COPA DO MUNDO

Como o Comércio da Franca contou o tri de 70 e a cidade da época

Por Leonardo de Oliveira | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Leonardo de Oliveira/GCN
Manchete do 'Comércio da Franca' na véspera da final de 1970
Manchete do 'Comércio da Franca' na véspera da final de 1970

O Portal GCN/Rede Sampi inicia nesta segunda-feira, 22, uma série especial de quatro reportagens que resgata a forma como o jornal Comércio da Franca acompanhou as Copas do Mundo ao longo das últimas décadas. A partir de edições históricas publicadas desde 1970, ano do tricampeonato brasileiro no México, a série revisita não apenas a trajetória da Seleção Brasileira, mas também os costumes, personagens e acontecimentos que marcaram a vida dos francanos em cada período.

No primeiro episódio, a reportagem mergulha nas páginas de junho de 1970, quando o Brasil conquistou definitivamente a Taça Jules Rimet. Mais do que celebrar o tricampeonato, o Comércio da Franca registrou os bastidores da campanha brasileira e retratou uma cidade em pleno crescimento econômico e social.

Uma viagem pela história das Copas

A edição especial publicada à época trouxe uma ampla retrospectiva da participação brasileira nos Mundiais. O jornal relembrou a primeira Copa, disputada em 1930, marcada por divergências entre dirigentes do Rio de Janeiro e de São Paulo que influenciaram a formação da seleção.

Também recordou a eliminação de 1934, na Itália, e a campanha de 1938, quando a decisão do técnico Adhemar Pimenta de poupar Leônidas da Silva na semifinal contra os italianos se tornou uma das maiores controvérsias da história do futebol brasileiro.

O trauma da derrota para o Uruguai na final de 1950 recebeu atenção especial. O periódico destacou o ambiente de confiança que antecedeu a decisão no Maracanã e relembrou a derrota por 2 a 1 diante de mais de 170 mil torcedores.

As páginas também revisitaram a chamada "Batalha de Berna", na Copa de 1954, e a transformação promovida pela Confederação Brasileira de Desportos, que culminou nos títulos mundiais de 1958 e 1962 com craques como Pelé, Garrincha e Amarildo.

Já o fracasso de 1966 foi atribuído à falta de organização, ao excesso de convocados e aos problemas de preparação física da equipe brasileira.

Da desconfiança ao tricampeonato

O Comércio da Franca destacou que a campanha de 1970 começou sob desconfiança. A troca de comando entre João Saldanha e Zagallo gerou questionamentos, mas os amistosos preparatórios ajudaram a consolidar o grupo que entraria para a história.

A publicação relembrou confrontos contra Chile, Áustria, Paraguai, Bulgária, Argentina e Peru, além dos jogos realizados no México para adaptação à altitude.

Ao final da campanha, os números impressionavam. O Brasil marcou 19 gols e sofreu apenas sete durante toda a competição. Jairzinho terminou como artilheiro da seleção com sete gols, seguido por Pelé, com quatro, e Rivelino, com três.

A final que entrou para a história

A edição trouxe uma ficha técnica completa da decisão disputada em 21 de junho de 1970, no Estádio Azteca, na Cidade do México.

Com Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino, o Brasil venceu a Itália por 4 a 1 e conquistou o tricampeonato mundial.

Pelé abriu o placar aos 18 minutos do primeiro tempo. Boninsegna empatou ainda antes do intervalo. Na etapa final, Gérson recolocou o Brasil em vantagem, Jairzinho ampliou e Carlos Alberto Torres marcou o quarto gol, concluindo uma jogada coletiva que se tornaria uma das mais emblemáticas da história das Copas.

A arbitragem foi comandada pelo alemão-oriental Rudi Glockner, auxiliado pelo suíço Rudolf Scheurer e pelo argentino Norberto Coerezza.

A preocupação com Tostão

Entre os bastidores destacados pelo jornal estava a situação física de Tostão. Dias antes da decisão, o atacante havia sofrido fortes pancadas durante os treinamentos e preocupava a comissão técnica.

Os boletins enviados do México, porém, tranquilizaram os torcedores. O departamento médico garantiu que o jogador estava apto para atuar, e ele foi confirmado entre os titulares da decisão.

Outra curiosidade registrada pelo periódico envolvia a escolha da arbitragem. Nos dias que antecederam a final, especulava-se que o árbitro poderia ser escolhido entre representantes das Alemanhas Oriental ou Ocidental caso não houvesse consenso entre as federações envolvidas. A previsão acabou confirmada com a escalação de Glockner.

A Franca de 1970

Enquanto o país acompanhava a campanha da seleção, as páginas do Comércio da Franca revelavam uma cidade em transformação.

Os anúncios comerciais evidenciavam a força da indústria calçadista. Entre eles, ganhava destaque uma campanha da marca Nett, que promovia sua coleção "Inverno 70" em lojas localizadas no centro da cidade.

A vida associativa também tinha espaço garantido. Um edital convocava os sócios patrimoniais da Associação Atlética Francana para uma assembleia extraordinária destinada a discutir mudanças estatutárias e questões patrimoniais do clube.

Já o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) orientava aposentados e pensionistas sobre a distribuição dos novos cartões de pagamento, organizada por ordem alfabética.

Entre feijoadas e páginas policiais

As edições também registravam aspectos da vida social francana. Entre os destaques estava a tradicional "Feijoada da Vovó", promovida na Cabana, estabelecimento ligado ao comendador Fernando Costa e frequentado por famílias da cidade.

O noticiário policial igualmente ocupava espaço nas páginas do jornal. Em uma das ocorrências, um homem investigado por tráfico de drogas negava ter levado maconha para comercialização em Franca, caso que permanecia sob apuração da Delegacia Regional de Polícia.

Mais de cinco décadas depois, as páginas do Comércio da Franca permanecem como um retrato detalhado de uma época. Entre a consagração da seleção de Pelé e o cotidiano da capital do calçado, o jornal preservou memórias que ajudam a compreender não apenas a história do futebol brasileiro, mas também a evolução da própria cidade.

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Comentários

1 Comentários

  • Antonio 22/06/2026
    Em 1970 eu tinha dez anos de idade e me lembro bem da Copa do Tri no México, na minha casa não tinha TV pra assistir, então eu e uma turma ouvíamos os jogos pelo alto-falante zig-zag do Seu Olivar que ficava um pouco acima do Bar 46 do Seu Emílio Ghedini na Praça Sabino Loureiro, praça da Estação. Lembro da festa do Tri no último jogo e dos frequentadores da praça em festa no Bar São João que ficava na esquina em frente à Mogyana.