CRÔNICA

Trinta dias no mangueirão

Por Baltazar Gonçalves | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 5 min

Drummond colocou pedras no caminho da poesia parnasiana, romântica e sentimental. E eu, trocando o amor de Deus pelo brilho fácil delas, mergulhei em profunda depressão. Só depois de não haver mais saída, busquei na reabilitação o retorno ao mundo dos vivos.

Busquei-me de volta e meus sonhos em mim, reencontrei-me na poesia, tão moderna quanto funil de esmeril, e reatei-me à vida. Por trinta dias servi porcos no mangueirão. A redenção possível veio na forma de barro seco. Ali onde se cria porcos, cuidei da minha alma adoecida enquanto buscava a cura possível.

Foi no chiqueiro, como dizem na roça para sinalizar que a comida que vai para nossa mesa anda lado a lado com a sujeira que nós humanos fazemos, que ajudei nos partos e vi nascer crias fartas. Alimentei os bichos, dei-lhes banho para refrescar o couro duro. Alegres por nada, na lama. Cortei as unhas pontudas dos bebes que podem machucar os irmãozinhos inocentes, porcos recém-nascidos. Também aprendi aparar os dentes afiados para que não machucassem a mãe enquanto mamavam. Reaprendi que cuidar dos outros gera amor próprio, cuidado que vai além das aparências em ampla consciência.

No mangueirão, recebíamos donativos de mercados e feiras. O que não serve para vender, o descartado. Primeiro, eu separava frutas, verduras e legumes bons para o consumo humano já que todos na fazenda se beneficiariam da fartura descartada. Daquele amontoado que sobrava, eu alimentava os irmãos de quatro pata. Ainda aproveitava o que já estava em processo de putrefação, cozinhava o que era impróprio para a digestão dos bichos e servia-lhes ensopado como se fossem reis e rainhas e príncipes que no mangueirão aprendi nomear. Os porcos dependiam de mim. Às vezes, uma banana matava minha fome. Por tudo, os animais agradeciam. E eu voltei a sentir gratidão pelo amor de Deus. Gratidão é motor que gera alegria, aos poucos recobrei a minha.

Aprendi ouvir os porcos e falar-lhes em sua língua, no silencio que os anjos traduzem. No processo, aprendi matar a fome dos homens. Não aquela que satisfazemos no prato, mas a fome da alma adoecida e do espírito atormentado. Ali, distante da fábrica que produz normalidades, eu não estava sozinho. Cuidar dos porcos sabendo seu destino de serem mortos para servi nossa mesa, foi o mesmo que cuidar de mim pois também esse é nosso fim.

Compreendi a lição do silêncio no mangueirão. Na hora da lama seca, ao meio dia, nada se ouve. Apenas o mormaço evaporando sobre as asas das moscas, das abelhas, e das borboletas. Ao meio dia os porcos estão satisfeitos. Lição preciosa saber-se satisfeito, em silêncio contemplar a agonia do tédio e fazer dele descanso.

Pela manhã bem cedo o mangueirão é árido, úmido e fétido. Minha vida torta também barroca é seca. Justamente nesse lugar percebi quão lindo pode ser o árido, úmido e fétido. A verdade crua e menos artificial é mais tangível. No ar que se respira no mangueirão paira uma mistura adocicada de gênesis. A lama concentra fome, sede, vida e morte. Somos barro. Somos pisados e pisamos barro. Pisa-se com botas no barro para evitar doenças, mas esses males que nos consomem a serenidade já estão dentro. O contato com o barro abre um portal para a escritura de quem nele pisa com adoração.

Durante trinta dias convivi com esses animais estigmatizados desde o nascimento. Os porcos recebem por nome o adjetivo que indica sujeira, imundície, rejeição. Cada um de nós sabe dos seus próprios estigmas, marcas e cicatrizes. Toda gente as tem. Minha identificação com os estigmatizados é princípio libertador, a dependência química não me destruiu. Aprendi o nome dessa doença que inferniza milhões de pessoas, independente de crença, raça, classe social, grau de instrução, poder aquisitivo: adicção. Uma doença instalada na injunção das forças que formam a base do caráter, segundo a bioenergética que é a corrente psicanalítica que hoje uso para ajudar outras pessoas a saírem do seu próprio inferno. 

Esses trinta dias no mangueirão salvaram minha vida, ou foi o início da minha jornada espiritual de renascimento-ressurreição. A vida tem sua magia difícil de explica, depois de passar pelo inferno das drogas e do álcool, desci mais fundo: desci à lama do mangueirão para erguer minha cabeça ao caminho da transcendência possível. Paradoxalmente, transcender é um movimento para baixo.

No silêncio do mangueirão, depois de cada etapa do serviço cumprido, eu escrevia. Guardo alguns poemas desse tempo, alguns publiquei no meu primeiro livro “Tecido na papelaria”. O poema BORBOLETA NO MANGUEIRÃO diz assim: Abra o fole de tuas asas negro-vermelhas dulcíssima borboleta; nelas cada veio seco suspende meus ares. Seriam patas esses longos cílios ou aéreos pêndulos apenas finos? Voa sobre o jardim cercado, esse amplo mangueirão - átrio de barro que se abre largo para porcos e homens em dura redenção. Teu pouso inesperado fere casulos e torna irmão toda criatura. Arma teu fole vivo de cor ressurreta, não respiro indeciso; nesta antessala espero do ruflar de tuas asas o compasso que nos leve.

O mangueirão não é apenas metáfora, é a realidade de tantos que não se sabe a conta. Acumulei experiência, pesquisei e estudei. Fiz pós graduação em TCC (Terapia Comportamental Cognitiva) e trabalho ajudando quem está pronto para pedir ajuda no processo de reabilitação. Quem se encontra dilapidado pela dor vivendo na condição de bicho, quem chafurda nos mangueirões bares-biqueiras onde a paz dos sóbrios não chega.

Quem são os porcos próximos de você?  É mais fácil identificar olhando na rua, mas sabemos que alguém perto de você, ou mesmo na sua família, pede ajuda com os olhos postos no silêncio.

De tudo que vivi, aprendi o que faço questão de compartilhar. Por experiência diária, sei que ajudo pessoas nessa travessia custosa. Perceber como dádiva o desespero de ter um espinho na carne pode ser o portal para o retorno. Viver limpo é possível, com alegria e gratidão. Se esse depoimento, escrito com alma de poeta, fizer sentido para você: compartilhe!

Baltazar Gonçalves é formado em História pela Unesp, pós graduado em Terapia Comportamental Cognitiva pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo (FAMEESP), é educador na rede pública estadual, mediador de leituras, agente cultural e membro da Academia Francana de Letras

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