LITERATURA

Embargos (ou uma profecia)

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Pensem num homem comum que acorda em Lisboa numa manhã gelada e cinzenta. Ele precisa trabalhar e sua primeira preocupação é abastecer o carro e evitar que lhe furtem a gasolina. Isso porque o mundo vive a angústia da crise do petróleo motivada por conflitos no Oriente Médio nos anos 70.

Ao entrar no automóvel e dar partida, percebe que a relação normal de domínio se inverteu. O veículo passa a manifestar vontade própria. Vai para a direita, contrariando o desejo de quem pretende dirigi-lo pela esquerda; não obedece às marchas; segue em frente e recusa a ré. Cumpre trajeto diferente do previsto, passa por postos de gasolina vazios e filas de consumidores impotentes. Dita a rota e a velocidade enquanto cabe ao homem apenas manter os pés nos pedais. Aos poucos o motorista descobre amedrontado que, ao tentar abrir a porta para fugir, seu corpo simplesmente não o obedece. E mais: o carro trava sua saída; ele está preso. Ainda tenta voltar para casa, até consegue estacionar defronte de seu prédio, pede ajuda a um menino para chamar sua mulher, mas não logra sair. Bate o desespero.

A máquina assume o controle total do itinerário, leva o homem por cenários sombrios e o agrega às suas entranhas, lembrando um ser sedento procurando água ou faminto em busca de alimento. Sem nome, profissão definida ou rosto detalhado, este condutor que quer inutilmente conduzir, representa o homem comum da sociedade industrial capitalista cuja individualidade é anulada e é definido apenas pela relação com o objeto de desejo e status: o automóvel, cujas características biológicas e predatórias estão marcadas por expressões como "frêmito animal" e "arfar profundo e impaciente".

Fundido à máquina, o motorista é obrigado a urinar e defecar nas calças, perdendo sua dignidade humana. A angústia atinge o ápice quando ele percebe que clamar por ajuda o transformaria num "espetáculo" público, preferindo o isolamento à vergonha. Permanece grudado no banco do carro que segue sem destino. Horas depois de ter começado a empreender essa jornada surreal, a máquina morre porque o combustível acaba. No entanto, a simbiose foi tão destrutiva que, ao recuperar a liberdade física, o homem perde a vida — ele morre junto com o motor. Foi reificado, transformou-se em coisa.

A história sintetizada acima tem o título de ‘Embargo’. Seu autor é o escritor português José Saramago, Nobel de Literatura. O conto foi publicado originalmente na coletânea ‘Objeto Quase’, no contexto das crises petrolíferas do século passado. O texto utiliza o realismo fantástico para construir uma crítica contundente à sociedade de consumo e à dependência tecnológica. No enredo, o tempo cronológico avança de forma opressiva através do painel do carro e da deterioração física do motorista, simulando uma contagem regressiva. O autor engenhoso produz frases que mimetizam o movimento do automóvel e períodos longos que sem pontuação geram sensação de fluxo contínuo, velocidade incomum e falta de ar. Aliás, o arranjo do binômio tempo/ espaço é elemento essencial para comunicar a sensação de claustrofobia e antecipa os grandes experimentos formais que Saramago consolidaria anos mais tarde em romances como ‘Ensaio sobre a Cegueira’, onde um narrador em 3ª pessoa usa discurso indireto livre para desvelar seu sofrimento. Como não é dado ao leitor observar o carro de fora, experimenta o terror junto com o homem aprisionado à máquina.

Quando Saramago escreveu este conto, em 1976, a memória geopolítica dos choques do petróleo estava latente. Contudo, seu olhar ultrapassou o evento histórico para enxergar a fragilidade intrínseca da infraestrutura capitalista. O conto profetiza a vulnerabilidade das metrópoles contemporâneas, cuja sobrevivência depende de fluxos invisíveis e ininterruptos de energia. No texto, a escassez de combustível gera uma paralisia que é, simultaneamente, macroeconômica e microexistencial, o que justifica o título ‘Embargo’, palavra que tanto pode ser entendida do ponto de vista político como ‘racionamento’, como, sob o ângulo psicológico, pelo viés da sinonímia de ‘bloqueio’. O ficcionista anteviu o risco que cada vez mais correria o homem contemporâneo diante da dificuldade de habitar o espaço de forma orgânica, por conta de a relação com o território ter sido inteiramente mediada pela velocidade do automóvel. Quando o fluxo é interrompido pelo embargo, o tempo não se dilata para a reflexão, mas se contrai em desespero e barbárie velada, um prenúncio das crises de abastecimento (o fechamento do Estreito de Ormuz é um exemplo atual) e dos colapsos climáticos a que hoje assistimos globalmente.

Sob o ponto de vista da narrativa, ‘Embargo' funciona como uma engrenagem perfeita: ao transferir a vitalidade do sujeito para o objeto, o escritor constrói metáfora implacável sobre como os sistemas econômicos e tecnológicos que criamos para nos servir podem acabar nos engolindo. No conto, gestado há 50 anos, Saramago compõe uma profecia alegórica sobre a dependência tecnológica e a alienação pós-moderna. A premissa, à primeira vista simples — um homem aprisionado dentro de seu próprio carro —, expande-se como um diagnóstico sombrio do século XXI. Saramago sinaliza o perigo da falência da soberania humana diante das máquinas ao inverter a lógica da ferramenta: o condutor deixa de ser o sujeito que opera a máquina para se tornar o combustível biológico que a alimenta.

Será que o surgimento de tecnologias extraordinárias, de que a IA é um exemplo, estaria pavimentando o caminho para a mais absoluta captura da existência humana?

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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