NOSSAS LETRAS

Às vezes deixamos de ver

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 5 min

Humanos modernos andamos pelas ruas, dirigimos nossos veículos, cumprimos trajetos diários, administramos as finanças e tomamos decisões pessoais e profissionais respaldados pela convicção de que nossos olhos veem tudo e nossa mente processa cada dado relevante que irrompe ao redor. Mas as convicções, escreveu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, são inimigas mais perigosas da verdade que as mentiras. Para provar o engano muito comum sobre lucidez absoluta, e desmantelar tal ilusão, andam de mãos dadas a neurociência e a psicologia cognitiva. Nossa mente é, por necessidade biológica, profundamente seletiva, afirmam ambas.

 Longe de sermos câmeras de alta definição registrando o ambiente em tempo integral, somos editores rigorosos que operam por meio de filtros peremptórios. O problema central reside no fato de que esses filtros, desenhados para garantir nossa sobrevivência em ambientes primitivos, muitas vezes falham na complexa malha da vida contemporânea. O resultado dessa desconexão varia de pequenos incidentes irrelevantes, como localizar a chave do carro que está diante dos nossos olhos, a tragédias como a do último sábado, ocorrida em Limeira, cidade paulista. Como visto por milhões de internautas, uma jovem de 24 anos, adepta de um esporte radical, morreu ao ser lançada de uma ponte seca na direção de grande vale de terra, sem corda de proteção. Foram quatro segundos de queda livre.

 Maria Eduarda praticava ‘rope jumping’, similar ao ‘bungee jumping’, em que a pessoa salta presa por uma corda. No vídeo que circulou nas redes sociais, é possível ver o momento da tragédia: a vítima é calmamente carregada de bruços por dois instrutores enquanto um terceiro observa. A corda de proteção aparece no chão, sem estar presa ao corpo da moça, que morreu quarenta metros abaixo. Os responsáveis fugiram do local por meio da mata e só foram localizados algum tempo depois. Presos, têm reiterado que não sabem o que aconteceu. Alegam em sua defesa que várias pessoas haviam saltado sem problemas durante horas e outras esperavam sua vez, depois de terem comprado ingressos a R$180 das empresas ‘Entre Cordas’ e ‘Ih Voei’.

O caso alcançourepercussão enorme , inclusive no Exterior, e especialistas em comportamento, face ao inusitado, vêm se manifestado na tentativa de colocar luz sobre o desastre. Tendo lido muitas matérias factuais a respeito deste caso perturbador, procurei ouvir uma amiga psicóloga. O incômodo que não me abandonava era traduzido por frase mentalmente reiterada: “Como foi possível esquecerem de atar a corda à cintura da moça? A própria moça- como não esboçou qualquer sinal de dúvida?” A especialista a quem recorri sugeriu que talvez fosse o caso de se pensar em “cegueira cognitiva’, ou seja, a incapacidade de enxergar aquilo que está bem diante dos nossos olhos mas por conta de nossa mente estar focada, enviesada ou sobrecarregada torna-se invisível. Essa cegueira temporária não nasce de uma falha de caráter, mas sim do próprio design do nosso cérebro. Para poupar energia, este automatiza processos e filtra o excesso de estímulos. O problema é que, nessa filtragem, deixamos passar dados vitais. É uma linha contínua que vai do cotidiano banal a catástrofes históricas como, por exemplo, alguns acidentes com aviões.

No dia a dia, a cegueira cognitiva opera em baixa voltagem, mas cobra seu preço em tempo e pequenas frustrações. Quem nunca se viu vítima do fenômeno "cadê meus óculos?’ A pessoa passa cinco minutos procurando por eles que estão em cima de um móvel próximo, sob iluminação perfeita. Acontece que a mente desenhou um padrão de onde o objeto deveria estar, e o estímulo visual real é simplesmente ignorado pelo córtex visual. Outro exemplo bem conhecido de escritores é o ‘erro de revisão’. Escreve-se um artigo e não nota uma palavra repetida ou um erro de digitação que só será enxergado na publicação. Explica-se: como o autor sabe o que queria escrever, seu cérebro projeta a imagem idealizada da frase, impedindo-o de enxergar o erro gráfico no texto.

Para compreender a gênese desse fenômeno é preciso analisar a própria economia da atenção humana, me explicou a psicóloga. O cérebro, embora corresponda a apenas 2% da massa corporal, consome aproximadamente 20% da energia metabólica do organismo. Diante de um universo saturado de estímulos visuais, sonoros e táteis, o sistema nervoso central precisa adotar uma estratégia de racionamento. Se tentássemos processar conscientemente cada pixel de informação que atinge nossa retina, entraríamos em um estado de sobrecarga e paralisia cognitiva. Surge assim a atenção seletiva: a capacidade de focar em um aspecto específico da realidade enquanto se negligencia todo o resto. Nossa atenção é a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dos vários objetos ou séries de pensamentos possíveis. Ao iluminarmos um ponto específico com o holofote da nossa consciência, todo o restante do ambiente é lançado a uma penumbra. É nessa escuridão funcional que as tragédias encontram terreno fértil para se manifestar.

A previsibilidade e a rotina são outros anestésicos da percepção. O cérebro humano é uma máquina de previsão que projeta, a todo tempo, o segundo seguinte com base nas experiências passadas. Se um operário realiza a mesma checagem de válvulas há uma década sem que nenhuma alteração ocorra, sua mente passa a "ver" o status de normalidade não pelo que a válvula apresenta no presente, mas pelo que a memória dita que ela deveria apresentar. Esse fenômeno pode criar uma falsa sensação de controle. A pessoa deixa de interagir com o ambiente real e passa a fazê-lo com o modelo mental que construiu.

A cegueira, a normalidade, a previsibilidade, a rotina, a automação podem ser sabotadoras e pavimentar caminho para catástrofes. Devem ter sido esses os fatores a explicar a tragédia de Limeira. Outros elementos elencados seriam o cansaço e a pressa, pois os instrutores estavam trabalhando há horas e havia pessoas na fila para serem atendidas.

Enfim, transformando um cenário de aventura em palco de horror, a morte brutal de Maria Eduarda é episódio que choca não apenas pela violência física de um corpo que cai, mas também pela total desconexão com a realidade demonstrada pelos instrutores. Analisar o fato sob a ótica da cegueira psicológica e outros fatores que junto a ela formaram um combo perfeito, nos ajuda a compreender como a mente humana pode deliberadamente bloquear a percepção do perigo e das consequências irrevogáveis de uma ação letal.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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