Você reconhece que as suas cicatrizes fazem de você uma pessoa melhor do que aquela que você seria se não as tivesse?
As cicatrizes de alguém que foi ferido no campo de batalha, mais do que os horrores da guerra, contam por meio de palavras inarticuladas, uma história de superação! Demonstram os efeitos curadores do tempo e revelam a força das almas, que escolheram aprender com as experiências do caminho.
A cicatriz de uma cesariana, mais do que marca indesejada no padrão estético da mulher, traduz a renúncia de alguém que abriu dentro de si espaço suficiente, para que outro ser pudesse se desenvolver e habitar para sempre seu mundo.
As cicatrizes de uma intervenção de risco, mais do que a gravidade da doença, deixam à mostra a vitória da vida sobre a enfermidade.
As cicatrizes nas mãos calejadas do camponês, mais do que o lamento triste pelo peso do trabalho, evidenciam o envolvimento daquele que acredita no brotar da semente e que se responsabilizando, se antecipa no preparo da terra que servirá de berço para o pequeno embrião de esperança.
Assim, fitemos nossas cicatrizes, não como quem revisita memórias de dor que se eternizam, mas como quem entendeu que não passar indiferente pela existência é deixar-se afetar por ela, aceitando os convites do crescer. Atravessar os desertos do nosso interior, vencer os casulos que nos aprisionam, desapegar das capas protetivas do medo, construindo abrigos mais adequados a nossa consciência! Transformar incômodos em pérolas de compreensão, cultivar flores, ainda que os espinhos machuquem nossas mãos e ao nos depararmos com as cicatrizes, que possamos reconhecê-las como instrumentos que lapidam nosso olhar e nos ensinam a enxergar o que de profundo e infinito a vida possui.
José Antônio Pereira é psicólogo e membro da Academia Francana de Letras; Marília Gabriella R. Peres é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo
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