ACERVO HISTÓRICO

Entre o caixão e o infarto: Franca nas Copas de 1982 a 1994

Por Leonardo de Oliveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Leonardo de Oliveira/GCN
Manchete do 'Comércio da Franca' após eliminação em 1982
Manchete do 'Comércio da Franca' após eliminação em 1982

Na segunda reportagem da série especial iniciada pelo Comércio da Franca, o leitor acompanha como as Copas do Mundo entre 1982 e 1994 extrapolaram o campo e ganharam contornos profundamente locais. Ao revisitar as páginas do jornal, a série mostra que, mais do que narrar gols e resultados, a cobertura registrou o comportamento dos francanos diante do Mundial - entre comemorações, episódios inusitados, acontecimentos policiais e personagens que transformaram cada edição da Copa em um retrato vivo da cidade e do seu tempo.

Revisitar as páginas do Comércio da Franca entre 1982 e 1994 é reencontrar um jornalismo que não se contentava em contar apenas o que acontecia dentro das quatro linhas. Enquanto a televisão mostrava gols, escalações e tabelas, o jornal registrava aquilo que acontecia nas ruas da cidade: as reações, os exageros, as tragédias e os personagens que transformavam cada Copa do Mundo em uma história profundamente francana.

As manchetes daquele período não falam apenas da Seleção Brasileira. Falam de uma cidade capaz de transformar uma derrota em cortejo fúnebre, uma eliminação em silêncio coletivo e um título mundial em uma mistura de buzinas, incêndios, lágrimas e cornetas.

Ao folhear essas edições, percebe-se que o futebol nunca foi apenas um jogo. E isso atravessa gerações.

1982: o 'enterro' de Serginho e a cidade que parou

A Copa de 1982 terminou antes do esperado, mas deixou uma das histórias mais curiosas já registradas pelo jornal.

A derrota para a Itália, na chamada Tragédia do Sarriá, mergulhou o país em uma frustração difícil de explicar. A Seleção de Telê Santana não era apenas favorita. Para muitos, representava a forma ideal de jogar futebol. Em Franca, a eliminação foi sentida imediatamente.

As páginas do Comércio mostram uma cidade praticamente imóvel após a derrota. Indústrias interromperam atividades, sapatarias fecharam as portas e o comércio reduziu o ritmo. O futebol havia conseguido algo raro: alterar o funcionamento da cidade.

Mas a tristeza francana não se limitou ao silêncio. Em um episódio que hoje parece saído de uma comédia popular, um grupo de jovens organizou um enterro simbólico para Serginho Chulapa, apontado por muitos torcedores como um dos responsáveis pela eliminação.

Embora não haja nenhuma foto registrando a passeata fúnebre, o texto registra que com um caixão improvisado pelas ruas do Centro, os manifestantes carregavam cartazes que misturavam revolta e humor. Um deles resumiu o espírito daquele protesto: "Serginho morreu e esqueceu de deitar". A manchete do jornal anunciava um "triste adeus" à Seleção.

1986 e 1990: quando a esperança deu lugar à melancolia

As Copas seguintes revelam uma mudança de humor.

Em 1986, o Comércio ainda encontrava espaço para histórias curiosas e personagens que mantinham viva a chama da esperança. O Mundial aparecia não apenas como competição esportiva, mas como parte da vida cotidiana dos leitores.

Era o Brasil tentando acreditar novamente. Mas as eliminações sucessivas começaram a produzir um sentimento diferente. Quando a Argentina eliminou a Seleção em 1990, as páginas do jornal registraram menos indignação e mais abatimento.

As fotografias publicadas pelo Comércio mostram grupos de torcedores cabisbaixos, sentados em calçadas, reunidos em frente a televisores desligados ou simplesmente caminhando sem rumo pelas ruas.

A manchete resumia o sentimento: "Francanos encaram a derrota do Brasil com muita tristeza". Não havia cortejos simbólicos. Não havia protestos. Havia apenas a melancolia de uma cidade que via mais uma Copa escapar. A esperança ainda existia, mas já não era tão leve quanto antes.

1994: o dia em que a alegria e a tragédia dividiram a mesma capa

Nenhuma edição daquele período traduz melhor a intensidade da relação entre futebol e cidade do que a publicada após a conquista do tetracampeonato.

No dia 17 de julho de 1994, o Brasil encerrou um jejum de 24 anos sem títulos mundiais. A disputa por pênaltis contra a Itália levou milhões de brasileiros ao limite emocional. Em Franca, alguns foram além dele. A manchete do dia seguinte registrava uma notícia que chocou a cidade: um torcedor francano havia morrido durante a decisão.

José Mendes de Oliveira, de 58 anos, morador da Vila Freire, sofreu um ataque cardíaco em meio à tensão da disputa. Enquanto o país comemorava o tetra, sua família vivia um luto inesperado. Era uma história dura. Porém ela revelava exatamente aquilo que o Comércio sempre procurou registrar: os impactos humanos escondidos por trás dos grandes acontecimentos.

E aquela tarde ainda guardava outros capítulos.

A festa provocou incêndios causados por rojões e fogos de artifício. O restaurante Varanda, na Champagnat, foi atingido pelas chamas. Um barracão da Pestalozzi também foi destruído.

Nas ruas, o trânsito transformou-se em um cenário caótico. Houve capotamentos, colisões e feridos em meio às comemorações. Lendo as reportagens da época, a sensação é de acompanhar duas cidades ao mesmo tempo.

Uma celebrava e outra corria para apagar incêndios, atender acidentes e responder ocorrências. Era o tetra visto do chão da cidade, sem filtros, sem glamour e com toda a sua intensidade.

Nem campeão o francano deixava de ser corneta

Talvez o detalhe mais revelador daquela cobertura apareça dias depois da conquista.

O Brasil acabara de se tornar tetracampeão mundial, mas os francanos entrevistados pelo Comércio já discutiam escalações, criticavam jogadores e sugeriam mudanças.

Na seção "Fala, Povo", o comerciante Mário Luís Menezes defendia a entrada de um jovem atacante chamado Ronaldo, do Cruzeiro, então com apenas 17 anos. Outro entrevistado, Paulo Tozzi, afirmava que Bebeto e Romário não haviam rendido nem perto do que Viola mostrara em poucos minutos.

A taça estava conquistada, o povo estava feliz. Mas a corneta continuava cantando. E talvez nenhuma característica represente melhor a relação do brasileiro com o futebol.

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Comentários

1 Comentários

  • Sebastião 27/06/2026
    A copa de 82 foi a que eu mais curti na minha vida, eu tinha 22 anos de idade e assisti aos jogos numa república das minhas amigas estudantes de serviço social da Unesp. Meninas descoladas, inteligentes, engajadas, a gente tbm acampava no Claro em Delfinopolis, nos canyons perto de Capitólio, barraquinhas, fogueirinha à noite, violão e todo mundo cantando junto, as aulas de astronomia à noite olhando o céu de uma mina nerd que sabia de tudo das estralas e os nomes de cada uma delas...tempos bons. Da copa mesmo eu só me lembro do Paulo Rossi que eliminou o Brasil, elas mesmas já diziam que copa do mundo é o ópio pro povão esquecer das suas dores.Eu Eu tive a sorte e o privilégio de ter nascido em 1960, a minha geração foi a mais bem instruída que eu já conheci, não pelos bancos acadêmicos, mas pelos valores que nós pudemos sacar das coisas que aconteciam nos anos 60, 70, 80, depois daquilo tudo virou uma corrida pelo ouro que deformou completamente a sociedade.