É delicada a capa do recém-lançado livro de Regina Helena Bastianini, ‘A palavra de cada dia’, que recebi há duas semanas e reli recentemente para construir o presente comentário. Mais de uma vez demorei meu olhar sobre o título em fontes elegantes pela simplicidade, cores em pastel apenas no arco-íris de ‘A palavra.’ Este substantivo o leitor encontrará em vários dos 58 poemas que compõem o livro; o vocábulo percorre a obra e sela a contracapa em sugestiva escolha da Autora: “No escuro/ Pirilampam palavras/ E a Poesia se diz/ Em silêncio”. Palavra e Silêncio conduzem uma das possíveis leituras dessa obra onde pulsa a qualidade que distingue a poeta maior: um poder especial de linguagem, uma percepção singular sobre as conexões entre nomes, sons e significados, a aguda intuição de que as palavras se movem no tempo e depois de ditas voltam ao silêncio.
O conjunto de poemas dialoga com linguistas como Roman Jakobson e Roland Barthes; poetas como T.S.Eliot e Fernando Pessoa; filósofos como Parmênides e Heráclito. Não é de surpreender. A Autora, renomada professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, verbete em importante dicionário que destaca escritoras do nosso País, presença de impacto na vida intelectual francana, angariou ao longo de sua vida dedicada ao conhecimento, ao magistério e à escrita, um amplo repertório do qual costuma às vezes dar notícias a privilegiados interlocutores com a humildade e a serenidade que a distinguem e encantam alunos, colegas, amigos ou acadêmicos da AFL, instituição da qual faz parte.
De Jakobson e Barthes, especialistas em linguística, vem a metalinguagem, recurso compreendido como código para explicar o próprio código. Já no início, em ‘Substância’, a encontramos atualizada no nível poético, descortinando pungente manifestação de fé literária: ‘Estou viva./ Isso é uma pedrada na cabeça.// E agora?// Se a criação se deu pela palavra,/ Eu-criatura- /Atrevo-me a usar o mesmo instrumento/ Para justificar-me./Digo passos/ Que me dão vida.’ Uso semelhante é percebido em ‘Busca’, ‘Essência’, ‘Bens’, ‘O Indizível’, ‘Silêncio’, ‘Janelas’, ‘O barco dos sonhos’- poemas onde ‘palavra’ é centro nevrálgico. Mas a metalinguagem também permeia outros poemas onde ‘silêncio’, talvez o anverso de ‘palavra’, sugere o desafio representado pela busca da tradução perfeita do mundo subjetivo: ‘Meditação’, ‘Sedução’, ‘Templo’, ‘Solidão’, ‘Paisagem Noturna’, ‘O pão de cada dia’ e o próprio ‘Silêncio’: ‘A beleza floresce cores/ Sopra aromas/ Espalha pétalas/ Sussurra tépidos silêncios/ Grita impensáveis/ Espasma corpos e almas/ Rasga infinitos// Só as palavras/ Guardam tormentoso silêncio/ Sorrindo, plácidas,/ Ante minha impotência’.
Dos poetas Pessoa e Eliot, um português, outro inglês, chegam acenos de longe, desde as páginas de ‘Estética, teoria e crítica literária’, assinadas pelo primeiro, até os textos de ‘A música da poesia’, autoria do segundo. São ensaios onde os escritores tecem considerações semelhantes a respeito do grande impasse representado pela necessidade de ‘emocionalizar o pensamento’ como caminho para transformar a dor em arte. Com profunda consciência disso, Regina Helena Bastianini percute em ‘Ponto Final’, penúltimo poema do livro: ‘Sinto e penso./ Penso e sinto./ E me perco/ entre o que sinto e o que penso./ Caminho sonhos e pensamentos/ Buscando onde pisar./ Penso e sinto/ E ando descalça/ Por veredas de mistérios.’
É sabido que grande parte das pessoas tende a crer que basta inspiração para mover o poeta e levá-lo a escrever versos. Isso é mito que a sabedoria popular vem desconstruindo quando registra, por exemplo, a respeito de uma obra de arte, que ela deriva de ‘10% de inspiração e 90% de transpiração’. Pessoa e Eliot, que esmiuçaram o tema nas suas páginas de crítica, buscaram estabelecer como é custosa a fusão entre a ‘emoção pensada’ e a ‘reflexão sentida’, concluindo ambos que mais do que a intensidade dos sentimentos é a complexidade do processo criativo que ergue um poema. De se destacar então, a propósito disso, o que registra a Autora em ‘O Indizível’: ‘Há momentos em que quase alcanço as palavras/ Elas pairam em mim com encanto claro e assustador/ Basta um gesto para tentar retê-las/ materializá-las/ E o encanto se faz interrogação/ Não consigo prender-me no papel./ Só nas entrelinhas é possível espreitar-me.’
De Heráclito e Parmênides herda-se a demanda de pensar o tempo e de se pensar como tempo. Há vestígios do primeiro nos versos de ‘Eu’: ‘Tudo flui em mim como água,/ Deixando um rastro de perfume e de saudade/ Do que não posso reter’. E, milagre da elaboração poética em forma de antítese, nos três versos seguintes retoma-se uma certeza de Parmênides sobre o Ser: ‘... que está sempre aqui/ Impalpável/ Absoluto’. O fluir das horas, dos dias, das estações; as mudanças incontornáveis; também lembranças do atomismo de outros filósofos impregnam poemas e fecham a obra com ‘O pão de cada dia’, jogo estético/ lúdico com o titulo do livro, aproximando as dicotomias formadas pelas duplas palavra/silêncio e vida/morte: ‘ O que em mim é silêncio/Diz o que nos dói/Assim tão doído/ Não sei onde/ Não sei quando/ Talvez em outras esferas/ Em outras eras/ E ali na esquina todo dia/ E veste de desassossego/ O que comungo com alegria:/A vida e a morte de cada dia’. O tempo, como as palavras e os silêncios, desvela o repertório de emoções, sentimentos, reflexões, leituras, aprendizagens, vivências, itinerários, sonhos, buscas e desejos da poeta que procura traduzir a complexidade de suas ideias e sentimentos mergulhando ‘no oceano do som de onde emerge a vida da polifonia/ no viscoso lodo das palavras, do granizo e da nevasca das imprecisões verbais/ de onde afloram a sequência harmônica das frases e a beleza das palavras mágicas/ da palavra corrente, correta e digna, da palavra essencial e exata’, como registrou Eliot no ensaio acima referido, no qual afirma também não haver em poesia ‘palavras mais ou menos belas, sendo feias apenas as que não se adequam à companhia em que porventura estiverem no contexto da estrutura poemática.’
Em todos os poemas do livro cujo título encima este texto, cada palavra tem a ver com aquela que a precede e com a seguinte, num todo de harmonia sonora, coerência conceitual, clareza de forma, criatividade no uso da matéria prima da escrita. A escritora revigora verbos conferindo-lhes novas atribuições, transitividades e semântica (‘dizer passos’, ‘gotejar horas’, ‘perfumar suspiros’); cria encantadores neologismos (‘beijaflorou’, ‘vivissonhando’, ‘filoflorando’), fotografa cenas da natureza com sensualidade ( ‘A noite abraça a luz/ E, mais uma vez o dia se entrega’); recorre a jogos frasais para expressar oposições (‘minha rica infância miserável/ minha miserável velhice abastada’); investe maciçamente em figuras de pensamento, sintaxe e som que revigora pela condição de as plasmar segundo uma conotação peculiar. E por aí conduz o leitor a um mundo onde metáforas, comparações, metonímias, sinestesias, antíteses, paradoxos, hipérbatos, anáforas, aliterações e assonâncias traduzem sensações e sentidos captados por um coração e uma mente abençoados com o dom de ver ’Além do que se percebe/ Entre o átomo e o infinito/ Além do que somos e estamos/ Além do dito e do não dito’, últimos versos de ‘Angústia’.
Inimiga dos excessos, a escritora Regina Helena Bastianini filia-se à família dos poetas que comunicam muito dizendo pouco porque sabem que a palavra certa e bem posicionada destrava memórias, engendra epifanias, lembra fósforo que se acende em quarto escuro e cria o clarão da lucidez. Elaborados com léxico personalíssimo, de impacto concentrado, os versos quase sempre breves de ‘A palavra de cada dia’ formam poemas curtos de potência atômica, cuja fissão acontece na mente do leitor.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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