ACERVO HISTÓRICO

Da euforia ao trauma: Franca e a Seleção entre 2002 e 2014

Por Leonardo de Oliveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Leonardo de Oliveira/GCN
Capa do Comércio da Franca na edição extra após o fatídico 7x1
Capa do Comércio da Franca na edição extra após o fatídico 7x1

Para a terceira reportagem da série especial do Comércio da Franca, o mergulho chega aos Mundiais entre 2002 e 2014 e mostra como cada Copa deixou marcas que ultrapassaram o futebol. Ao revisitar manchetes, fotografias e reportagens do período, a série revela como o jornal acompanhou não apenas vitórias, derrotas e campanhas da Seleção, mas também os sentimentos coletivos vividos em Franca — da euforia ao silêncio, das ruas aos locais de trabalho. Um resgate que mostra como cada Mundial acabou se transformando em um retrato do tempo e da cidade.

Existem Copas do Mundo que são lembradas pelos gols. Outras, pelos craques. Algumas, pelas derrotas que nunca cicatrizam.

Mas, ao revisitar as páginas do Comércio da Franca entre 2002 e 2014, fica a impressão de que cada Mundial deixou algo ainda mais valioso: um retrato do sentimento de uma época.

Mais do que registrar resultados, as manchetes, fotografias e reportagens ajudam a entender como Franca viveu cada uma dessas jornadas. Afinal, uma Copa não termina no apito final. Ela continua nas ruas, nas conversas, nas fábricas, nos bares e, principalmente, nas páginas do jornal que tentava traduzir em palavras aquilo que milhares de pessoas estavam sentindo ao mesmo tempo.

Ao longo desses quatro Mundiais, o Comércio contou histórias de alegria, esperança, confiança e decepção. Histórias que, vistas hoje, parecem capítulos de uma mesma narrativa.

2002: quando a felicidade ocupou a capa inteira

Algumas edições parecem nascer destinadas a se tornar históricas.

A edição extra de 1º de julho de 2002 é uma delas.

O Brasil acabara de conquistar o pentacampeonato mundial, e o jornal fez aquilo que os grandes acontecimentos exigem: entregou a manchete à felicidade. Não havia espaço para dúvidas, análises ou cautela. A capa celebrava. A cidade celebrava. O país celebrava.

As fotografias mostravam uma Franca tomada pela euforia. A Avenida Champagnat transformou-se em um rio de carros, bandeiras e pessoas. O jornal registrava uma cidade que não queria dormir porque sabia que estava vivendo um daqueles momentos raros que seriam lembrados para sempre.

Mas aquela mesma edição revelava outra característica do bom jornalismo: a capacidade de contar a complexidade de um momento histórico.

Ao lado da conquista do penta estava a notícia da morte de Chico Xavier. Em uma única capa conviviam a festa e a despedida, a celebração e a reflexão. Talvez por isso ela seja tão marcante até hoje.

Poucas páginas conseguiram retratar tão bem as contradições da vida.

Nas reportagens dos dias seguintes, outro aspecto chamava atenção. Em meio à comemoração, o jornal também voltava seus olhos para a rotina da cidade. O então prefeito Gilmar Dominici explicava por que a segunda-feira não seria de folga, e a manchete transformava uma discussão administrativa em um retrato bem-humorado de Franca: "Gilmar comemora muito, mas segunda-feira é dia de trabalho".

Era uma cidade feliz. Talvez feliz demais para parar.

2006: quando a confiança encontrou a cautela

Se as páginas de 2002 transbordavam alegria, as de 2006 revelavam outro sentimento.

Confiança.

Mas uma confiança acompanhada por um pequeno desconforto. O Brasil chegava à Copa da Alemanha cercado por expectativas. A chamada geração dos craques parecia capaz de conquistar qualquer adversário. Ainda assim, algumas manchetes deixavam escapar um receio silencioso.

A França voltava ao caminho brasileiro. Ao observar as fotografias dos radialistas, comentaristas e repórteres acompanhando a preparação para o confronto, percebe-se uma cobertura marcada menos pela euforia e mais pela expectativa.

A manchete "Zebra pode acontecer, mas não sempre" dizia muito mais do que aparentava. Era uma tentativa de afastar um fantasma. O jornal não falava apenas de futebol. Falava da memória de uma derrota que ainda incomodava os brasileiros oito anos depois.

Quando a eliminação aconteceu, as páginas passaram a registrar algo diferente da tristeza de 1998. Havia surpresa, mas também uma sensação de oportunidade desperdiçada.

Pela primeira vez naquela sequência de Copas, o sonho brasileiro parecia menos sólido do que imaginávamos.

2010: a Copa das perguntas sem resposta

A África do Sul trouxe uma sensação diferente.

Ao revisitar as edições daquele período, percebe-se que a cobertura carregava menos glamour e mais pragmatismo. Era uma Seleção questionada, mas respeitada. Uma equipe que não encantava tanto quanto outras gerações, mas que ainda despertava esperança.

O jornal acompanhou uma cidade que, como sempre, entrou no clima do Mundial. O comércio se vestiu de verde e amarelo. As vitrines ganharam bandeiras. Os bares se prepararam para receber torcedores.

Tudo parecia caminhar normalmente até a derrota para a Holanda. O interessante é que as páginas daquele momento não transmitem choque nem revolta. Transmitiam dúvida.

A sensação que emerge das reportagens é a de uma pergunta coletiva: "Onde erramos?".

Era uma eliminação difícil de aceitar, mas ainda distante da dimensão emocional que viria quatro anos depois.

Em 2010, o Brasil não parecia derrotado. Ainda não.

2014: quando o jornal precisou contar o inacreditável

Talvez nenhum arquivo seja tão impactante quanto o de 2014.

Porque aquela não era apenas mais uma Copa, era a Copa do Brasil. A chance de tirar o fantasma de 50, de esquecermos o gol uruguaio que assombrou a vida de Barbosa, de lembrarmos o por que de termos ganho a alcunha de país do futebol.

Ao longo de semanas, as páginas do Comércio registraram o entusiasmo de uma cidade que acreditava estar diante de um momento histórico. As ruas foram decoradas. Os estabelecimentos comerciais aderiram ao clima do Mundial. Os torcedores voltaram a sonhar.

Tudo indicava que a narrativa caminhava para uma grande celebração. Então veio a Alemanha. E vieram sete gols. E cinco deles aconteceram em meia-hora.

Anos depois, ainda impressiona perceber o desafio enfrentado pelos jornais na manhã seguinte. Como explicar algo que parecia inexplicável? Como transformar em manchete um sentimento que misturava incredulidade, vergonha, tristeza e perplexidade?

As páginas do Comércio daquele período carregam essa sensação. Não tentava apenas informar, tentava compreender. Fazer sentido do que não fazia sentido algum. Os cinco estágios do luto em uma manchete: vexame.

Talvez seja por isso que o material continue tão importante. Porque ele registra o momento exato em que milhões de brasileiros ficaram sem palavras e os jornais precisaram encontrá-las.

O que as manchetes guardaram

Ao olhar para essas quatro Copas em sequência, percebe-se que o acervo do Comércio da Franca preservou muito mais do que a trajetória da Seleção Brasileira. Guardou estados de espírito. Bravatas que definem à risca o sentimento coletivo de cada ano de mundial.

Em 2002, a felicidade. Em 2006, a confiança. Em 2010, a dúvida. Em 2014, o espanto.

Poucas coisas têm tanto valor quanto isso. Mas a história ainda não acabou.

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