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Como funciona um exorcismo? Padre exorcista detalha o processo

Por Giovanna Attili | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Sampi/Franca
Giovanna Attili/GCN
Padre Kleber Tostes e o jornalista Corrêa Neves Jr., em gravação do podcast Arena GCN
Padre Kleber Tostes e o jornalista Corrêa Neves Jr., em gravação do podcast Arena GCN

O padre Kleber Tostes, da Arquidiocese de Ribeirão Preto, foi nomeado exorcista pelo arcebispo Dom Moacir Silva e passou a ser responsável pelo acompanhamento de fiéis que acreditam sofrer influência do diabo. Em entrevista ao jornalista Corrêa Neves Jr., no podcast Arena GCN, ele explicou como funciona o trabalho de um exorcista, detalhou os critérios adotados pela Igreja Católica antes da realização de um rito e desmistificou práticas popularizadas pelo cinema.

Assista acima à entrevista completa do padre Kleber Tostes ao Arena GCN, publicada no canal do YouTube do Portal GCN.

Como a Igreja decide quando um exorcismo é necessário

Logo no início da entrevista, padre Kleber explicou que sua missão não é simplesmente realizar exorcismos, mas acolher pessoas que procuram a Igreja acreditando sofrer algum tipo de influência espiritual.

Segundo ele, antes de qualquer decisão, a Igreja realiza um acompanhamento pastoral para conhecer a história do fiel, compreender o contexto em que ele vive e descartar causas naturais que possam explicar os sintomas apresentados.

“Da ordem espiritual, 90% dos casos que eu vou acompanhar são problemas humanos, causas naturais. E, da mesma forma, a gente vai procurar cuidar da mesma maneira. O que ela precisa de suporte para, inclusive, cuidar desse aspecto da vida dela. A gente vai ajudar também”.

O sacerdote explicou que esse acompanhamento também conta com o apoio de outros profissionais quando necessário.

“O padre exorcista não atua somente sozinho, mas ele busca também o auxílio, a ajuda de outros profissionais, inclusive profissionais da área da saúde, médico, psicólogo, psiquiatra, para justamente também dar o seu parecer dentro daqueles casos que parecem mais difíceis”.

Segundo padre Kleber, somente depois que todas as possibilidades naturais são descartadas é que a Igreja considera a possibilidade de uma ação espiritual, chamada por ele de ordem preternatural.

O exorcismo acontece de forma muito diferente do que mostram os filmes

Durante a conversa, o sacerdote também explicou como funciona o rito de exorcismo e afirmou que boa parte do que é mostrado em filmes não corresponde à prática adotada pela Igreja Católica.

Segundo ele, a celebração acontece em um ambiente reservado da igreja, normalmente uma capela ou oratório, sempre acompanhada por outras pessoas e nunca apenas entre o padre e o fiel.

“O rito é aplicado na pessoa consciente. Ela é chamada a participar porque a libertação dela nessa condição depende 99% dela mesma. ‘Eu quero. Então se eu quero, eu vou participar disso, eu vou estar consentindo dentro dessa minha participação‘. Por isso que, até se há alguma alteração ali, alguma coisa que foge do controle para que a celebração ocorra com tranquilidade, a gente para o rito, faz algumas orações justamente buscando acalmar e trazer a pessoa de volta para poder participar de todo o rito do exorcismo de maneira consciente.”

Padre Kleber explicou que o rito é realizado em português, com leituras bíblicas e orações próprias da Igreja. Ele também destacou que apenas sacerdotes autorizados podem exercer essa função. “Só o exorcista tem autoridade para fazer isso, porque ele não faz em nome dele. Mas ele faz em nome de Deus e da Igreja.”

O sacerdote acrescentou que, nas dioceses que não possuem um padre nomeado para essa função, a responsabilidade é exercida diretamente pelo bispo.

Como a Igreja reconhece um possível caso de possessão

Ao ser questionado sobre como diferencia uma doença de uma possível ação espiritual, padre Kleber afirmou que esse discernimento acontece apenas depois de um longo acompanhamento. Segundo ele, manifestações consideradas incomuns, por si só, não caracterizam uma possessão.

“Quando se trata de uma patologia médica, essas manifestações são muito desconexas. Não têm uma lógica. Quando você entra em uma ação extraordinária, você começa a perceber uma lógica, um andamento, uma continuidade”.

Mesmo assim, ele reforçou que a Igreja age com extrema prudência antes de concluir que um caso possui origem espiritual. Para o sacerdote, esse cuidado evita diagnósticos precipitados e garante que cada pessoa receba o atendimento adequado.

O que a Igreja ensina sobre a ação do mal

Outro tema abordado na entrevista foi a compreensão da Igreja Católica sobre a atuação do mal.

Padre Kleber explicou que, para a doutrina católica, os chamados espíritos malignos são anjos que se rebelaram contra Deus e que a ação deles tem como objetivo provocar sofrimento e desarmonia.

“O objetivo do diabo é muito simples: roubar, matar e destruir, como diz a Palavra. E a gente sabe que, para esses casos, a destruição, a desarmonia que é trazida não é somente na vida da pessoa, mas é na vida da família, de todas as pessoas que são envolvidas”.

Ao comentar o livre-arbítrio, o sacerdote afirmou que a tradição católica entende que a ação do mal só acontece dentro da permissão divina.

“O mal só pode agir sob a permissão de Deus. Primeiro dado: Deus não é o autor do mal. O mal, em si, é um desregramento daquilo que é bom. Então, dentro da visão cristã católica, nós fomos criados bons, para o bem”.

Padre Kleber também comentou o aumento da procura por temas ligados ao ocultismo e ao satanismo. “Você está lidando com realidades que você quer controlar e que você não tem controle. Esse é o grande perigo”.

Nomeação amplia responsabilidade dentro da Arquidiocese

Padre Kleber contou que já acompanhava pessoas com suspeita de influência espiritual muito antes de ser oficialmente nomeado exorcista da Arquidiocese de Ribeirão Preto.

Segundo ele, o convite surgiu diante da necessidade da arquidiocese de oferecer um atendimento específico para esse tipo de demanda, já que a procura por esse acompanhamento vinha aumentando.

O sacerdote explicou que a nomeação acrescentou uma nova responsabilidade ao seu ministério, mas não alterou sua rotina como pároco.

“Desde o início do meu ministério, eu sempre me senti chamado a acolher, apoiar e cuidar de pessoas que se aproximassem da Igreja com essa suspeita. Essa nomeação vem no momento da necessidade da nossa Igreja. Eu acolho e assumo com muito amor, com muito carinho, sabendo que, acima de tudo, é um chamado de Deus, é um pedido da Igreja”.

Para padre Kleber, independentemente de um caso resultar ou não na realização de um exorcismo, a missão permanece a mesma: acolher quem procura ajuda e oferecer acompanhamento espiritual com prudência, responsabilidade e respeito à doutrina da Igreja.

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