O NAJ (Núcleo de Assistência Judiciária) é uma iniciativa da FDF (Faculdade de Direito de Franca) que oferece assistência jurídica gratuita à população de baixa renda. Formado majoritariamente por estagiários do curso de Direito, com mentoria de advogadas especializadas, o projeto é responsável por grande impacto no processo de formação dos estudantes. Em entrevista ao jornalista Corrêa Neves Jr., no podcast Arena GCN, a vice-diretora da FDF, Lislene Aylon, explicou como funciona o programa, seus desdobramentos no ensino, além de detalhar sobre outros temas como os desafios do ensino jurídico, as modernizações implementadas na instituição, os preparativos para a comemoração dos 70 anos da faculdade e momentos de sua trajetória profissional.
Assista à entrevista completa da vice-diretora da FDF Lislene Aylon ao podcast Arena GCN.
Justiça gratuita para quem precisa
O principal tema da entrevista foi o trabalho desenvolvido pelo NAJ, responsável por oferecer assistência jurídica gratuita à população de baixa renda de Franca e região. Segundo Lislene, o atendimento segue os mesmos critérios adotados pela Defensoria Pública do Estado e contempla pessoas que não têm condições de arcar com honorários advocatícios nem com as despesas do processo.
O núcleo atua em ações da área cível, como direito de família, relações de consumo, contratos, despejos e conflitos envolvendo imóveis. As áreas trabalhista e criminal não são atendidas pelo serviço, por questões legais e estruturais.
Atualmente, o NAJ acompanha 1.242 ações e recebe, em média, 1.500 novos processos por ano. A triagem é realizada de segunda a quinta-feira, das 13h às 16h, na sede da FDF, na rua Major Nicácio, sem necessidade de distribuição de senhas.
“A finalidade é atendimento de população carente. E população carente não é definida por critérios próprios da faculdade. São critérios legais, utilizados inclusive pela Defensoria Pública do Estado. São pessoas cuja renda familiar seja inferior a três salários mínimos.”
Antes de assumir a vice-direção da FDF, Lislene coordenou o NAJ por cinco anos. Durante a entrevista, ela explicou que o trabalho desenvolvido pelo núcleo vai além da atuação jurídica e envolve o acolhimento de pessoas que chegam à instituição em situação de vulnerabilidade.
Aprendizado que ultrapassa a sala de aula
Além de prestar assistência gratuita à população, o NAJ também funciona como campo de estágio para estudantes da FDF. Os alunos passam por processo seletivo e atuam sob supervisão de três advogadas responsáveis pelo acompanhamento dos casos.
Segundo Lislene, o contato diário com pessoas em situação de vulnerabilidade transforma a forma como os futuros profissionais enxergam o Direito.
“Eles falam: ‘Doutora, nenhuma aula me ensinou o que eu aprendi aqui em seis meses’. A gente não sabe, né? Essa meninada tem uma noção um pouco romantizada da realidade. Quando chega lá e vê essas situações, eles mudam completamente.”
A vice-diretora lembrou de um episódio que considera simbólico dessa transformação. Sensibilizados com a situação de uma mulher atendida pelo núcleo, dois estagiários decidiram ajudá-la por conta própria.
“Eles compraram uma cesta de Natal, levaram e fizeram o Natal daquela família. Eles falaram: ‘Doutora, a gente quer fazer. Não estamos pedindo nada da faculdade, só estou comunicando a senhora’. E eles voltaram e contaram. Mas fez tão bem, foi um bem tão grande para eles, acho que até mais do que para a própria família que recebeu. Todos ganharam.”
Da advocacia à vice-direção
Durante a entrevista, Lislene também relembrou sua trajetória profissional. Formada em Direito pela Unesp, ela contou que trabalhou durante 18 anos na área de seguros antes de dedicar-se à carreira acadêmica. Ao longo desse período, lecionou na Unifran e também em instituições de ensino no litoral paulista.
Em 2015, ingressou na Faculdade de Direito de Franca. No ano seguinte assumiu a coordenação do NAJ, função que exerceu por cinco anos, até ser eleita vice-diretora da instituição em 2021.
Faculdade prepara comemorações dos 70 anos
A entrevista também abordou os preparativos para as comemorações dos 70 anos da Faculdade de Direito de Franca, que serão celebrados em 2027. Entre os projetos em andamento estão a criação de um memorial permanente da instituição, a publicação de um livro sobre sua história e o fortalecimento do projeto Alumni, que busca aproximar ex-alunos e preservar a memória da faculdade.
Segundo Lislene, a instituição também pretende reunir fotografias, notícias, documentos e outros registros históricos para reconstruir parte de sua trajetória.
“Nós queremos reconstituir a história da faculdade. A gente entende a importância dela para a cidade, para o mundo jurídico brasileiro. É uma pena, porque hoje em dia todo mundo quer tudo novo e joga o velho fora. O velho tem o seu valor, o antigo tem o seu valor”.
Ela convidou ex-alunos e a comunidade a contribuírem com fotografias, recortes de jornais e outros materiais que possam integrar esse acervo histórico.
O desafio de ensinar uma nova geração
Ao falar sobre o futuro da FDF, Lislene afirmou que preservar a tradição da instituição passa também por repensar a forma de ensinar. Segundo ela, os estudantes de hoje exigem metodologias diferentes das utilizadas por gerações anteriores.
Ela citou estudos que apontam que muitos alunos conseguem manter a atenção por apenas alguns minutos durante uma aula expositiva antes de desviarem o foco para outras atividades.
“O grande desafio hoje é conseguir captar a atenção desse aluno. Você imagina um professor dando aula do mesmo jeito que dava há 30 anos. Segundo os estudos, sete minutos na primeira aula. Depois ele vai achar a outra coisa mais interessante.”
A vice-diretora contou que, durante a pandemia, a FDF foi uma das instituições que mais rapidamente estruturaram o ensino remoto, mas percebeu que apenas transferir as aulas para o ambiente on-line não era suficiente.
“Nós percebemos que tínhamos que mudar o nosso jeito de dar aula. Não só do presencial para o on-line, mas o tipo de aula que a gente dava.”
Segundo ela, desde 2021 a faculdade investe na capacitação contínua dos docentes. A instituição contratou uma consultoria especializada em ensino superior com o professor José Garcez Ghirardi, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), para trabalhar metodologias ativas de aprendizagem e, atualmente, também promove formações com o professor Caio Gracco Pinheiro, da USP de Ribeirão Preto, incluindo debates sobre o uso da inteligência artificial na educação.
“É um caminho sem volta. Mas a gente precisa aprender como usar inteligentemente a inteligência artificial na docência. Nós também estamos aprendendo.”
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