RESENHA

'Ronan e outros heróis'

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 6 min

Para compor seu último livro de ficção, ‘Ronan e outros heróis’, precedido por outros 34 títulos no gênero, Luiz Cruz de Oliveira elegeu, no rol de centenas de crônicas que publicou entre 2006 e 2015, aquelas que o leitor reencontrará agora agrupadas na intersecção de dois chapéus estilísticos: o do humor e o do lirismo.

Sob a chancela do primeiro, reuniu relatos com toques picarescos, protagonizados por Ronan, sua família e amigos- dentre esses, o próprio autor-narrador. Sob a égide do segundo, aproximou poeticamente cidadãos nascidos ou criados em Franca, alguns mineiros de origem, conhecidos na comunidade por suas atribuições e qualidades. 

Nas duas situações, que não se mostram em categorias estanques e sim entrelaçadas, o Autor construiu seus personagens à moda dos ‘personagentes’, neologismo criado por Guimarães Rosa para definir humanos que, retirados da vida real, se transformam em seres ficcionais. Assim, as criaturas que povoam as 145 páginas do livro e as 49 narrativas curtas, emergiram das ruas, praças e outros logradouros de Franca para se perpetuarem, pela via da palavra literária, na mente e no coração dos leitores. 

O francano que ler este livro reconhecerá facilmente em cada história os contornos de uma cartografia de afetos onde pulsam barbearias e clientes, bares e fregueses, campos de várzea e jogadores, o terminal rodoviário e a balbúrdia das vozes. Também singularmente a padaria do Regis, o salão do Ismar, o bar do Vartim, o bar do Pardal, a barbearia do Arlindo, a farmácia do Expedito, a banca de jornal da Av. Elisa Verzola e a outra, de diferente gênero, do Canchinha. E mais: os jogadores do Internacional, a molecada da Santos Dumont e de toda a Vila Nova. Ainda a agência central do Banco do Brasil, o Restaurante Gasparini, a Casa Barbosa, as imediações do Velório São Vicente, o cemitério Santo Agostinho e até, conforme a faixa etária e a memória, um antigo bordel da rua do Comércio. Inesquecível pelo movimento circular é a trajetória de um bêbado que transita por vias centenárias como a Júlio Cardoso, a Marechal Deodoro, a Praça João Mendes, a Avenida Brasil. Por fim, mas não por último, sobranceira, pairando com a força de quem é irmã do ponto zero da cidade, a Praça Barão assim descrita:

“Existe uma cidade dentro da cidade de Franca. E ela se chama Praça Barão. Os passantes a cruzam, até fotografam suas sibipirunas, o palacete da Baronesa da Franca, o Restaurante Pajé, o Francafé, o Senhor Café, as lojas de calçados, e se vão, sem atentarem para o fato de que a praça constitui comunidade autônoma, encravada na cidade. Os visitantes não podem ser acusados de omissos ou incultos, uma vez que a maioria dos francanos também desconhece o que parece tão óbvio aos frequentadores do local. E, em verdade, nós, que ali passamos parte da vida, sabemos que a Praça Barão é uma cidade independente, regida por leis democráticas, compiladas e ordenadas no Direito Consuetudinário, ao qual os frequentadores dócil e obedientemente se submetem.”

Essa abordagem do espaço público ultrapassa a simples descrição ao esbarrar no conceito de estranho/ familiar, desenvolvido por alguns psicólogos e retomado em outro texto, ‘Astros e Giros’, no qual ele, escritor, não apenas brinca com as palavras do título, relacionando-as ao nome do protagonista Astrogildo, como, especialmente, e surpreso diante de uma coincidência de homônimos e circunstâncias, reflete: “O tempo passa e continuo aprendendo, descobrindo: as coisas existem desde sempre. Nós apenas as descobrimos, apenas as desvelamos’. Nos dois casos, ele se aproxima também, em termos de criação literária, de uma gênese que se cumpre não pelo olhar que coloca roupas novas no que é conhecido, mas pela percepção, no contexto do corriqueiro, banal e ordinário, de algo que até então passava despercebido. Luiz Cruz de Oliveira presenteia o leitor com esse olhar único, tocado por epifanias, sobre a cidade e muitos de seus moradores.

Quanto ao picaresco, encontra terreno fértil nos relatos onde o corretor de imóveis Renan e sua ‘entourage’ ganham corpo em situações que fazem lembrar o gênero que imortalizou o criador de ‘Dom Quixote’. Não será gratuito o parágrafo onde o narrador comenta: ‘Agora, em casa, seleciono as informações, registro algumas, guardo no baú. Quem sabe um dia junto tudo e imito Cervantes. Concedo título nobiliárquico ao Tonho e ao Renan, e nomeio os demais familiares seus escudeiros. Que bela novela terá o mundo.’ O uso desse recurso confere leveza e fluidez aos textos, tornando a leitura prazerosa. Ronan, presença recorrente, é o sujeito que lança mão de pequenos expedientes para sobreviver aos desafios do dia-a-dia. Molda-se à realidade, burla algumas situações, às vezes se mostra astuto, em outras é cético, pragmático e camaleônico, o que o torna empático ao olhar do leitor.

Já o lirismo eleva alguns relatos a patamares às vezes filosóficos, como se pode perceber em ‘Invenções’, onde a passagem do tempo é avaliada com profundidade, em imagens de impactante plasticidade: ‘Volto-me para meus espelhos, considero que, se quebrasse todos eles, não impediria a caminhada inexorável do tempo que me coloca em cada ruga_ lousa da escola- vida_ um mundo de lições que não soube e ainda não sei assimilar em plenitude.’ De se destacar também é ‘O servente de joão-de-barro’, crônica estruturada sobre experiência vivida há muito tempo e que perfuma a prosa poética com pungente delicadeza, realçada no final por uma frase que se faz antológica: “Minha alma de escritor frustrado sabe que a verdade é maior e diferente, muitas vezes, da realidade.’ 

No prefácio, o escritor revela que em suas páginas ele se volta ‘mais uma vez para a população de anônimos- a massa de sapateiros, comerciantes, profissionais liberais, funcionários públicos, corretores, ambulantes, desocupados...’ E completa: ‘Nessas crônicas, elaboradas ao longo de dez décadas e publicadas no Caderno Nossas Letras do Jornal Comércio da Franca, debruço-me sobre lembranças e homenageio anônimos que participaram da construção da Franca em que vivemos’.

Os heróis deste livro são bem diferentes daqueles com superpoderes e feitos extraordinários que a mitologia e as telas nos mostram. Perfilados pelo narrador, sobrevivem homens do cotidiano na aparente banalidade dos dias repetitivos, neste século XXI que exige coragem extraordinária. Porque manter a sanidade, a lucidez, a gentileza, a esperança, a criatividade, o lirismo e o humor diante de polaridades políticas, ataques preconceituosos, violências escancaradas, loucuras diversas e ansiedades causadas pela pressão do sistema, é, por si só, um ato de bravura. O homem comum, tornado leitmotiv em ‘Ronan e outros heróis’, é imprescindível, ele é o arquiteto invisível da sociedade. Não age esperando aplausos, monumentos, páginas na história ou o reconhecimento das massas. Resiliente, opera no silêncio do anonimato - sugere Luiz Cruz de Oliveira com o talento literário reconhecido pelos leitores para quem o escritor também é um herói. 

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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