OPINIÃO

Estação Mogiana: o fracasso que embarcou nos trilhos

Por Marília Martins |
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução

Em 2022, a Estação Mogiana de Franca foi fechada e cercada por tapumes. A justificativa apresentada era impedir que pessoas em situação de rua utilizassem suas marquises como abrigo e preparar o imóvel para uma aguardada revitalização, que só ganhou interesse dos políticos da cidade após uma grande mobilização popular. O problema é que a obra demorou mais de um ano para começar. Hoje, mais de três anos depois do fechamento e mais de dois anos após o prazo previsto para sua entrega, o prédio continua sem cumprir sua função para a população.

O caso da Estação Mogiana é um retrato da forma como a cultura vem sendo tratada em Franca há décadas: sem planejamento, sem diálogo com especialistas, sem participação popular e sem visão estratégica de longo prazo. Uma bagunça.

Construída em 1887, a estação é um dos mais importantes patrimônios históricos da cidade. Símbolo do desenvolvimento proporcionado pela ferrovia, ela também guarda memórias fundamentais da formação social da região, inclusive da tragédia que foi a escravização de pessoas negras e da violência que dizimou as comunidades caiapós que viviam aqui muito antes da invasão do território que viria a ser chamado de Brasil. Trata-se de um espaço que deveria ser preservado e transformado em referência de cultura e educação patrimonial.

Foi justamente essa a intenção da legislação que criou o Centro Cultural Salles Duner. O objetivo era consolidar naquele espaço um equipamento capaz de promover arte, história e acesso à cultura. No entanto, a administração municipal passou a tratar o prédio como um espaço sem identidade definida, sujeito a soluções improvisadas, como quase sempre.

Durante a fiscalização da obra, identifiquei falhas que evidenciaram a fragilidade do processo de restauração. Enquanto isso, materiais históricos permaneceram expostos ao tempo durante a eterna reforma, e a entrega da obra foi sucessivamente adiada.

O cenário torna-se ainda mais preocupante quando observamos o destino que se pretende dar ao imóvel. Após investir milhões de reais em uma obra concebida para uma finalidade cultural, a Prefeitura lançou três chamamentos públicos para a implantação de um mercadão.

Todos fracassaram devido ao alto valor cobrado e à estrutura desfavorável para esse tipo de comércio. Até aí, sem novidades. Agora surge a proposta de transferir para o local equipamentos da assistência social que hoje funcionam junto ao Centro Pop, além de outras atividades já deslocadas para o espaço.

Não se trata de questionar a importância das políticas sociais ou quaisquer outras que possam ser alocadas lá. A questão é outra: qual é o planejamento da cidade para seus equipamentos públicos? Como justificar investimentos realizados para uma finalidade específica e, posteriormente, alterar sua vocação sem debate público e sem consulta à comunidade cultural?

A resposta parece estar justamente na ausência de uma política cultural consistente.

Até hoje, Franca não possui um Plano Municipal de Cultura capaz de orientar prioridades, investimentos e a ocupação dos equipamentos públicos. Sem esse instrumento, as decisões passam a ser tomadas de forma improvisada, sem critérios claros e sem continuidade entre governos.

A Estação Mogiana não é um caso isolado. A Casa da Cultura perdeu parte de sua função original desde o início, ao funcionar apenas em horário comercial, justamente quando a maior parte da população está trabalhando. O Teatro Municipal enfrenta limitações estruturais antigas que podem resultar em acidentes relacionados ao peso dos cenários e equipamentos técnicos, além do carpete desgastado e fedido que disputa a atenção de quem vai assistir às apresentações. O Museu Histórico José Chiachiri, que foi furtado mais uma vez, continua convivendo com problemas de preservação e com um projeto que inclui até uma redoma de vidro sobre uma fonte seca. A Praça da Juventude, como diversas outras da cidade, permanece subutilizada. Já a locomotiva que deveria retornar para Franca continua abandonada em Campinas, sem sequer dar sinal de fumaça.

Ao mesmo tempo, artistas e trabalhadores da cultura convivem com incertezas permanentes. O Bolsa Cultura de 2026 ainda não foi lançado. O edital da Política Nacional Aldir Blanc de 2025 permanece sem publicação e corre o risco de só ser executado em 2027. A cidade ficou, mais uma vez, sem carnaval e, desta vez, nem mesmo os tradicionais shows da Expoagro foram realizados.

Quantas apresentações de artistas francanos você pôde prestigiar este ano no seu bairro?

O problema não é apenas cultural. A cultura gera emprego, renda, turismo e oportunidades para centenas de profissionais. Quando uma cidade abandona seus equipamentos culturais e deixa de investir em formação artística, ela enfraquece sua economia criativa, reduz oportunidades para os jovens e empobrece a vida comunitária.

A Estação Mogiana tornou-se o símbolo de uma política marcada pela improvisação: um patrimônio fechado, uma obra atrasada, uma finalidade cultural ignorada e recursos públicos investidos sem clareza sobre o resultado final.

A pergunta permanece sem resposta: qual é o projeto cultural de Franca para os próximos anos?

Enquanto essa resposta não existir, a cidade continuará acumulando obras, prédios e promessas. E perderá, pouco a pouco, aquilo que nenhum orçamento público é capaz de reconstruir depois: sua memória, sua identidade e sua capacidade de produzir cultura.

Na Estação Mogiana, o trem da história continua parado. Mas o fracasso da política cultural já embarcou nos trilhos há muito tempo.

Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora em Franca pelo Psol e Procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Franca.

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