No jornal ‘Comércio da Franca’ mantivemos durante anos uma seção chamada ‘A Imagem do Dia’. Perdi a conta de quantas vezes acionei Dirceu Garcia e sua câmera para irmos fotografar as árvores que floriam só no inverno, em sequência de cores obedientes a um calendário pautado pela natureza. Elas rendiam lindas imagens e cabia a mim criar as legendas.
As primeiras a colorir algumas ruas e praças francanas eram as de cor roxa. Depois vinham as rosadas. Uma pequena pausa e irrompiam as amarelas. Por fim, as brancas, mais delicadas e efêmeras. Com o passar dos anos, e o incansável trabalho de Olga Toledo de Almeida, foram plantadas centenas de mudas que hoje oferecem aos transeuntes de várias regiões da cidade um espetáculo que dura pouco. Mas dele fica a lembrança recolhida na memória junto à certeza de que no próximo ano haverá mais. O leitor sensível e antenado com a natureza saberá que estou me referindo aos ipês.
Bem antes das jornadas profissionais, eles já me atraíam; desde menina me encantavam. O primeiro a chamar minha atenção ficava no caminho para a escola, e floria pouco antes das férias de meio de ano. Outros continuaram a fazê-lo na adolescência, na juventude, na maturidade, sempre que mudava a estação. Agora, nessa fase a que delicadamente chamam de ‘terceira idade’, noto que houve uma gradação de intensidade no sentimento que a eles dedico. Mais do que nunca estão me comovendo, especialmente os amarelos.
Pra começo de conversa, acho admirável o fato de que essa espécie tenha desenho tão bem definido em suas fases. Folhuda e bem verde na maior parte do tempo, quando a temperatura começa a cair, no meio do nosso outono, ela vai se desfolhando, retirando a roupa num strip-tease vegetal até se desnudar por completo. Parece até ter desistido de viver e seu tronco retorcido e seco sugere morte. Entretanto, depois da nudez completa, os galhos aos poucos se revestem de botões gordinhos, aveludados, cor de cobre. E de repente, sem pedir licença, acontece o desabrochar magnífico. São poucos os dias de glória. Cinco, talvez seis manhãs em que a copa segura a luz do sol. Olhar para um ipê neste momento, no auge de sua floração, é contemplar a beleza em sua plenitude, mas também carregar o peso inevitável de saber que aquilo já começou a acabar. Um ano inteiro para elaborar o espetáculo e então entregá-lo ao vento e destiná-lo ao solo onde forma tapete. Há um quê de inevitável melancolia nisso.
O mais pungente é pensar que as flores não caem porque seus pedúnculos adoeceram e as pétalas apodreceram. Elas caem intactas, no esplendor do seu brilho e da sua forma porque é da sua natureza concretizar a renúncia ao que é belo no seu momento mais pleno. Nos breves dias em que repousam na terra, elas ainda mantêm o amarelo reluzindo sob a luz do sol desse cálido inverno brasileiro, criando em nós a ilusão de que o ouro não está mais no alto, mas ao alcance dos nossos pés.
Contudo, depressa a terra cobra o seu tributo. O brilho se apaga. A cor desbota. O cetim resseca. Se chove, tudo vira lama e o que parecia manto real volta a ser matéria orgânica que a terra vai reabsorver. Se não chove, é o vento que transforma tudo em pó. Dignos de nota, no entanto, são os galhos que lembram braços apontados para o céu, talvez agradecendo, talvez lamentando a brevidade dos dias de luz. Logo a árvore voltará ao seu sono silencioso, ao gestual retorcido, ao tom cinzento - até sua próxima estação de esplendor.
É curioso que não tenha no meu jardim um ipê para florir nos invernos que me restam. Quando me mudei para a casa onde moro, há mais de uma década, até plantei muda que, por mais que pelejasse, não foi para frente. Tentei outra e deu-se o mesmo. Assim, nunca consegui formar um ipê para chamar de meu. Tenho até pensado que a sina dos meus olhos é recolher belezas naquilo que não me pertence. O que não impede meu coração de bater mais forte diante de ipês que florescem em terrenos alheios. Tenho certeza de que o Acaso, que adora me surpreender, coloca em meu caminho também obras de arte da natureza. Pois não é que fez vingar, a poucos metros de onde eu havia feito duas tentativas, um ipê amarelo no jardim do vizinho? E manejou para que um grande galho viesse dar o ar de sua graça sobre minha calçada, bem defronte do portão da garagem? Assim, dias atrás, foi maravilhoso sair e voltar podendo olhar para as flores que pela primeira vez irromperam em profusão. Como elas não têm proprietários, pertencem àqueles que lhes reconhecem a beleza, parei minhas atividades várias vezes só para admirá-las.
Mas eis que numa manhã, dando ré para sair de casa, levei um baque ao perceber que muitas caíam lentamente no chão devido ao movimento da brisa que soprava. Movida por impulso, fotografei o momento, esperançosa de que ao voltar a queda houvesse cessado e elas permanecessem ainda por algum tempo no alto, coroando de ouro a copa e minha alma. Estava equivocada. No retorno, ainda assisti ao vento do entardecer soprando como um maestro invisível que estivesse encerrando sua apresentação. Flor a flor, e depois quase como um chuvisco luminoso, o amarelo foi abandonando a altura dos galhos e se entregou por completo à insensibilidade do petit pavé.
Senti um nó no gurgumilho, deu vontade de chorar, ainda que soubesse ser a matéria prima da flor a efemeridade; ou talvez por isso mesmo. Ao ser tocada naquele momento pelo tapete amarelo, tive de reconhecer o que era o desconforto que se movia no meu peito: a consciência da transitoriedade, a minha frágil natureza humana. Também somos feitos de longos períodos de espera que preparam florações curtas. Acumulamos forças no silêncio e, vez ou outra, explodimos em atos de beleza ou bondade que duram muito menos do que gostaríamos. Mas (quem há de saber?) podemos deixar pelo caminho algum rastro daquilo que fomos, tapetes de pétalas que contem a discreta história das nossas brevíssimas estações de luz.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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