ser visto na minissérie homônima cuja segunda temporada a Netflix está exibindo neste agosto. O resultado da transposição redundou em trabalho primoroso, digno dos olhares mais exigentes e merecedor de aplausos porque tudo foi feito por uma equipe que conferiu atenção ao menor detalhe. Há incontáveis exemplos deste cuidado que nos proporciona grande prazer estético. Cito alguns. A câmera que desliza pela feira dos ciganos através da luz dourada e poeirenta, reproduzindo a fascinação e a inocência do povo. O silêncio e as sombras da oficina de alquimia contrastando a obsessão pela escrita eterna com a finitude humana. O sangue que corre por debaixo da porta e desenha trajetória irregular sugerindo cordão umbilical. A subida da moça bonita aos céus, sem efeitos espalhafatosos, apenas com o movimento da brisa nos lençóis. A queda das flores amarelas e a sugestão inarredável do luto da natureza diante da morte do patriarca. E o que dizer da chuva incessante, da umidade persistente, do mofo que corrói os móveis, do desmantelamento das casas? Tudo forma camadas sensoriais para figurar se não um dilúvio, ao menos um purgatório que prenuncia a decadência final da linhagem dos Buendía e o apagar das memórias de Macondo: “(...) porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra- últimas palavras do romance e da minissérie.
Adaptar uma obra-prima da literatura mundial é um exercício de coragem e no caso de “Cem Anos de Solidão” beirou a ousadia. Durante décadas, o próprio autor e vencedor do Nobel resistiu às propostas de Hollywood, sustentando que a estrutura do romance era inadequada para a brevidade de um filme e que a história só deveria ganhar vida na tela se fosse falada em espanhol e gravada na Colômbia. Foi atentando ao desejo dele que a Netflix conseguiu produzir a obra que tem encantado tanto leitores quanto não- leitores.
Pode-se enveredar longamente pela comparação entre a narrativa romanesca e a produção audiovisual. Pode-se apontar para os limites de tradução entre mídias diferentes. Mas não se pode negar os acertos de uma direção que respeitou a alma da América Latina. Os roteiristas e a equipe de produção compreenderam que o isolamento de Macondo não era meramente um recurso de enredo, mas uma alegoria sobre a história da América Latina - marcada pela exploração, pelas guerras civis sem fim e pelo esquecimento.
Como espectadora que leu o livro, gostei muito das duas temporadas, a primeira exibida em dezembro de 2024 e a segunda neste mês, com direito a um capítulo extra no próximo dia 26. O livro é vasto e denso, avançando por gerações sem a preocupação de seguir uma estrutura clássica em três atos. Na tela, as imagens carregam uma literalidade intrínseca que a direção de arte soube traduzir na textura da fotografia e na trilha sonora imersiva. Em vez de apelar para recursos extravagantes, optou por uma estética quase tátil, em que o ambiente traduz visualmente o isolamento e o encanto do universo em foco. Além desses recursos sensoriais, para condensar e traduzir monólogos interiores e saltos de décadas a câmera contou com a interpretação de grandes atores que conseguiram à perfeição mostrar o olhar distante do Coronel Aureliano, o cansaço acumulado de Úrsula Buendía, os gestos obsessivos de José Arcádio, a arrogância de Fernanda, a rigidez de Amaranta, a sensualidade de Pilar Ternera, a bizarrice de Rebeca e os perfis de tantos outros personagens mágicos.
Certos detalhes do romance inevitavelmente sofreram cortes ou sintetizações para caber no tempo de tela, mas a essência do tema central - a fatalidade da solidão humana e a incapacidade dos membros da família de se conectarem verdadeiramente através do amor - permaneceu intacta. Que sejam reconhecidos os méritos dos roteiristas Natália Santa e José Rivera; dos diretores Laura Mora Ortega e Alex Garcia López; dos atores: Susana Morales (Úrsula jovem), Marleyda Soto (Úrsula idosa), Marco Antonio Gonzalez (José Arcádio Buendía), Cláudio Cataño (Coronel Aureliano), Sofia Paz Jara (Amaranta), Moreno Borges (Melquíades), Diego Vásques (Aureliano Buendía) e tantos outros, pois sobe a dezenas o número de habitantes desse lugar surreal chamado Macondo.
Comparar o livro de Gabriel García Márquez com a série da Netflix não significa buscar qual obra é superior, mas sim reconhecer a potência de duas mídias distintas. O romance continua sendo uma obra inatingível em sua perfeição verbal, um monumento à capacidade da palavra de fundar mundos. A série, por outro lado, funciona como uma tradução afetuosa e visualmente deslumbrante que dá corpo, som e cor aos mitos de Macondo.
Enquanto a literatura convida o leitor a imaginar a solidão, a tela a transforma em espetáculo sinestésico inesquecível. Foi dessa forma que vi a série, aguardando agora o capítulo extra prometido para a próxima quarta-feira.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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